Opinião & Análise

STF

As suspeitas e suspeições em tempos de Lava Jato

Temer, Lula, Gilmar Mendes, Janot, Raquel Dodge e as desconfianças cruzadas

Brasília - O presidente Michel Temer faz pronunciamento após a aprovação do relatório que desautoriza o STF a investigá-lo (Valter Campanato/Agência Brasil)

Michel Temer suspeita de perseguição por parte de Rodrigo Janot. Lula desconfia da parcialidade do juiz federal Sérgio Moro. O procurador-geral da República arguiu a suspeição do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Mendes, por sua vez, levantou suspeitas sobre vazamentos seletivos na Procuradoria-Geral da República e sobre suposto conluio do Ministério Público com a JBS – além de outras tantas críticas. Barroso suspeita que há um cerco contra a Lava Jato, inclusive no Judiciário.

Todas essas desconfianças tornaram-se públicas, algumas delas formalizadas em processos judiciais, mas se somam às suspeitas suscitadas em reserva, como: Gilmar Mendes seria o líder de um movimento no Supremo para desmontar a Lava Jato; Fachin, julgador, e Janot, investigador, estariam em controversa sintonia.

A arguição de suspeição é instrumento legítimo a ser usado pela defesa quando desconfia da imparcialidade do julgador, acusador ou advogado que atua no processo. Mas quando se trata de Lava Jato, não raro, as suspeitas deixam de ser instrumento jurídico e descambam para ataques pessoais, desqualificação de agentes públicos e de instituições ou manifestações de cunho político-eleitoral.

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E os atores deste cenário de desconfiança ampla, geral e irrestrita, a começar pelo presidente da República e também passando pelo Supremo, contribuem para aprofundar as suspeitas de que há algo de anormal em curso. Exemplo mais recente foi o encontro do presidente Temer, fora da agenda e à noite no Palácio do Jaburu, com a próxima procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Ambos disseram que foram discutir a cerimônia de posse de Dodge, prevista para setembro.

Dodge terá de dar seguimento às investigações da Lava Jato, inclusive de apurações que podem ter o presidente Michel Temer como objeto. Neste clima de descréditos, é possível confiar que este foi o real e único tema a ser tratado no encontro fora da agenda? Mais: se Temer contesta a imparcialidade do atual procurador-geral e recebe nestas circunstâncias a procuradora por ele nomeado, esperam que não levantem desconfianças?

Neste quadro em que as suspeições superpovoam o debate público – fazem lembrar a poesia de Carlos Drummond de Andrade – , existe o risco – que não é descartável – de que todos acreditem em todas as suposições. E a quem interessa suscitar a desconfiança sobre a isenção e imparcialidade do Judiciário neste momento? O leitor é livre para desconfiar de quem quiser.


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