Opinião & Análise

Estudo

Alarme falso: nossa água não está toda contaminada com agrotóxicos

Houve, provavelmente, falha humana no preenchimento das fichas do Sisagua com os resultados das análises

Imagem: Pixabay

Em sua obra seminal “Risk and Culture” (1982), Douglas & Wildavsky afirmam que o conhecimento de que algumas doenças eram contraídas pela água já existia em determinada época na Idade Média, porém esse risco só ganhou importância e passou a ser efetivamente temido a partir do momento em que se difundiu a ideia de que os judeus eram os culpados pelo envenenamento dos poços. Introduzia-se, assim, a noção de que a relevância relativa dada aos diversos riscos está relacionada à confiança nos atores sociais envolvidos, isto é, determinado risco é visto como relevante ou não, a depender de que(m) o produz. Séculos se passaram e o comportamento humano parece pouco ter mudado.

Que a água pode conter uma miríade de contaminantes, inclusive microbiológicos, que se não eliminados pelo tratamento podem levar à morte em questão de dias, já se sabe há bastante tempo. Em décadas mais recentes proliferaram estudos indicando também a presença de múltiplos contaminantes químicos na água, como medicamentos, hormônios sintéticos, plastificantes, metais pesados e até cafeína, que serve como indicador de atividade antropogênica e contaminação da água por dejetos do esgoto. Mas nada disso parece ter alarmado muito, apesar de se tratar de substâncias biologicamente ativas, algumas com elevado potencial toxicológico.

De repente, algo mudou. A chave do medo (e da indignação) parece ter sido ligada quando notícias destacando a presença de pesticidas – legalmente definidos no Brasil como agrotóxicos – em água para consumo humano passaram a ser divulgadas. Como isso pode ser permitido? Quem são os atuais “culpados” pelo “envenenamento” da água que bebemos? Os questionamentos, outrora tímidos, tornaram-se cada vez mais frequentes e contundentes.

Têm sido recentemente publicadas matérias em veículos não especializados abordando a presença de resíduos de agrotóxicos na cadeia alimentar e, particularmente, em ambientes hídricos no Brasil, e os riscos subjacentes a esta situação. A mais recente – e impactante – foi veiculada em abril último, assinada por um consórcio da ONG suíça Public Eye com os grupos brasileiros Agência Pública e Repórter Brasil.1 No trabalho, baseado no banco de dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Siságua), do Ministério da Saúde, o cenário descrito parece apocalíptico, sugerindo uma situação quase caótica de descontrole da qualidade da água potável no Brasil, em que todos os 27 ingredientes ativos pesquisados aparecem simultaneamente na maioria das amostras coletadas nos municípios partícipes, muitos dos quais em níveis superiores à concentração única estabelecida para pesticidas na União Europeia, como se esta fosse uma espécie de padrão internacional de potabilidade da água no tocante a contaminantes químicos (não é).

Os resultados indicados na matéria chamaram a atenção tanto de leigos como de peritos (porém por motivos diferentes). Os leigos se alarmaram e se mostraram indignados com a aparente situação, como era de se esperar. Reação normal e própria do leigo em qualquer área; o desconhecimento leva ao medo, que leva à indignação.

Por sua vez, os especialistas, mais atentos ao rigor do método científico e um tanto escaldados com análises de contaminantes em água, logo se perguntaram se os métodos analíticos haviam sido devidamente validados pelos laboratórios e se os resultados informados seguiram um procedimento padronizado no preenchimento do banco de dados, bem como se foram checados antes de sua divulgação, dada a gritante discordância em relação aos resultados divulgados pelas concessionárias de abastecimento de água e a outros estudos realizados no país (e no mundo).

Com efeito, as reações foram rápidas. Afinal, é natural que uma matéria desse porte cause temor e ansiedade nas pessoas, pois deixar de consumir água não é uma opção. Os representantes das concessionárias de diversos municípios asseguraram que os dados apresentados não batiam com suas análises periódicas. A Companhia de Saneamento do Paraná foi uma das primeiras a afirmar que os resultados veiculados são falsos ou incompletos, e que o equívoco se originou na alimentação e/ou interpretação dos dados do Siságua, devido à incompreensão dos campos de preenchimento do formulário.2

Em seguida, Mato Grosso fez eco às queixas com a mesma constatação: erro no preenchimento dos formulários do Siságua.3 Não tardou muito e Sergipe informou semelhante tipo de problema, com o responsável pela área de Vigilância em Saúde Ambiental sendo categórico ao afirmar que os valores digitados no campo dos resultados não correspondiam aos resultados analíticos obtidos, e sim aos limites de quantificação do método, implicando em equívoco de nada menos que 96% dos registros de presença de agrotóxicos apontados para o estado.4

O verdadeiro alarme foi então soado. Três estados da federação, regional e culturalmente distantes entre si, afirmaram sem rodeios que os valores informados das análises de água na matéria veiculada não condiziam com a realidade dos dados analíticos. Não é muito difícil inferir que esse tipo de erro deve ter acometido técnicos de diversas outras localidades país adentro, tendo em vista que, salvo melhor juízo, eles não foram submetidos a treinamento prévio para a correta compreensão e preenchimento dos formulários.

