Justiça

Lava Jato

Moro disse a Deltan ter receio que investigação melindrasse FHC, diz site

Conversas publicadas pelo Intercept Brasil mostram reclamação de ex-juiz por investigação de FHC em delação

FHC
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso participa de debate sobre Reformas da política global sobre drogas: impactos na América Latin, organizado pela Open Society Foundations (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

O ex-juiz Sergio Moro, atual ministro da Justiça, reclamou de investigações contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) na Operação Lava Jato, embora essas investigações não tenham passado por sua análise ou tribunal, de acordo com novas conversas publicadas pelo site Intercept Brasil nesta terça-feira. Moro disse que essas investigações poderiam “melindrar alguém cujo apoio é importante”.

Em conversas pelo aplicativo Telegram, segundo o site, Moro questionou o procurador Deltan Dallagnol em 2017 sobre qual seriam as implicações de FHC na delação da Odebrecht.

A menção a FHC foi analisada pelo grupo de trabalho do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e remetido para a Justiça Federal em São Paulo. Assim, não passou pela 13ª Vara Federal de Curitiba ou pela força-tarefa da Lava Jato no Paraná. Mas, ainda assim, Moro demonstrou interesse a Deltan, de acordo com as mensagens atribuídas a ele.

“Tem alguma coisa mesmo séria do FHC? O que vi na TV pareceu muito fraco”, perguntou a Deltan. “Caixa dois de 96?”, acrescentou.

Deltan respondeu: “Em pp sim, o que tem é muito fraco”.

“Não estaria mais do que prescrito?”, questionou Moro.

“Foi enviado para SP sem se analisar prescrição. Suponho que de propósito. Talvez para passar recado de imparcialidade”, explicou Deltan.

Daí Moro reclama da iniciativa:”Ah, não sei. Acho questionável pois melindra alguém cujo apoio é importante”.

Depois de remetido a São Paulo, o caso que envolvia FHC foi considerado prescrito pela Justiça.

O site Intercept Brasil também mostra conversas em um grupo de procuradores no Telegram, em que um dos procuradores cogita pedir um mandado de busca e apreensão contra FHC e o Instituto FHC, depois que apareceram pagamentos ao ex-presidente na contabilidade da empreiteira. Pouco depois do tema surgir no chat, um outro procurador desincentiva essa linha de investigação, porque poderia envolver só crimes tributários e não corrupção. O procurador pondera que seria importante encontrar indícios de corrupção.

“Vamos pedir a fiscal, ver se o dinheiro saiu para alguma campanha. Pq se ficou lá e só crime tributário? Ou teria que achar uma obra do psdb para dizer que é propina”, diz uma mensagem atribuída ao procurador Paulo Galvão.

“Sim, esse aprofundamento é essencial”, diz uma mensagem atribuída ao procurador Roberson Pozzobon. “Mas a ideia é excelente. Despolitizar”, responde Galvão.

Nunca houve nenhuma medida de busca e apreensão na Lava Jato contra FHC ou o Instituto FHC, o que indica que a linha de investigação foi abandonada.

Em entrevista ao JOTA, publicada na última terça-feira (18/6), Fernando Henrique Cardoso disse que mesmo que “Moro tenha se excedido, os fatos são vários. Não creio que o Supremo anule por causa disso”.

“Meu palpite: é melhor que o STF fosse prudente. Não tem sido. Nem sempre. Se ficar com suspeição de que decisão é motivada politicamente, o que sobra? A força?”, questiona.

Quando questionado sobre operações que resultaram em nulidade, como a Castelo de Areia, ele reconheceu que um problema processual pode, sim, contaminar uma investigação. “Depende do clima político”, afirmou.


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