Jazz

Aventura musical

‘Time Out’ do quarteto Brubeck-Desmond faz 60 anos

Álbum que contém ‘Take five’ foi o primeiro de jazz a vender 1 milhão de cópias

Imagem: Divulgação

Na introdução de Guia de Jazz em CD (Jorge Zahar Editor, 2ª edição, 2002), escrevi: “O jazz tem uma pré-história e uma história, e só pode ser devidamente apreciado por quem se dispuser a empreender uma aventura musical, com base em seu registro por excelência: o disco. Como na pintura, é difícil deliciar-se com a obra abstrata de um Pollock ou de um Hartung sem que se tenha percorrido o ‘museu’ que vai de Masaccio a Giotto, passando depois pelos renascentistas, impressionistas e expressionistas, até os surrealistas”.

Embora possa parecer óbvia, a afirmação tem tudo a ver com esse modo de expressão musical que Whitney Balliett chamou de “The Sound of Surprise” – título do seu referencial livro editado em 1960.

Um dos registros mais significativos da história do jazz ainda dito moderno está completando 60 anos de existência. Entre 25 de junho e 18 de agosto de 1959, o então já famoso pianista-compositor Dave Brubeck (1920-2012) gravou o álbum (LP) Time Out (Columbia), à frente do seu quarteto com Paul Desmond (sax alto), Joe Morello (bateria) e Eugene Wright (baixo).

Time Out foi o primeiro de uma série de três álbuns – os outros foram Time Further Out (1961) e Time In Outer Space (1962) – nos quais Brubeck e seus comparsas promoveram experiências muito bem sucedidas, em termos de swing, com compassos até então raros ou inusitados no jazz (¾, 5/4, 6/4, 7/4, 8/8 e 9/8).

Das sete faixas do agora sexagenário Time Outa única que não foi escrita pelo pianista-líder foi Take five (5m20), composição em 5/4 assinada pelo saxofonista Paul Desmond. O cativante tema tornou-se uma espécie de “marca registrada” daquele que foi um dos mais criativos e populares pequenos conjuntos da história do jazz, conseguindo a façanha de agradar a gregos e troianos. single (45 r.p.m) que tinha de um lado Take five e do outro Blue Rondo à la Turk (6m45) – esta uma peça em 9/8 – foi o primeiro disco de jazz a vender mais de um milhão de cópias. O mesmo ocorreu com o álbum (LP) como um todo.

Vale acrescentar que Paul Desmond (1924-1977) deixou em testamento os direitos autorais referentes às reproduções de Take Five para a Cruz Vermelha Americana, que tem recebido por tais royalties uma média de 100 mil dólares anuais. E que o álbum Time Out, como um todo, foi um dos registros fonográficos escolhidos pela Biblioteca do Congresso, em 2005, para ser acrescentado ao National Recording Registry.

Os demais títulos (faixas) do álbum Time Out e seus respectivos compassos são os seguintes: Strange meadow lark (¾), Three to get ready (¾ + 4/4), Kathy’s waltz (¾), Everybody’s jumpin’ (6/4), Pick up sticks (6/4). 

Coda

ano de 1959 foi tão marcante na história do modo de expressão musical surgido no início do Século 20 em Nova Orleans e Chicago que, em 2009, a BBC lançou um documentário intitulado The Year that Changed Jazz.

Além do Time Out do quarteto de Dave Brubeck, foram incluídos no documentário três álbuns antológicos gravados naquele ano: Kind of Blue(Columbia), do sexteto “modal” de Miles Davis com os saxofonistas John Coltrane e Cannonball Adderley; Mingus Ah Um (Columbia), do genial baixista-compositor Charles Mingus; o premonitório The Shape of Jazz to Come (Atlantic), com o qual Ornette Coleman preparou os ouvintes para o revolucionário Free Jazz (Atlantic), gravado em dezembro de 1960, e que detonou para valer o revolucionário free jazz.

Reprodução de Take five:


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