Opinião & Análise

EUA

Brexit, Trump, Le Pen e a antiglobalização

Uma tendência por uma atuação governamental mais centralizadora

Ao contrário do que poderia se esperar, nos dias de hoje, observamos países que estão caminhando na contramão do que tanto se defendeu, décadas passadas, em termos de integração dos mais diferentes mercados, objetivando a melhoria do bem-estar da sociedade mundial. Em tempos de Brexit, Trump e Le Pen, muito se debate a retração da abertura dos mercados. E, por ironia, países como a China, com regime totalitário e controlado, começam a defender a globalização e o livre comércio para a melhoria das condições de vida da sua população.

O fato é que a forte presença do pensamento liberal permitiu a rápida globalização dos mais diferentes mercados, fazendo com que o comércio e as transações financeiras internacionais passassem a ter maior fluidez além fronteira. A redução dos custos de logística e comunicação também permitiu que os movimentos de capitais e de investimentos se tornassem mais céleres, encurtando distâncias e o tempo para as mais diferentes transações.

A evolução do padrão econômico foi acompanhada pela compreensão da necessidade de se operacionalizar a liberdade mercantil como base para a organização estatal. Como consequência lógica, o racionalismo reconheceu no homem a capacidade de se posicionar ante os eventos econômicos, sem a necessidade de apoiar-se em orientações ou decisões governamentais. O reconhecimento de Economias de Mercado refletiu no padrão normativo de cunho Liberal de diversas nações, com a adoção de mecanismos jurídicos de combate às denominadas falhas de mercado – como a concentração econômica e existências de externalidades – que colocassem em risco a natural formação de preços de mercado.

Mas, neste processo, começou-se a observar a rápida deterioração de algumas sociedades, com o aumento da desigualdade, desemprego elevado, diminuição da participação da mão-de-obra nos processos de produção e desindustrialização, expondo de forma crescente a tensão do tecido social em algumas regiões. E os governos, aparentemente, incapazes de assegurar que os ganhos do crescimento econômico fossem mais amplamente compartilhados, começou a minar a crença na justiça do sistema.

A Grã-Bretanha, nação que séculos atrás dominou o comércio mundial, tendo inclusive a moeda de curso universal, fincou sua bandeira onde sua capacidade colonizadora alcançava, e que, por consequência, carrega por trás de si a Commonwelth of Nations (Comunidade das Nações), organização intergovernamental composta por 53 países membros independentes.

Em 1973 a Grã-Bretanha ingressa na Comunidade Econômica Europeia (CCE) tendo como motivação principal o aspecto econômico, mas que se mostrou infrutífera logo nos dois primeiros anos, com a sensação da perda da soberania nacional, taxa de inflação persistente em 20%, ampliação da oferta de mão-de-obra, especialmente com a criação da União Europeia, e obrigatoriedade no pagamento de contribuição financeira ao bloco.

Por outro lado, os Estados Unidos incentivou, em meados do século XX, suas grandes corporações a atuarem junto aos mercados consumidores, especialmente fora de suas fronteiras, dando início ao processo de internacionalização dos processos de produção, que acabou permitindo o surgimento de grandes conglomerados que passaram a dominar o mercado mundial.

Na ânsia de produzir ao menor custo, muitas empresas passaram a se instalar onde pudessem manter essa condição, e acabaram buscando países onde o peso da mão-de-obra pesasse menos, como na China, onde o custo da mão de obra chegava a ser 40 vezes menor do que era pago nos EUA. Essas mudanças afetaram a demanda do mercado de trabalho norte-americano, bem como a oferta de bens ao mercado consumidor, agravado pela alta atratividade que o país apresenta para a imigração, legal ou não.

A França, potência mundial entre os séculos XVI e XX, que teve no franco francês a moeda reconhecida nos mais distantes rincões, construiu ao longo desse tempo o Império Colonial Francês, constituído por um conjunto de colônias no continente americano, africano, asiático e na Oceania. Outro fato a destacar foi o estancamento no crescimento populacional francês, ao contrário do que se observava no restante do continente europeu, já a partir do século XIX.

O fato da população não aumentar, enquanto a de outros países europeus chegou a triplicar, fez com que países vizinhos passassem a suprir a falta de mão de obra dentro do território francês. O próprio governo criou mecanismos para estimular a imigração, especialmente a oriunda de suas colônias. E com a criação da EU, o processo imigratório oriundo das mais diferentes fronteiras aumenta. Dessa forma, aumentou a preocupação contra o racismo e a discriminação.

No plano político-econômico, nota-se uma gradual tendência por uma atuação governamental mais centralizadora, promessa do atual governo Trump. Referido movimento surge com a justificativa de tutela de segmentos industriais estratégicos, da proteção de empregos ou do combate de déficits comerciais, podendo, ainda, não podemos desconsiderar, estar orientada a determinada inclinação ideológica ou política.

As questões que ficam são, a par de questões ideológicas, como lidar de forma eficiente, no arranjo atual da economia global, com o desemprego e a redução da expansão econômica, e ferramenta de interferência no comércio internacional? A tendência da “antiglobalização” seria momentânea ou o início de um novo ciclo jurídico-econômico com uma nova conformação do mercado global?


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