Opinião & Análise

relações governamentais

A ascensão de RIG pelas lentes do Anuário Origem 2021

Terceira edição de pesquisa traça radiografia da área de RelGov no Brasil, que cresceu em tamanho e relevância durante a pandemia

anuário origem
Crédito: Pixabay

O contexto externo do ambiente de negócios – e de forma ainda mais ampla, de toda a sociedade – onde a atividade de RIG (Relações Institucionais e Governamentais) primordialmente se desenvolve vêm sofrendo grandes modificações em função do impacto de muitas e variadas externalidades, dentre as quais a pandemia da Covid‑19, demandando novas necessidades de adaptação e reflexão pelas organizações.

Isso refletiu internamente na área de RIG, chegando aos seus integrantes. Torna-se, assim, mister que todos estes atores – organizações, áreas e profissionais – entendam as mudanças em curso e preparem-se para fazer frente a ainda maiores desafios futuros para concretizarem seus objetivos e propósitos no chamado RIG 4.0, que pode ser definido como o processo ético, transparente e inclusivo de engajamento via múltiplos canais e tecnologias com interlocutores-chave da organização, visando influenciar decisões em uma abordagem de cocriação de valor percebido que permita o atingimento conjunto de objetivos estratégicos para todas as partes envolvidas e interessadas.

Em função disso, ao longo dos últimos anos percebia-se o crescimento em importância estratégica da área de RIG, ficando mais próxima ao “C-level” das organizações, com um maior número de integrantes, mais recursos e uma maior atividade com multiplicidade de temas e responsabilidades.

A partir de 2019, essa percepção ganhou métricas e reconhecimento por meio do lançamento do Anuário Origem, uma idealização das empresas Consult‑Master, LEC e Vittore, em realização conjunta com Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig) e Instituto de Relações Governamentais (Irelgov), que de forma pioneira reúne dados consolidados dessa atividade e dos principais nomes das lideranças de RIG no Brasil.

A recém-lançada terceira edição do anuário em evento que contou com mais de 200 convidados no WTC São Paulo, dentre os quais o secretário-executivo do Ministério da Economia, e um painel especial com 6 CEOs consumiu nove meses de pesquisa e elaboração, resultando em vários recordes como as 204 páginas (ante 138 em 2020 e 114 em 2019), 32 patrocinadores e mais de 500 nomes e fotos de profissionais de RIG, divididos em cinco segmentos de atuação – empresas, consultorias especializadas, escritórios de advocacia com área de RIG, entidades setoriais nacionais e organizações do terceiro setor.

A edição 2021 traz oito reportagens especiais, além de resultados comparativos de ampla pesquisa (mais de 70 questões) com 400 respondentes e a lista com os 20 profissionais mais admirados no ano pelos participantes do anuário, em votação que contou com mais de 800 votos válidos auditados duplamente por empresa independente (Alonso, Barretto & Cia) e pela editora.

Assim, o objetivo deste artigo é trazer alguns dos dados mais relevantes da pesquisa do Anuário Origem 2021 para ratificar algumas das principais percepções deste complexo mercado, assim como corroborar possíveis tendências que podemos esperar para 2022, em um ano onde o ORIGEM estenderá sua abrangência para outros países da América Latina.

RIG nas empresas

A participação voluntária e gratuita no anuário de lideranças em RIG (ou seja, nível gerencial e acima) ainda é maior nas empresas que apresentam faturamento anual igual ou superior a R$ 1 bilhão, atingindo 78,7% dos respondentes desta categoria (em 2020 este percentual foi de 72,9% e, em 2019, de 75,9%).

De forma correspondente, o número de empresas com número de funcionários igual a 5.000 ou mais é preponderante (52,8%). Apesar de em um primeiro momento esses dados irem ao encontro da crença comum de que “lobby é só para grandes empresas”, os números indicam que devemos estimular uma maior participação dos líderes de médias e pequenas empresas que tenham a atividade de RIG nas respostas ao questionário do anuário, pois o envolvimento com partes interessadas externas e, especificamente, com diferentes níveis de governo não é algo exclusivo das grandes organizações. Com o apoio de diversas ferramentas digitais disponíveis, por exemplo, pequenas e médias organizações e até mesmo um cidadão ou grupo organizado pode realizar essas atividades – uma das matérias do Origem 2021 trata exatamente desse ponto.

Por outro lado, a diferença de participação entre empresas estrangeiras e nacionais encolheu muito. Em 2020 os percentuais eram, respectivamente, de 65,2% e 34,8%; em 2021, passaram para 52,3% e 47,7%. Ou seja, de uma diferença de 30,4 para apenas 4,6 pontos percentuais, indicando um melhor balanceamento nas respostas desta categoria.

