Opinião & Análise

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A Netflix e o destino da TV por assinatura

Apenas no ano de 2016, 311,3 mil assinaturas foram canceladas no Brasil

A TV por assinatura vem perdendo mercado continuamente. Apenas no ano de 2016, 311,3 mil assinaturas foram canceladas no Brasil. Esse dado pouco otimista, agravado pela crise econômica que o Brasil vem passando, pode ser contrastado com o crescimento acelerado  dos serviços de streaming,  a exemplo da Netflix, uma OTT SVOD (Over The Top Subscription Video on Demand), serviço online de distribuição de vídeo por assinatura. A Netflix alcançou seis milhões de assinantes em 2016 e um faturamento de R$1,290 bi.

As perspectivas são de agravamento dessa situação. Como possui gastos mínimos com infraestrutura, a Netflix oferece preços mais que 50% inferiores aos da TV por assinatura. Além disso, existe hoje um cenário crescente de assimetria regulatória, resultante da rigidez imposta apenas às empresas de TV por assinatura pela Lei da TV Paga (Lei nº. 12.485/11), com a proibição da propriedade cruzada.  Para as OTTs, como a Netflix, é possível produzir e distribuir conteúdo. Enquanto isso, a TV por assinatura fica restrita a distribuir uma seleção de canais, sem poder produzir conteúdo.

A Netflix está investindo em produções originais de filmes, documentário e séries como: “Narcos”, “Orange is the New Black” e “House of Cards”, que alcançaram sucesso mundial, já com indicações de prêmios de crítica. Um diferencial que atrai um número cada vez maior de consumidores que, por sua vez, têm suas preferências devidamente mapeadas por meio de ferramentas de Big Data.

A inclusão das OTTs no mercado pode ser compreendida como um avanço tecnológico de natureza irreversível, que caminha junto à difusão da internet, com forte potencial disruptivo para estratégias tradicionais de produção e distribuição. Essa questão, portanto, é um exemplo de que políticas regulatórias devem ser revisitadas, revisadas e ampliadas periodicamente, e de modo cada vez mais célere, em função do dinamismo que as inovações tecnológicas vêm imprimindo no mundo atual.

Quando a Lei da TV Paga (Lei n. 12.485/11) foi criada, chamando atenção para possíveis riscos competitivos, preocupação essa que compartilhei à época, não era possível prever o efeito disruptivo sobre o mercado que seria ocasionado pelas OTTs. Atualmente, no entanto, a restrição da propriedade cruzada é uma barreira que obriga um setor a parar no tempo e se tornar obsoleto em comparação a uma plataforma altamente dinâmica e constantemente premiada por seus méritos na produção de conteúdo. O ideal, portanto, não seria a imposição de novas restrições para equiparar o mercado, mas sim a abertura de novas possibilidades para que as empresas de TV por assinatura possam se reinventar e para que o consumidor possa desfrutar de todo o potencial da inovação tecnológica.

Com o fim da restrição, tais empresas poderiam concentrar mais investimentos em conteúdo próprio, criando diferenciais para atrair os consumidores e diversificar a oferta de serviços, gerando produtos mais heterogêneos e ampliando o poder de escolha do consumidor. A redução dos custos de transação resultante de um modelo mais verticalizado ampliaria as condições de competição com as empresas de streaming service, evitando a assimetria regulatória. Sem essa adequação, o provável destino da TV por assinatura é o atraso tecnológico e a estagnação.


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