Opinião & Análise

Política

A insustentável leveza momentânea

É erro supor que a crise foi superada. Sobram elementos para novos conflitos

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil

A semana passada, que prometia muita confusão, transcorreu relativamente tranquila. As manifestações vão sendo incorporadas à paisagem. Por ora, não serviram de instrumento de coerção dos Poderes, sobretudo, o Legislativo.

Tentando retomar o protagonismo perdido, o presidente Bolsonaro propôs um pacto aos demais Poderes. Não há qualquer efeito prático nisso, mas sinais de uma atmosfera política momentaneamente mais civilizada foram emitidos. Porém, é erro supor que a crise foi superada. Sobram elementos para novos conflitos: contra a Reforma da Previdência ainda estão organizadas várias corporações; a fase dos debates acalorados ainda não chegou.

A área radical ideológica do bolsonarismo estabeleceu um período de trégua, mas turbulências podem surgir a qualquer momento: as desnecessárias manifestações do ministro da Educação são exemplos de indisposição e inabilidade política. Por fim, há o caso do senador Bolsonaro, na pauta do Ministério Público e da Justiça cariocas, além da mídia nacional. Pressões nesse campo têm poder de acionar o vulcão Jair Bolsonaro.

Previdência caminha, mas tropeça em balões de ensaio

Há no ar uma brisa, uma tentação de retirar estados e municípios da Reforma de Previdência. No fim de semana, a ideia circulou como balão de ensaio, no método “SPP” — “se pegar, pegou”. De fato, para a Câmara Federal seria uma mão na roda, reduzir o grau de conflito. Para o Governo Federal haveria risco, mas talvez fosse conveniente lavar as mãos e assim acelerar o processo no que lhe cabe.

Estados e municípios, com efeito, até aqui se portam como observadores distantes e nada seria melhor que deixar a cargo de Brasília todo o desgaste. Mas, para os governadores, a proposta, se vier a vingar, será péssimo. Afinal, assistir a policiais civis e militares, além de professores e demais servidores, em ano eleitoral, forçar as grades de seus palácios seria como viver o inferno na terra. Com o balão de ensaio, governadores e prefeitos terão que se mexer.

As crises se retroalimentam

A situação econômica — com desemprego, desalento, trabalho precário e queda de renda — pode rapidamente bater às portas das editoriais de “Cidades”, na forma de crise social e aumento do índices de criminalidade. Aumenta o desconforto geral e, claro, invade os cadernos de “Política”.

As crises, econômica, social e política se retroalimentam.

Se nada for feito, não apenas os empresários demonstrarão sua descrença em relação a Jair Bolsonaro. As ruas poderão explodir e não será em manifestações, mas em confrontos mais dramáticos. Quem tem idade para recordar, se lembrará dos anos de 1982, 1983. A campanha das Diretas-Já tomou maior impulso a partir dali.

Parlamentarismo branco

Com os sinais recorrentes de inépcia política e com o vazio de propostas reinante no poder Executivo, o país nunca esteve tão próximo da aceitação de um sistema Parlamentarista — nem em 1961, quando foi adotado por breve período. Setores do mercado financeiro já falam à boca pequena de um certo “parlamentarismo branco”, reconhecendo a habilidade e acreditando no desempenho de Rodrigo Maia.

Ainda assim, ilude-se quem imaginar que o Parlamentarismo no Brasil possa ser adotado assim sem qualquer resistência de Jair Bolsonaro e sua trupe radicalizada e aficionada por seu “mito”. Ninguém abre mão de poder passivamente. Menos ainda quem foi acostumado e treinado para a guerra. A visão bélica do mundo impõe enfrentar inimigos e não aceitar qualquer modo de rendição.

Previsível tiroteio ao centro

Há um evidente desgaste dos extremos políticos: na direita, Bolsonaro derrete; na esquerda, o PT se perde em seu labirinto particular. Há, portanto, espaço para o expansão política e eleitoral do centro. Ele, no entanto, continua fragmentado:

  1. João Doria não é exatamente um político tido como confiável por seus aliados; a fusão com o DEM é dificultada porque Rodrigo Maia, a seu modo, cresce e ainda pode crescer mais, como alternativa; como “fechar” com Doria desde já?

  2. O vazio do PT é um bálsamo para Ciro Gomes, a terra arrasada naquele campo pode lhe dar eleitores certos e cativos vindo da esquerda; por isso, o mais lógico é que tente expandir seu raio de atuação e também disputar fatias do centro;

  3. Luciano Huck está na pista de modo muito mais organizado e decidido do que sinalizou (e desistiu) em 2018; é uma enorme pedra no caminho de João Doria. Considerando o estilo do governador, podemos esperar o tiroteio centrista. E se disto, o centro somar zero, conseguirá ressuscitar a esquerda e a direita — neste segundo caso, com Sérgio Moro se descolando de Jair Bolsonaro.


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