Opinião & Análise

Justiça em série

Bom de briga – A 5ª temporada de Ray Donovan

HBO estreou temporada que conta com a participação de Susan Sarandon

Quando o canal americano Showtime decide fazer algo cru e bem “soco no estômago”, não há quem o segure ou lhe dê limites. Algumas de suas atrações não seguem cartilhas nem fórmulas fáceis. Raras são as vezes que vemos na telinha um galã óbvio ou uma queridinha da América protagonizando suas atrações mais controversas. Porém, fugir do lugar-comum e mostrar um cenário que desafia o espectador parece ser sua especialidade.

Foi assim com “Dexter”, série que tem enredo inovador, um anti-herói ousado, cenas brutas, mas virou febre ao fazer o público torcer e defender um serial killer. “Californication” também não fica atrás. A Showtime conseguiu reverter completamente a figura do agente nerd Fox Mulder, de “Arquivo X”, e transformou David Duchovny no escritor mulherengo Hank Moody. Aqui, também, o público – inclusive as mulheres, mesmo as feministas – perdoavam todos os deslizes, traições e atitudes babacas do quarentão que só quer saber de sexo, drogas e rock n’ roll. Com “Weeds”, o canal fez todos apoiarem a dona de casa que virou produtora e traficante de drogas para sustentar sua família. No universo GLBT, a Showtime inovou com séries nada contidas e com cenas de sexo nada veladas “Queer as Folk” e a ótima “The L Word”.

Agora, o representante da vez é Ray Donovan (Liev Schreiber), o cara briguento, nada sensível, que trai sua mulher com qualquer rabo de saia que aparece em sua vida, vê seus filhos quando dá, mas faz de tudo para defender e proteger a família, inclusive seus irmãos. O diferencial da série, desta vez, não é apenas ter um protagonista cheio de defeitos. “Ray Donovan” tem algo muito inusitado: a série tem como cenário a cidade de Los Angeles e, vejamos bem, a maioria das atrações que se passam em Los Angeles são recheadas de gente muito bonita, fina, elegante e nada sincera, certo? Mas há glamour, sempre.

“Ray Donovan” não tem glamour. Nada. Ao menos não na primeira temporada. A terceira ganha um charminho com a presença de Katie Holmes, mas com aparelho fixo nos dentes. Nenhum ator ou atriz da série é superlindo nos padrões hollywoodianos. Ray até que tem seu charme, mas não é assim um Brad Pitt. Seus irmãos, Terry (Eddie Marsan) e Brendan (Dash Mihok) também não têm a beleza como principal atributo, assim como a maior parte do elenco. Isso, em uma série de tevê que mostra o lado pobre e milionário da cidade de Los Angeles é um choque.

Nada em “Ray Donovan” é maquiado. As cenas de sexo são cruas. Não há romantismo, mesmo quando há paixão. Os personagens bebem. E bebem muito. Os adolescentes bebem, usam drogas e são um pouco estúpidos. Todo mundo faz besteira (para não falar um palavrão) e ferra (para não falar outro palavrão) com a vida de todo mundo. Os personagens estão machucados. As vidas deles estão caóticas. Ninguém é bonzinho, ninguém é equilibrado. Todo mundo tem segredos e sujeiras varridas para baixo do tapete. E, às vezes, para tentar consertar o que está quebrado ou para tentar colocar as coisas no eixo, essas pessoas só conseguem apelar para a violência. Brigas, pancadarias, assassinatos, chantagens… E Ray é bom nisso. O cara é um “fixer”, ou seja, um mago que tenta arrumar suas besteiras. O problema é que ele também tem questões que varreu para baixo do tapete e tem gente fazendo faxina. Então, seja para os outros ou para ele mesmo, Ray está sempre tentando consertar as coisas e, claro, pegando atalhos.

Na série, Ray é o irmão do meio. Terry, o mais velho, é dono de uma academia de boxe e tem Mal de Parkinson. Brendan, o mais novo, sofreu abuso sexual de um padre quando era criança a ganhou uma indenização da Igreja Católica. Por causa desse abuso, Bunchy, como é chamado, tem problemas com sua sexualidade e age como se fosse ainda uma criança. Os três têm ainda um meio-irmão, Daryll (Pooch Hall), que ainda briga para ser completamente aceito na família. O patriarca é Mickey Donovan, brilhantemente interpretado por Jon Voight. Mick é péssimo. Ele é horrível em todos os aspectos. Ele sustenta o alcoolismo de Bunchy; coloca Daryll sempre em situações constrangedoras e o arrasta para seus trambiques; fornece drogas e até garotas de programa para seu neto Conor (Devon Bagby), o filho de Ray; e só arruma confusões para Ray consertar.

Na primeira temporada, o público vê bem claramente como é difícil essa relação de Ray com Mickey, que acaba de sair da cadeia. Ray tem tanta raiva do pai que até contrata um bandidão para matá-lo. Nas temporadas seguintes, a gente acompanha as trapalhadas de Mickey, o verdadeiro charlatão, bandidinho pé de chinelo, mas sempre bem arrumado, como um membro da máfia lá nos anos 1970. São sempre ótimas as falas de Mickey, um dos grandes personagens da série. As mazelas familiares de Ray não param aí. O moço ainda tem de cuidar de sua mulher Abby (Paula Malcomson) e seus filhos Conor e Bridget (Kerris Dorsey), que sempre se metem em enrascadas, até mesmo em assassinatos.

Profissionalmente, Ray ainda tem de arrumar as confusões armadas por seus clientes. Para isso, ele conta com a ajuda de Avi (Steven Bauer) e Lena (Katherine Moenning), na primeira temporada, principalmente. Na segunda temporada, seu voo é mais solo, com algumas exceções. A primeira temporada tem participação de James Woods, como Sully, um inimigo dos Donovan. Rosana Arquette também está no elenco. A segunda apresenta Hank Azaria e Sherilyn Fenn. Katie Holmes está nos créditos terceira temporada para enlouquecer Ray. Já a estrela convidada desta quinta temporada é Susan Sarandon. Luxo, não?

As quatro primeiras temporadas de Ray Donovan estão em cartaz na Netflix. Já a quinta temporada, que começou mês passado nos Estados Unidos, vai ao ar no Brasil pelo canal pago HBO. A série estreou no dia 11 de agosto e é exibida toda sexta-feira, às 21 horas.


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