Um dado significativo que veio evidenciar e reforçar a importância crescente de RIG nas empresas é a evolução do número de funcionários dessa área. A faixa que mais cresceu foi justamente a de seis ou mais integrantes, que passou de 22% em 2019 para 27,5% em 2020 e 40,7% em 2021. Parece que estamos deixando para trás o tradicional formato de “one person show” ou “euquipe”, outrora tão comum de ser ouvido. Na realidade, as áreas que têm apenas uma pessoa à frente de RIG foram se tornando minoria progressivamente, com 18,2% em 2019, 13,6% em 2020, e agora 10,2% dos respondentes em 2021.

Em termos de governança, outro dado que merece destaque foi o crescimento hierárquico de RIG. A linha principal (direta) de reporte da área para um nível global ou regional subiu de 31,4% para 49,1%, e a secundária (indireta) para a presidência ou CEO cresceu de 26,2% para 33,0% de 2020 para 2021.

Os dados do Origem 2021 também reforçam uma das características mais marcantes da área de RIG, que é a de exercer um papel de catalisador estratégico nas organizações, devendo interagir com múltiplas áreas internas. A maior interação dessa área nas empresas continua sendo com o jurídico (47,9%), seguido de perto pela presidência (45,3%), e na sequência regulatório (33,9%), comunicação (32,8%), compliance (26,6%) e financeiro/tributário (26%).

Com relação ao orçamento anual, os dados consolidados da pesquisa do Origem 2021 indicaram que, nas empresas, houve estabilidade em 53,8% dos casos quando comparado com o ano anterior, e aumento em 21% dos respondentes. A faixa de até R$ 999 mil predomina, com 42,2%, seguida de 37,2% para orçamentos entre R$ 1 milhão e R$ 4,9 milhões.

Esse orçamento estável e enxuto (se comparado com outras áreas-chave das organizações) parece trazer à tona a máxima de “fazer mais com menos”, pois os temas de monitoramento e ação da área se multiplicaram nos últimos anos, com o maior peso e impacto das externalidades locais, regionais e globais.

Durante a pandemia da Covid-19, por exemplo, eventos e reuniões online proliferaram nas redes. Negociações para a determinação de atividades “essenciais”, pedidos de novas linhas de financiamento, postergação na cobrança de tributos e flexibilizações na contratação de funcionários foram algumas medidas implementadas. Para todos esses e outros temas correlatos, o envolvimento de RIG foi e será essencial.

O Anuário Origem 2021 indica os seguintes temas como os que mais preocupam os profissionais dessa área nas empresas: mudanças nas estruturas e no relacionamento com o governo (38,9%), pressões da sociedade sobre o poder público para promover mudanças que podem impactar as atividades da empresa (31,6%), e limitações de recursos financeiros para conduzir as atividades da área de maneira otimizada (20,5%).

Numa comparação com o levantamento de 2020, também aparecem grandes variações entre as principais prioridades para a atuação de RIG nas empresas: formulação de políticas públicas (de 31,2% para 55,2%), adequação do ambiente regulatório aos objetivos de negócios (de 22,5% para 42,7%) e o maior aumento – reflexo direto das mudanças no contexto já mencionadas – de sustentabilidade e meio ambiente (de 6,4% para 27,1%).

Com relação ao impacto das ações de governo nas empresas, três destaques percebidos como altamente negativos foram votados de forma mais expressiva, que tradicionalmente fazem parte dos discursos quando o tema é o que é preciso se ter, idealmente, na condução das estratégias empresariais. São eles: política tributária (60,1%), segurança jurídica (60,9%) e previsibilidade para o ambiente de negócios (58,6%).

RIG nas associações

No caso das entidades setoriais de âmbito nacional, os destaques do Origem 2021 incluem, inicialmente, o forte crescimento da presença de uma área específica de RIG em suas estruturas, que passou de 73,5% dos casos em 2020 para 87% em 2021.

A estabilidade orçamentária anual da área chega a ser maior do que no caso das empresas, atingindo 65,1% dos casos retratados pelos respondentes, assim como a faixa de até R$ 999 mil, que atinge 75% dos casos.

Em termos de prioridades de RIG para as associações, destaca-se o crescimento de 2020 para 2021 dos temas de formulação de políticas públicas (de 26,3% para 55,6%), evitar ações do poder público que inviabilizem o negócio (de 13,2% para 46,7%) e, assim como no caso das empresas, o maior salto refletindo as externalidades sentidas no caso de sustentabilidade e meio ambiente (de 10,5% para 26,7%).

