Análise

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Bolsonaro transforma teste positivo para Covid-19 em ‘vacina’ política

Foco agora é o tratamento e seus efeitos na governabilidade

Bolsonaro Covid-19
Crédito: Reprodução / TV Brasil
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Jair Bolsonaro transformou o anúncio de que contraiu o coronavírus em ato político no qual procurou disseminar as mensagens que interessam ao seu projeto de poder, abalado pelas crises econômica e sanitária.

Enquanto não há imunidade conhecida para a doença, o presidente aplicou, em rede nacional de TV, o que se convenciona chamar no jargão jornalístico de “vacina” contra os efeitos da Covid-19 na sua popularidade, em deterioração desde março.

Foram escolhidos criteriosamente o cenário oficial (o corredor externo do Palácio da Alvorada), as emissoras que o governo considera “aliadas” e o discurso a ser adotado para minimizar a gravidade da doença e responsabilizar adversários pelas consequências da pandemia.

Em resumo, Bolsonaro sustentou a narrativa que vem defendendo, baseada no seguinte tripé:

  1. A doença “não é nada demais, pois todos um dia vão pegar”;
  2. Acredita que vai se curar tomando cloroquina;
  3. Não me culpem pelas consequências econômicas, pois o isolamento social é da alçada dos governadores e prefeitos –majoritariamente opositores.

A transformação da divulgação do resultado do exame do presidente em vetor de mobilização política ocorre no momento em que Bolsonaro sofre desgaste com seu grupo mais radical e leal, que o acusa de recuar no enfrentamento ao establishment.

Depois do cerco judicial à sua militância digital e da prisão de Fabrício Queiroz, episódios de alta vulnerabilidade para os filhos Carlos e Flávio, o presidente vem adotando uma retórica de entendimento com os poderes Legislativo e Judiciário, à diferença da pregação de confronto que prevalecia até então.

A suavização da imagem presidencial, somada ao protagonismo dos militares na operação do Executivo, tem melindrado o grupo “ideológico”, que controla a guerra cultural nas redes sociais, tida como decisiva no embate eleitoral com a esquerda e o centro.

Ao reforçar os pontos de fala que unificam essa base, Bolsonaro ganha mais tempo para reorganizar seu exército de seguidores e adaptá-lo ao seu novo alicerce social —agregando eleitores de menor renda e das regiões Norte e Nordeste do país com os instrumentos de transferência de renda em gestão na equipe econômica.

Como mais uma das milhares de vítimas da Covid-19 no Brasil, Bolsonaro também reproduz, em alguma medida, o chamado “Efeito Facada” detectado na campanha eleitoral de 2018, maximizando sua exposição pública como “um ser humano comum” e inspirando uma corrente positiva pela sua recuperação.

Interlocutores do Planalto afirmam que, enfrentando e tratando a infecção, o presidente poderá ter mais legitimidade para “normalizar” a pandemia, delimitar responsabilidades pelos seus impactos e minimizar os danos para o seu mandato.

Os aspectos negativos monitorados pelos ministros palacianos são a incerteza sobre os rumos do tratamento do presidente (até que ponto será preciso um afastamento mais efetivo das atividades e se o vice, Hamilton Mourão, será chamado a assumir interinamente), a possibilidade de contágio de outros expoentes do primeiro escalão – em especial na área econômica –, e a manutenção do canal de interlocução mais brando com o Congresso e o STF.

São esses os fatores que podem abalar os fundamentos da governabilidade e que estarão no centro das atenções nos próximos dias.