Análise

Preocupação do governo

‘Black Friday do xampu’ atesta impacto da crise na economia real

Dados apontam mudança do padrão de compras na data mais esperada do varejo; Bolsonaro esperava ‘boom econômico’

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Presidente da República Jair Bolsonaro durante reunião com o ministro da Economia, Paulo Guedes / Crédito: Isac Nóbrega/PR
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A Black Friday de 2021 mostra os efeitos da inflação e do desemprego em alta na economia real, preocupações centrais do governo de Jair Bolsonaro e dos integrantes do ‘”Centrão” para o desempenho do presidente nas urnas no próximo ano. 

Números preliminares apurados pela equipe do JOTA trazem sinais de alerta para setores do mercado que apostaram, durante a pandemia, em digitalização e na recuperação em “K”, desigual mas robusta

Dados das principais plataformas de e-commerce, meios de pagamento, redes sociais, sites de buscas e do “Reclame Aqui” apontam para uma data que perdeu fôlego e se tornou este ano uma oportunidade de buscar produtos básicos de consumo, no lugar de bens duráveis. 

O diagnóstico contraria as expectativas do governo e de aliados de Bolsonaro, que apostavam num cenário de melhora nos fundamentos econômicos e na sensação de bem-estar da população por causa das festas de Fim de Ano para ao menos manter o patamar de aprovação do mandato presidencial na faixa dos 20-25% da população. No embalo da reabertura da economia com a redução de casos e internações por Covid-19, setores do governo ainda esperam que a atividade seja retomada, apesar das projeções de mercado pessimistas do PIB para o ano eleitoral.

Inflação

Esqueça os números agregados. Algumas projeções apontam crescimento de 5,5% nas vendas, em linha com o discurso otimista do comércio após as últimas datas comerciais. Além de desconsiderar a inflação de dois dígitos entre os dois anos, essa agregação oculta a mudança do tipo de deslocamento do momento de compra. 

Se antes a Black Friday representava o adiantamento das compras natalinas e a realização de demandas represadas por bens duráveis, agora houve o deslocamento da compra do mês e a tentativa de reduzir custos com produtos de consumo. É um cobertor ainda mais curto, que descobre agora gastos recorrentes que seriam feitos no supermercado.  

Levantamento do “Mercado Livre” mostra que 8 dos 10 produtos mais vendidos foram itens de supermercado. No “top 10” de produtos que mais geraram reclamações no “Reclame Aqui”, pela primeira vez apareceram itens como xampu, enquanto fogão, geladeira e ar-condicionado, que tiveram destaque em 2020, saíram da lista. 

O CEO do Reclame Aqui, Edu Neves, diz ao JOTA que houve uma redução de 40% no tíquete médio dos produtos mais comercializados, mostrando por um lado falta de renda e de confiança do consumidor e do outro falta de margem de manobra dos varejistas.

“O varejo, que vem de um terceiro trimestre que podemos chamar de desastroso, enfrenta várias pressões. A pressão inflacionária nos preços, a necessidade de margem, a reposição dos estoques, e não conseguiu oferecer muito mais que 5% a 7% de descontos em categorias tradicionalmente buscadas, como os eletrônicos. Acabou concentrando descontos em vestuário e groceries. Vimos, pela primeira vez, grandes e-commerces colocando em destaque na primeira página anúncios de salgadinho e de xampu como atrativos de Black Friday. E pro consumidor foi o momento de buscar descontos comuns de mercado. Foi uma Black Friday de mercearia. Se o mercado esperava que a Black Friday pudesse ser uma virada para o varejo, se decepcionou. Agora, torcem pelo Auxilio Brasil”. 

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A mudança da cesta de produtos mais comercializados também tem efeito sobre o mercado de logística. Se levarmos em conta o top 10 de produtos do Reclame Aqui em 2020 e 2021, este ano, o peso médio dos produtos mais comprados foi 1,7 kg, enquanto ano passado havia sido 15,5 kg, nove vezes mais. 

Para Gustavo Valente, co-founder da startup de logística “Abbiamo Log”, há vencedores e perdedores nessa escolha. “Teoricamente, as entregas com menos quilos são as melhores para serem feitas. Isso faz com que as empresas procurem mais tecnologia e melhor experiência para as entregas. Mas, ao mesmo tempo, as entregas de produtos com baixo valor agregado impõem desafio de custo para quem tenha investido e apostado muito em transporte de carga, por exemplo”, afirma Valente ao JOTA .

Sucesso nas ruas e nas relações interpessoais, o PIX ainda não ganhou tração nas transações online. Faltam mecanismos de segurança para devolução, por exemplo, e integração com APIs de sistemas de pagamento.

Efeito global

Os Estados Unidos também tiveram um Black Friday em tempos de inflação historicamente alta, mas lá os efeitos foram diferentes, sinalizando que no Brasil parte importante do impacto veio do desemprego e da queda de renda. 

Nos Estados Unidos, as vendas online caíram pouco em relação a 2020, mas as vendas em lojas físicas, mais características da promoção lá do que no Brasil, cresceram, ao se espalharem ao longo do mês de novembro. 

A National Retail Federation espera este ano um crescimento recorde de vendas, entre 8,5% e 10,5%, nos meses de novembro e dezembro. Dados preliminares de buscas no Google mostram também diferenças no interesse entre os dois países. No Brasil, as buscas por “black friday” caíram 25% na semana da promoção, enquanto nos EUA, cresceram 2%. 

Turismo reage, mas já enfrenta incógnita

Um setor que mostrou algum fôlego para vendas com tíquete médio maior foi o de viagens e turismo. Para muitos brasileiros, a temporada de festas de fim de ano será a primeira oportunidade de viajar desde o início da pandemia. Edu Neves, do “Reclame Aqui”, diz que registrou aumento na busca por passagens e milhas, apontando disposição de algumas faixas de renda para gastar em experiências, em detrimento de bens duráveis como no ano passado. Os possíveis efeitos da variante Ômicron não foram sentidos na sexta-feira, mas devem entrar no radar do setor aéreo e de hospedagem a partir de agora, já que a semana que começou com cancelamento de festas de Réveillon em cidades importantes, como Salvador.  

Modelo preditivo

Os fatores econômicos são decisivos na formação da percepção popular acerca do governo Bolsonaro e nas suas perspectivas de reeleição.

O time de dados do JOTA monitora itens como taxa de desocupação ou desemprego, visto como indicador que mais afeta o sentimento negativo do eleitor quanto ao Executivo. 

Segundo o modelo, uma taxa de desemprego mais baixa, centrada em 11,7% no trimestre, poderia elevar a avaliação positiva de Bolsonaro em quatro pontos percentuais. Se a taxa de desemprego subisse ao patamar de 16,7%, Bolsonaro perderia cerca de três pontos percentuais dos atuais 26% de ótimo ou bom. 

O valor do dólar tem impacto limitado sobre a aprovação do presidente. Porém, se o dólar estivesse mais baixo, em torno de R$ 4, a taxa de avaliação positiva de Bolsonaro subiria, podendo chegar ao final deste trimestre a marca de 30%. 

Se por outro lado o dólar subisse a R$ 7, a aprovação de Bolsonaro poderia cair cerca de dois pontos percentuais apenas.