RIG nas consultorias e escritórios de advocacia

A maioria das consultorias especializadas em RIG participantes do Origem 2021 apresenta faturamento anual de até R$ 999 mil (37,3% dos casos), seguida por aquelas que faturam entre R$ 1 milhão e R$ 2,4 milhões (26,9%) por ano. A predominância nesse segmento é de uma equipe de até nove funcionários (47,5%), com os times entre 10 e 24 colaboradores aparecendo em 18,8% dos casos, mesmo percentual das equipes com 25 até 49 funcionários.

A principal área de interação desses consultores é a própria área de RIG nas empresas em 77,5% dos casos. Na sequência, pela ordem em que aparecem citadas na pesquisa do Origem 2021, aparecem presidência (49,3%), jurídico (35,2%), comunicação (32,4%) e regulatório (25,4%).

Nesse mesmo quesito, para os advogados externos que tratam de RIG, o contato mais frequente é com a própria área jurídica das empresas, citada por 66,7% dos respondentes. Em seguida figuram a área de RIG (38,1%), regulatório (33,3%), compliance (33,3%), presidência (23,8%) e comunicação (23,8%).

Nesses dois segmentos, chamam a atenção os efeitos das muitas alterações de cenários devido às externalidades no caso da demanda pela contratação de serviços de RIG quando comparamos a evolução dos dados de 2020 e 2021. Mais uma vez os dados trazidos pelo Origem corroboram o crescimento da importância da atividade de RIG. Nas consultorias, essa demanda cresceu para 50,9% dos respondentes (em 2020 tinha crescido para 33,8%), e para os escritórios cresceu muito (ou seja, mais de 20%) para 37,5% dos respondentes – em 2020 esse índice foi de 14,8%.

Quando questionados sobre as prioridades de RIG, estes dois segmentos trazem como item mais citado a interlocução com o Legislativo (58,9% para as consultorias e 38,1% no caso dos escritórios de advocacia). A interlocução com o Executivo aparece em segundo lugar – no caso das consultorias 57,5% e para escritórios 33,3%.

Destaca-se o crescimento da importância e priorização de formulação de políticas públicas no caso de escritórios de advocacia com área de RIG, que subiu de 12% em 2020 para 33,3% em 2021. Ambos os segmentos também acompanham o crescimento registrado no caso de empresas e associações quando o tema é sustentabilidade e meio ambiente, subindo a priorização de 6,3% para 19,2% nas consultorias, e de 4% para 23,8% com relação aos escritórios.

Destaques gerais do Anuário Origem 2021

O anuário traz ainda uma série de dados e séries históricas importantes para acompanhamento dos profissionais de RIG em qualquer dos segmentos retratados. Por exemplo, verifica-se a tendência, de 2019 a 2021, de uma menor idade na liderança de RIG, sem que isso represente uma “juniorização” da área. A maior queda nesse quesito acontece nas associações, onde a idade dos líderes diminuiu de 58 anos em 2019 para 45 anos em 2021. A atratividade de RIG para os jovens, resultado que deve ser comemorado, é inclusive retratada em uma das matérias especiais do anuário.

Outro ponto de destaque é a questão da diversidade. A participação de mulheres na liderança de RIG vem crescendo de maneira consistente desde 2019, alcançando em 2021 37,9% nas empresas; 34,1% nas consultorias; 32,6% nas associações; e 27,3% nos escritórios de advocacia.

A participação de grupos menos favorecidos na área de RIG também denota evolução, embora mais lenta, no caso de negros (34,4% nas empresas) e LGBTQIA+ (19,6% nas associações), mas no caso de pessoas com deficiências (PCDs) há uma oportunidade de estímulo de contratação nas consultorias, onde o grupo representa apenas 3,6%.

Um dado a ser notado é o crescimento vertiginoso – como esperado em edições anteriores do Anuário Origem – do papel de RIG nas empresas em relação à política de diversidade. O percentual que indica uma atuação ativa (embora não liderando o processo) saltou de 18% em 2020 para 51,2%. Com relação aos profissionais mais admirados de 2021, foram eleitos pelos próprios participantes do anuário 10 homens e 10 mulheres.

Finalmente, na matéria sobre regulamentação da atividade de RIG, vale destacar o que pensam os profissionais da área com relação à favorabilidade do tema em 2021 (85,7% para associações, 83,8% para consultorias e 80,6% para empresas), assim como da criação de um cadastro público (83,7% para associações, 75% para empresas e 54,1% no caso de consultorias).

Com base em todo o exposto, já temos dados – que continuarão a ser coletados pelo Origem – para comprovar o real crescimento da área de RIG em importância e relevância, assim como focar oportunidades de melhoria em prol desta complexa e essencial atividade.