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Posse indica que tom da gestão Dodge será discrição

Nova chefe do MP não citou Lava Jato nominalmente e pregou harmonia entre Poderes

Em seu discurso de posse, a nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, deu sinais do que se pode esperar de sua gestão: discrição e sem tintas fortes nas declarações. Sem citar nominalmente a Operação Lava Jato, a chefe do Ministério Público falou sobre combate à corrupção e pregou harmonia entre as instituições como requisito para a estabilidade do país. (leia a íntegra do discurso)

Primeira mulher a assumir o cargo máximo da instituição, Dodge afirmou que pretende desempenhar a função com equilíbrio, firmeza, coragem e seriedade exercendo todas as funções atribuídas pela Constituição ao Ministério Público. A procuradora tem repetido que pretende dar o mesmo peso da atuação no combate à corrupção a outras áreas.

“O Ministério Público deve promover justiça, zelar pela democracia, zelar pelo bem comum e pelo meio ambiente. Assegurar a voz a quem não tem e garantir que ninguém esteja acima da lei e ninguém esteja abaixo da lei”, afirmou.

Ela citou o Papa Francisco para falar sobre corrupção. “O papa Francisco nos ensina que a corrupção não é um ato, mas uma condição, um estado pessoal e social, no qual a pessoa se habitua a viver. O corrupto está tão fechado  e satisfeito em alimentar a sua autossuficiência que não se deixa questionar por nada nem por ninguém. Construiu uma autoestima que se baseia em atitudes fraudulentas: passa a vida buscando os atalhos do oportunismo, ao preço de sua própria dignidade e da dignidade dos outros. A corrupção faz perder o pudor que protege a verdade, a bondade e a beleza”.

A mesa da cerimônia era composta pelo presidente, Michel Temer, os presidentes do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), além da presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia. Temer foi denunciado ao Supremo pelo antecessor de Raquel, enquanto Eunício e Maia são investigados na Lava Jato.

Segundo Dodge, o “país passa por um momento de depuração. Os órgãos do sistema de administração de Justiça têm no respeito e harmonia entre as instituições uma pedra angular que equilibra a relação necessária para se fazer justiça em cada caso concreto.”

Ela citou que o povo brasileiro sofre com efeitos da corrupção. “O povo mantém a esperança em um país melhor, interessa-se pelo destino da nação, acompanha investigações e julgamentos, não tolera a corrupção e não só espera, mas também cobra resultados”

Dodge fez questão de citar a múltipla função. “É preciso desempenhar bem todas estas funções, porque todas ainda são realmente necessárias. Para muitos brasileiros a situação continua difícil, pois estão expostos à violência e à insegurança pública, recebem serviços públicos precários, pagam impostos elevados, encontram obstáculos no acesso à Justiça, sofrem os efeitos da corrupção, têm dificuldade de se auto-organizar, mas ainda almejam um futuro de prosperidade e paz social”, completou.

Alvo de Rodrigo Janot, Temer falou sobre excessos e também tentou casar seu discurso com o de Dodge.

“Foi com prazer imenso ouvi-la dando aula em seu discurso. Uma aula referente aos grandes princípios regentes do nosso país, todos eles encartados na Constituição Federal de 88. Foi com o prazer extraordinário que eu ouvi dizer que autoridade suprema não está nas autoridades constituídas, mas está na lei. Ou seja, toda vez que há ultrapasse dos limites da Constituição Federal ou dos limites da lei, verifica-se o abuso de autoridade. Porque a lei é a maior autoridade do nosso sistema. Não é sem razão que a Constituição estabelece que o poder não é nosso, mas é do povo. Não é sem razão a ouvi dizer da harmonia entre os poderes.”

Janot não compareceu à posse, mas foi citado por Dodge.


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