Regina Carter lança álbum com temas de Ella Fitzgerald

Violinista nº 1 do jazz celebra o centenário da mais famosa diva do jazz

Em 2002, Regina Carter mereceu a suprema honraria de gravar o álbum Paganini After a Dream (Verve) no violino manufaturado para Nicolò Paganini, em 1743, por Guarneri del Gesu. O preciosíssimo instrumento, chamado de Il Cannone, por causa de sua potente ressonância, fica entesourado num palácio em Gênova. E só é retirado da sua vitrine de vidro blindado para raros concertos de virtuoses muito especiais.

Mais recentemente, em 2014, a violinista mais aplaudida no mundo do jazz (independentemente de gênero) estreou no selo Okeh/Sony Masterworks com o CD Southern Comfort. Como comentei então nesta coluna, um “mergulho” nos registros feitos pelo folclorista Alan Lomax (1915-2002) no Sul dos Estados Unidos (field recordings), e que estão arquivados na Biblioteca do Congresso americano. Lá ela garimpou raras gemas de foksongsspirituals e country music que seus avós ouviam lá no Deep South.

Regina Carter, 50 anos, está de volta às lojas virtuais com uma seleção de nove faixas intitulada Ella: Accentuate the Positive, editada pela mesma etiqueta da Sony.

Desta vez, a magistral violinista aproveita o ensejo do centenário (25 de abril último) de Ella Fitzgerald, justamente considerada a maior cantora da história do jazz, diva da canção popular americana, dotada de recursos vocais que a nivelavam aos melhores contraltos do mundo.

Nas notas do novo álbum, Carter escreveu: “Uma das muitas coisas que eu adoro em Ella é que ela simplesmente amava música, e não se incluía em nenhum rótulo. Gravava tudo, e não apenas a temática do American Songbook, mas também canções de Stevie Wonder, dos Beatles, e até um pouco de música country”.

Neste seu novo disco, a violinista tem a colaboração da seção rítmica habitual (Alvester Garnett, bateria; Chris Lightcap, baixo) e dos excelentes Xavier Davis (piano) e Marvin Sewell (guitarra). Apenas duas das nove faixas da setlist têm a participação de vocalistas: Miche Braden, em Accentuate the positive (6m50), canção de Harold Arlen da década de 1940; a mais conhecida Carla Cook em Undecided (6m55), tema que Ella Fitzgerald gravou pela primeira vez em 1939, quando tinha apenas 22 anos, com a orquestra swing do baterista Chick Webb.

Deve-se anotar que a maioria das músicas escolhidas por Regina Carter e seus colaboradores não são as mais familiares do repertório da chamada First Lady of Jazz. Nada de How high the moonA-tisket, A-tasket ou Mack the knife. A virtuose do violino preferiu selecionar canções que foram particularmente marcantes na sua adolescência – como é o caso da faixa-título ( Accentuate the Positive), de Crying in the chapel(6m25), de Judy (3m40), de I’ll chase the blues away (5m50).

“Algo na sua voz fez com que eu sentisse uma conexão pessoal”, relembra Carter. “Já adulta, entendi que instrumento ela dominava, uma voz incrível. Durante anos, eu me levantava de manhã, e a primeira coisa que fazia era ouvir uma faixa de Ella. Era o que precisava para começar o meu dia”.

(Samples do álbum em reginacarter.com)

***Texto publicado originalmente no site do Jornal do Brasil