Jazz

Músico cult

O jazz noir de Ran Blake & Jeanne

Álbum com faixas de 1966-67 resiste ao teste do tempo

O octogenário Ran Blake, requintado pianista, músico cult, é um dos pioneiros daquele conúbio jazz-música erudita que seu amigo Gunther Schuller (1925-2015) batizou de Third stream music. Ele foi, durante mais de quatro décadas, professor do New England Conservatory, e é detentor de uma MacArthur “Genius grant” – bolsa-distinção só concedida a talentos de “originalidade e dedicação extraordinárias em suas atividades criativas”. E sempre foi fascinado não só pela temática do jazz propriamente dito mas também pelo clima e pelas trilhas sonoras dos films noirs. Um dos seus discos mais notáveis, Duo en noir (Between the lines, 1999), em parceria com o trompetista Enrico Rava, foi inspirado em Alfred Hitchcock-Bernard Hermann (Psicose), Otto Preminger-David Raskin (Laura) e outras duplas (direção-música) de filmes de suspense.

Contudo, na maioria dos mais de 15 duos da extensadiscografia de Ran Blake os seus pares não são instrumentistas. São vocalistas que com ele interagem na “transformação de canções clássicas em intensas e dramáticas experiências”, como anotou Thomas Cunniffe (Jazz History Online). O pianista começou a formar esses duos, na década de 60, com a vanguardista Jeanne Lee (1939-2000), sendo registro antológico dessa associação o álbum You stepped out of a cloud (Owl, 1989).

Nos últimos 10 anos, ele gravou primorosas sessões, tête-à-tête, com: Christiane Correa, nascida em Bombaim, Índia,radicada nos Estados Unidos desde 1979; Dominique Eade, igualmente professora do New England Conservatory (NEC);Sara Serpa, a soprano portuguesa de voz etérea que se radicou em Nova York em 2008, depois de estudar no Berklee College of Music de Boston.

Isto posto, recomenda-se vivamente o recém-lançado álbum duplo The Newest Sound You Never Heard (A-Side Records), com 33 faixas inéditas, gravadas pelo “reverenciado e ousado” duo Ran Blake-Jeanne Lee, em 1966-67, nos estúdios da Rádio e Televisão da Bélgica, e também numa apresentação ao vivo em Bruxelas.

A adjetivação (revered, adventurous) que está no releasedesse achado do selo A-Side – produzido em colaboraçãocom a Ran Blake Foundation e o New England Conservatory – não é simplesmente promocional. O título do álbum duplo “desenterrado” (The Newest Sound You Never Heard) remete ao primeiro LP do duo, de 1961 (The Newest Sound Around /RCA). E o new sound continuava tão ousado e atual em 1966-67 como continua neste ano de 2019, na linha daquele dictum segundo o qual contemporâneo é tudo aquilo que resiste ao teste do tempo”.

O clima de suspense, musicalmente minimalista, surge logo na primeira peça do novo lançamento, uma versão de três minutos de Misterioso, de Thelonius Monk, e é também hipnótico na interpretação pelo duo de temas tão marcantes e tão diversos como On Green Dolphy Street (4m30), Night and day (5m40) e Parker’s Mood (4m15) de Charlie Parker.

Mas no registro de 50 anos atrás há ainda versões surpreendentes, por exemplo, de A hard day’s night (2m15), de John Lennon, em tenso ostinato, e de Take the A Train(3m10), de Billy Strayhorn/Duke Ellington, com Jeanne Lee em scat singing.

O repertório bem variado e instigante desse duo notável, flagrado quando a vocalista e Ran Blake tinham 28 e 32 anos, respectivamente, continua no volume 2 do álbum duplo, com destaque para baladas célebres (The man I love, Moonlight in Vermont), clássicos do bebop (Night in Tunisia, de Dizzy Gilespie) e até para um tema (embora mais “assobiável”) de Ornette Coleman (Lonely Woman).

(A faixa Misterioso pode ser ouvida em:soundcloud.com/bk-music-pr/misterioso-ran-blake-and-jeanne-lee).

(Samples de todas as faixas deste álbum duplo em:store.cdbaby.com/cd/ranblake1)


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