Justiça

Lava Jato

Críticas ao silêncio das testemunhas da Lava Jato

Em lados opostos, defensor de doleiro e advogado de testemunha discutem

A permissão às testemunhas da Lava Jato de ficar caladas diante de perguntas que pudessem incriminá-las irritou os advogados do doleiro Alberto Youssef e dos executivos presos pelo esquema na Petrobras.
O juiz Sérgio Moro decidiu liberar as testemunhas de questões que pudessem complicar a situação delas, evocando o direito da pessoa não se autoincriminar. Quando a contadora do doleiro foi chamada a falar nesta terça-feira no Paraná, um dos advogados apresentou questão de ordem:
 
Advogado: “Parece incompatível que ela deponha como testemunha se ela tem a garantia ao silêncio”
Juiz: “Não doutor. Na verdade, depõe como testemunha e se tiver alguma questão que possa autoincriminá-la ela pode se recusar a depor – é assim que está previsto na lei”
Advogado: Mesmo que a questão que possa incriminá-la tenha relação ao objetivo do processo, da ação e a outros acusados? Ela está omitindo a verdade”
Juiz: “Sim, mas ela não pode ser obrigada a se autoincriminar. Concorda?”
Advogado: “Por isso que eu digo que ela não pode ser testemunha”
Juiz: “Não. Eu não posso pressupor que as perguntas envolvam questão de auto incriminação contra ela”.
Durante os depoimentos, o juiz e o Ministério Público fizeram perguntas às testemunhas. Em seguida, os advogados tiveram a palavra. Meire Poza relatou que “por algum motivo, as empreiteiras deviam a Youssef”. Ela emitia notas fiscais para justificar os pagamentos. De uma só vez, a Engevix teria se comprometido em pagar 2 milhões e 132 mil, parcelados em 10 vezes. Dinheiro que não chegou a ser integralmente pago porque a Operação Lava Jato foi deflagrada. Poza contou que a Mendes Júnior também contratou serviços do doleiro e era atendida pelo esquema de notas frias.
Num momento tenso da audiência, o advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto, discutiu com o advogado de Leonardo Meirelles, também testemunha de acusação no caso e sócio do laboratório Labogen. Depois de prestar depoimento à justiça, Meirelles se negou a responder às perguntas do advogado do doleiro. Basto ficou irritado e acusou os investigadores de proteger o empresário. “Ele espalha mentiras, e quando vou confrontá-lo, o juiz não permite e o advogado interfere? A proteção dele é absurda e abusiva. Testemunha que vai com advogado (à depoimento) tem algo a esconder e não tem crédito”, disse o advogado ao JOTA.
Meirelles contou à justiça que o patrimônio de Youssef é maior que o declarado na delação premiada. Se confirmada a acusação, o doleiro poderia perder o direito à delação premiada. Impedido de contestar o próprio processo, o advogado de Youssef chegou a admitir arrependimento pelo acordo firmado com a justiça. “Não (estou arrependido) do acordo mas de ficar impedido de atacar nulidades no processo. Eu quero provas e não meras alegações de Leonardo”, explicou. Já o advogado de Leonardo Meireles disse que vai questionar a delação de Youssef.
Ao contrário da defesa de Youssef, a defesa de Meireles sustenta que o doleiro era “muito mais que um leva e traz. Youssef é personagem essencial assim como (Renato) Duque e Paulo Roberto Costa (ex-diretores da Petrobras). Ele não era só operador, era quem ensinava como fazer”, provocou o advogado Haroldo Nater.
Outros diálogos também foram destaque, leia a seguir:
Sergio Moro: “Pagava – se por medo?”, pergunta o juiz à testemunha Julio Grein, consultor da Toyo Setal junto à Petrobrás. Ele contou ao magistrado que pagou R$ 12 milhões em propina para Duque e Pedro Barusco, dirigente da estatal

Grein: “Pergunta difícil. Não é medo! Pagava-se pela vontade de se obter sucesso”, sobre os contratos com propina na Petrobras.

(…)

Advogado de Ricardo Pessoa, da UTC, acusado de ser chefe do clube: “O senhor o qualificaria como um homem trabalhador ou preguiçoso?”

Grein: “Extremamente trabalhador”.

 


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