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Greve dos servidores

Rudresh Mahanthappa reverencia Charlie Parker

Mais: Chick Corea leva Grammy de melhor álbum de pequeno conjunto

No último referendo anual dos críticos promovido pela Downbeat (agosto de 2014), Rudresh Mahanthappa, 43 anos, foi o terceiro mais votado entre os especialistas no saxofone alto, atrás de Kenny Garrett e Miguel Zenón, mas à frente de Tim Berne e do veteraníssimo Lee Konitz. Esse filho de imigrantes indianos, formado no Berklee College of Music (Boston) e novaiorquino desde 1998, destacou-se no planeta jazz como comparsa do pianista-compositor Vijay Iyer – da mesma idade e da mesma origem étnica – com o qual gravou três álbuns fora de série: Blood sutra (Pi, 2003), Reimagining (Savoy, 2004) e Raw materials (Pi, 2006).

Como líder, Mahanthappa consolidou o seu prestígio, sobretudo em matéria de world jazz com “sotaque” indiano, em dois aclamados CDs:Apex (Pi, 2010), ao lado do também sax alto Bunky Green – um underated septuagenário – mais Jason Moran (piano), François Moutin (baixo) e Jack De Johnette (bateria); Gamak (ACT, 2012), uma sessão eletro-acústica bem diferente, com o guitarrista David Fiuczynski, o fiel Moutin e Dan Weiss (bateria).

Rudresh Mahanthappa reaparece agora nas lojas virtuais com o lançamento, pelo selo alemão ACT, de um disco irresistível, intitulado Bird calls, gravado em agosto do ano passado.

Trata-se de uma seleção de 13 faixas, das quais a primeira (2m50) e outras quatro (entre um e dois minutos) têm o mesmo título do álbum, que é um tributo muito original a Charlie “Bird” Parker, o genial founding father do jazz moderno.

Bird calls #1 funciona mesmo como uma breve mas significativa ouverture para as demais peças do CD, com um fogoso diálogo entre o saxofonista-líder e o trompetista-revelação Adam O’Farrill, de apenas 20 anos, mas que é filho e neto de dois famosos músicos de Afro-Cuban jazz: Arturo e Chico O’Farrill (1921-2001). Completam o quinteto – formação típica dos grupos de Parker nos áureos tempos dobebop – o pianista Matt Mitchell, o baterista Rudy Royston e o baixista Moutin.

O próprio Mahantappa, nas notas que escreveu para o álbum, chama a atenção para o fato de não haver nele, explicitamente, nenhum tunede Charlie Parker, mas que cada faixa é “diretamente baseada” numa composição ou num solo do “Bird”. Assim, por exemplo, On the DL(8m) tem como fonte Donna Lee (que, por sua vez, é a versão parkeriana de Indiana) ; Chillin’ (8m) tem parentesco com Relaxin’ at Camarillo; Sure why not? (7m45) é inspirada em Confirmation.

O novo ás do sax alto assim fala do seu “ato de devoção” ao “Bird”: “Enquanto o jazz continua a evoluir como uma arte global, é da maior relevância examinar suas fontes e forças gravitacionais. Se a música de ‘Bird’ tem sido tocada e gravada constantemente, é também da maior importância que sua obra seja absorvida, e que se dê nova forma e significado aos seus dons. Ou seja, imitar Charlie Parker é algo inconsequente na busca dessa forma, mas o desenvolvimento de novas perspectivas por sobre a tradição é a substância da expressão contemporânea”.

Uma intensa troca de compassos e de ideias entre o fulgurante sax de Rudresh Mahantappa e o trompete de Adam O’Farrill, aquecidos pela seção rítmica, dá o “sinal de partida” para solos vertiginosos em Chillin’, a meu ver o ponto culminante de Bird calls.

Esta faixa pode ser acessada e ouvida aqui.

 

Chick Corea: Mais um Grammy

No último domingo (08/02), na premiação do 57º Grammy (o “Oscar” da indústria fonográfica), Chick Corea foi o grande vencedor na principal categoria destinada ao jazz instrumental – o melhor álbum de pequeno conjunto. Pela 12ª vez na história do Grammy, o magnífico pianista conquistou o “gramofone de ouro” mais cobiçado pelos músicos de jazz, desta feita com o CD triplo Trilogy (Concord).

São, ao todo, 17 faixas (cerca de três horas de música) gravadas ao vivo, entre 2010 e 2012, em turnês mundo afora por um dream triocompletado por Christian McBride (baixo) e Brian Blade (bateria). No primeiro volume, destaque para Spain e Fingerprints (de Corea), Work(de Theonious Monk) e The song is you – um dos muitos standards da coleção relapidados pelo pianista & Cia. No segundo disco, há uma recriação de um prelúdio de Scriabin (Opus 11, nº 9), de mais de 10 minutos; outra peça de Monk (Blue Monk); e a sempre bem-vindaArmando’s rhumba, da griffe Corea. No último volume, o pianista apresenta a sua Piano Sonata: The moon (30m) e Homage (10m), uma homenagem póstuma ao guitarrista Paco de Lucia.

Publicada originalmente no JB Online.


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