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Greve dos servidores

The Bad Plus vira quarteto com Joshua Redman

Saxofonista adere ao trio do pianista Ethan Iverson em novo CD

Josh Redman photographed in Oakland, CA December 13, 2012©Jay Blakesberg

Formado por Ethan Iverson (piano), David King (bateria) e Reid Anderson (baixo acústico), o trio The Bad Plus registrou uma carreira de intensa atividade e de muita repercussão em 10 álbuns – de These are the vistas (Columbia, 2003) a Inevitable Western ( Okeh/Sony, 2104), passando por uma surpreendente adaptação, quase à la lettre, de Le sacre du Printemps (A sagração da primavera), a obra-prima orquestral de Igor Stravinsky (1882-1971).

Tirante este surpreendente CD (comentado nesta coluna em 22/2/2014), os discos do The Bad Plus dividiram os jazzófilos em duas facções. De um lado, os que curtiram o vanguardismo meio pop do trio que, apesar de basicamente acústico, consegue elevar o volume sônico do combo a níveis semelhantes aos de uma banda roqueira, embora sem nunca perder de vista a arte da improvisação; de outro lado, aqueles que não aceitaram o combustível percussivo altamente inflamável do conjunto, com ênfase no back beat. Mas todo mundo concorda com a evidência de que Iverson, King e Anderson são músicos fora de série.

De repente, a trinca vira quarteto, e retorna ao mercado com o lançamento de The Bad Plus Joshua Redman (Nonesuch Records). Ou seja uma entente cordiale que é bem mais do que, simplesmente, uma gravação feita em estúdio, no ano passado, tendo como “convidado” o saxofonista tenor Joshua Redman, 46 anos. Como sabem os antenados, o filho do também saxofonista Dewey Redman (1931-2006) – que foi um dos herois do free jazz, ao lado de Ornette Coleman e Don Cherry – é hoje um músico tão importante na sua especialidade como Branford Marsalis, James Carter, Eric Alexander ou Mark Turner.

Na verdade, o quarteto “The Bad Plus mais Joshua Redman” apresentou-se durante uma semana, em 2012, no clube Blue Note, de Nova York. E os quatro jazzmen gostaram tanto da fusão da pegada contundente do trio original com a música mais especulativa – mas sempre swinging – do eminente saxofonista, que passaram a tocar juntos em outras oportunidades. Afinal, resolveram produzir o CD já à venda nas lojas virtuais, no todo ou fatiado.

Trata-se de uma seleção de nove faixas, das quais quatro são assinadas pelo baixista Anderson: as bem melódicas As this moment slips away (6m50) e Lack the faith but not the wine (7m10), em tempos médio e lento, respectivamente; as bem mais agitadas Dirty blonde (5m30) e Silence is the question (13m30) – esta última nada silenciosa, decididamente free – que já faziam parte do repertório do trio The Bad Plus.

O primoroso pianista-compositor Ethan Iverson é o autor das também vertiginosas Faith through error (3m15) e County seat(3m). O saxofonista Redman sola com a mestria e a inventividade de sempre, impávido, por sobre o sobre a temática insólita característica do trio, e colabora com duas peças: a meditativa The mending (4m10) e Friend or foe (8m35), nesta última faixa em contraponto com Iverson. O baterista David King assina a também envolvente Beauty has it hard (7m), que termina com uma coda do saxofonista tenor.

Para Joshua Redman, esta sua íntima colaboração com o trio The Bad Plus permitiu-lhe “explorar uma parte do meu modo de tocar e da minha herança musical que eu não tinha ainda acessado, pelo menos desse jeito, com qualquer outro grupo”. Ainda segundo ele, “a aventura com The Bad Plus empurra-me na direção das bordas e puxa-me para o foco (da expressão musical)”.

A faixa Dirty blonde pode ser ouvida, na íntegra, aqui. 

GUNTHER SCHULLER (1925-2015)

O compositor Gunther Schuller, filho de imigrantes alemães, nascido em Nova York há 89 anos, morreu em Boston, no último domingo (21/6). Na década de 1960, o ex-trompista do noneto de Miles Davis (“Birth of the cool”, 1950) agitou o planeta jazz ao proclamar a Third Stream Music, ao lado de John Lewis e de outros compositores notáveis como Werner Heider e André Hodeir. O termo “música da terceira corrente” foi cunhado por Schuller para qualificar um modo de expressão dependente do solista de jazz, mas tendo como base partituras eruditas de feições “clássicas” ou “modernas”, tonais ou politonais.

Third Stream Music (Atlantic), de 1960, foi aliás o título do álbum-marco do movimento, regitsro do então já famoso Modern Jazz Quartet, liderado pelo pianista-compositor John Lewis em interação com o clássico Beaux Arts String Quartet. O vinil continha a peça Conversation (10m40), de autoria de Schuller.

No ano seguinte, ele gravou Jazz Abstractions (Atlantic), que incluía Abstractions (4m05) e quatro variações sobre Criss cross (15m), tema de Thelonious Monk, com os saxofonistas decididamente free Ornette Coleman e Eric Dolphy em conluio Com o Contemporary String Quartet.

Em 1994, Gunther Schuller arrebatou o Prêmio Pulitzer de música com a obra sinfônica Of reminiscences and reflections. Naquele mesmo ano, participou como compositor, arranjador e condutor do CD Rush hour (Blue Note), obra tipicamentethird stream, estrelada pelo saxofonista Joe Lovano.

Publicada originalmente no JB Online.


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