Afinal, humanos são humanos, nossos equívocos costumam obedecer a um padrão e serem replicados. Infelizmente, no caso em questão isso compromete a credibilidade dos resultados divulgados, no mínimo lançando legítima dúvida sobre eles, maculando por completo a bem-intencionada reportagem do consórcio binacional.

Para reforçar a tese, no mês anterior havia sido divulgado estudo contratado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) envolvendo análises de água para consumo humano em 100 localidades do estado, pesquisando mais de 200 ingredientes ativos. As coletas foram realizadas entre março e outubro de 2018, o que a princípio é um período suficientemente longo para que se tenha garantido uma boa amostragem. E os resultados foram consideravelmente diferentes dos propagados na matéria do consórcio binacional, com base no Siságua.5 Em 22 municípios foi detectado algum resíduo, a maioria (16) com somente 1 ou 2 ingredientes ativos detectados na mesma amostra. No total foram encontrados 17 diferentes ingredientes ativos distribuídos pelos 22 municípios, todos em concentrações abaixo dos limites legais, os quais foram estabelecidos com base na toxicidade crônica dessas substâncias.

Digno de nota que em nenhum município foi detectada a presença do ultimamente tão temido herbicida glifosato.6 Em contraste, SC foi ranqueado no Siságua entre os 5 estados com maior número de detecções de glifosato, sendo que em uma cidade em 2014 o valor digitado na ficha foi de 20.000 µg/l, 40 vezes maior que o Valor Máximo Permitido de 500 µg/l para glifosato + AMPA. Esse suposto resultado não encontra paralelo em nenhuma outra análise de glifosato em água já feita no mundo, preenchendo todos os requisitos de erro de digitação, possivelmente por confusão da unidade de medida. Por mais utilizado que seja, o glifosato possui a propriedade de se aderir fortemente aos solos, sendo parcial e lentamente lixiviado para a água, além de sofrer extensiva biodegradação tanto no solo como na própria água, quando chega a alcançá-la.

Tamanha é a discrepância nos resultados de SC (Siságua vs MPSC), que não é possível atribuí-la a eventuais diferenças nos pontos de coleta ou à variação de sazonalidade nos períodos em que as coletas foram efetuadas. Porém, poderia ser uma questão de baixa sensibilidade do método empregado nas análises do MPSC efetuadas, produzindo um excesso de falsos negativos. Para se fazer esse comparativo, seria preciso ter acesso ao método adotado, mas infelizmente o Parecer Técnico n. 01/2019 produzido por sua consultoria técnica não traz essa informação, não constando sequer o nome do(s) laboratório(s), tampouco o número de coletas efetuadas por município.

Embora o desconhecimento da sensibilidade do método dificulte qualquer análise mais apurada, uma breve inspeção nos resultados revela níveis quantificados da ordem de 0,01 µg/L em diversas análises, sugerindo que a sensibilidade do método empregado na investigação patrocinada pelo MPSC tenha sido adequada e, portanto, também não é um fator para a disparidade observada.

A ferramenta disponibilizada pelo consórcio binacional Brasil-Suíça é bastante engenhosa e, se bem empregada, pode ter sua utilidade. O infográfico permite ao usuário, ao menos em tese, obter de forma simples e rápida o perfil de contaminação por agrotóxicos na água de sua cidade. Porém, de nada adianta toda essa praticidade se o programa é alimentado com dados incorretos ou erroneamente interpretados, revelando resultados pouco fidedignos.

E o principal motivo, ao que parece, foi falha humana no preenchimento das fichas do Siságua com os resultados das análises. O que é compreensível, tendo em vista o gradual e crescente sucateamento da área de saúde e vigilância sanitária na maioria dos estados e municípios, contando com número cada vez menor de profissionais para exercer grande diversidade de atividades, levando-os a um quadro de fadiga física e mental cujo desfecho não poderia ser outro senão esse que está sendo revelado.

Assim, embora os resultados indicados na referida matéria estejam muito distantes da realidade factual, não significa que todo o trabalho efetuado tenha sido em vão e que deva ser descartado. Basta dar um “reset” nos dados e realimentar o programa com os números corretos, de preferência estratificados por ano ou período de coleta, após a devida checagem por profissional familiarizado com os conceitos básicos da química analítica. Qualquer um que estiver agindo em prol da ciência e da verdade dos fatos terá interesse em fazê-lo.

Em um plano ideal, as fichas do Siságua referentes às coletas 2014-17 deveriam ser todas checadas e refeitas. Tarefa provavelmente inexequível, em se tratando de milhares de dados acumulados. Mas o mínimo que se espera é que as dificuldades no preenchimento sejam devidamente identificadas e sanadas para as próximas rodadas de coletas. Sob pena de um programa tão importante perder sua funcionalidade.

Fatos esclarecidos, ninguém precisa diminuir sua ingestão diária de água por receio de agrotóxicos. Ao que tudo indica, a água ofertada à população brasileira segue apta para consumo no tocante à presença desses compostos, com padrão de potabilidade dentro do que preconiza a Organização Mundial da Saúde – OMS.

Tudo não passou de um falso alarme, replicado à exaustão pela grande mídia em todo o país, com base em resultados incorretamente digitados e não averiguados. Como diz o ditado atribuído a Tom Jobim e tão popularizado nos dias atuais pelas redes sociais, o Brasil não é para principiantes.

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