Análise

Economia

A incoerência fiscal do Banco Central

Entidade mandou ao Ministério da Economia um inacreditável ofício pedindo 22% de reajuste para seus funcionários

compulsório
Crédito: Agência Senado

Há muito tempo, o Banco Central comandado por Roberto Campos Neto tem manifestado preocupação com os riscos fiscais no cenário macroeconômico. Em alguns momentos, como na discussão da PEC dos Precatórios no ano passado ou na discussão sobre renovação do auxílio emergencial em 2020, o colegiado que define a taxa de juros subiu o tom para dizer que o fiscal estava colocando em risco o controle da inflação.

Pois bem, essa mesma autoridade monetária, em meio a um processo agressivo de alta dos juros, que já jogou a Selic de 2% para 12,75% ao ano, mandou ao Ministério da Economia um inacreditável ofício pedindo 22% de reajuste para seus funcionários. Tudo bem que RCN e sua equipe estão pressionados por uma greve que de fato está atrapalhando a operação da autarquia, que agora tem autonomia formal para decidir a política monetária. Mas o governo já decidiu dar um reajuste de 5% para todo o serviço público e mandar esse ofício que só tumultua o processo é inexplicável.

Não à toa, depois da péssima repercussão, o pedido, que, segundo fontes da Economia, não tinha qualquer chance de prosperar, foi retirado, conforme o BC disse em nota. Mas o desgaste não vai ser apagado tão rapidamente quanto o clique dado para retirar o ofício do sistema.

O BC foi ousado na gestão dos juros na pandemia, levou corretamente a Selic a 2% em 2020, mas errou com o Forward Guidance e patinou na velocidade e na forma como conduziu a retirada desses estímulos. A consequência está sendo essa inflação alta, embora, frise-se, a escalada de preços não é só de sua responsabilidade, pois é um fenômeno internacional. Agora, o BC corre atrás do prejuízo, mas acumula mais um arranhão em sua credibilidade ao pedir um aumento para seus funcionários. Se fosse adiante, a consequência desse pedido seria causar um tumulto ainda maior no funcionalismo, colocando em risco justamente o lado fiscal do país, que em seu discurso parece ser tão importante para o controle da inflação.