Justiça

Houve ou não cartel no petrolão?

Segundo advogados, testemunhas contestam articulação de empresas por contratos da Petrobras

Fernando Frazão/Agência Brasil

Amarradas pela expressão “cartel”, as empreiteiras investigadas na Lava Jato saíram aliviadas nesta segunda-feira (02/02) do depoimento das testemunhas de acusação, que, segundo os advogados dos executivos, enfraqueceram a tese do chamado Clube Vip, termo usado para se referir ao grupo de empresas interessadas em contratos da Petrobras.

Na primeira audiência da Operação Lava Jato deste ano na Justiça federal do Paraná, foram ouvidos a portas fechadas o delegado federal Márcio Anselmo, que participou da operação, e executivos que delataram o esquema.

+JOTA: Novo plenário, mesma plateia

O advogado Celso Vilardi, que defende executivos da Camargo Corrêa, afirmou que os chamados colaboradores do esquema não confirmaram acusações apresentadas pelo Ministério Público Federal na denúncia.

+JOTA: Procuradores da Lava Jato apoiam transparência

“Existem pontos que são absolutamente díspares ao que disse a acusação. A questão do cartel não se confirmou”. O advogado também criticou a falta de documentos como prova. Perguntado novamente se a versão sobre o cartel havia sido desmentida pelas testemunhas, Vilardi afirmou que a forma adotada nos depoimentos desta segunda foi diferente. “Falou-se nisso numa forma completamente distinta da denúncia.”

Representantes da Toyo Setal divergem sobre existência de cartel

Segundo um dos advogados, enquanto o executivo Augusto Ribeiro Mendonça Neto confirmou o cartel, Júlio Grein de Almeida Camargo disse que o grupo não existia. Os dois são da Toyo Setal Engenharia, assinaram acordos de delação e aparecem no processo como testemunhas de acusação.

O advogado de Ricardo Pessoa, executivo da UTC considerado “chefe do clube”, minimizou o título de liderança. Ao se referir ao depoimento de Augusto Ribeiro, Alberto Toron interpretou que a testemunha “categoricamente desmentiu isso”.

Perguntas do juiz

Mesmo assim, o advogado saiu irritado da audiência e acusou o juiz federal Sérgio Moro de não ser imparcial em suas perguntas. Segundo ele, o juiz perguntou: “Então o dinheiro da corrupção era dado para ter o contrato?”. Exemplo de algumas questões que deixaram os advogados preocupados. “Todas as perguntas que o juiz fez são perguntas dirigidas à condenação. A defesa vai estudar recurso para impedir que um juiz que demonstre claramente sua propensão para condenação não se mantenha no processo. Isso viola a garantia do juiz imparcial”, afirmou Toron.

+JOTA: Forma de inquirição de juiz da Lava Jato sob escrutínio

As empreiteiras alegam que foram pressionadas pela Petrobras e viram no depoimento das testemunhas de acusação uma forma de reforçar a tese. Cláudio Mariz, que defende Eduardo Hemerlino Leite, da Camargo Corrêa, falou ter ficado satisfeito com o que ouviu. “Aliás uma das testemunhas afirmou que nunca conversou com ele sobre isso. Disse expressamente que ele não estava envolvido com propina”, declarou.

“O esquema era de dentro pra fora. Não era levado para a Petrobras”, afirmou o advogado do doleiro Alberto Yousseff. Antônio Figueiredo Bastos reiterou a gravidade da responsabilidade de funcionários da estatal a ponto de ser questionado se o discurso não atenuava o envolvimento das empreiteiras. “Falaram claramente isso: que se não houvesse pagamento, não tinha como as empresas continuarem trabalhando”, asseverou Bastos.

Ao falar sobre a atuação do doleiro, o advogado desqualificou as acusações do Ministério Público. “Pelo o que as testemunhas mesmo disseram a participação dele era muito pequena. Ele era um leva e trás, uma espécie de homem que entregava a mala, só”. E completou, “Yousseff não é o mentor do esquema”.

Segundo o advogado, o executivo Augusto Ribeiro, uma das testemunhas de acusação, não mudou a versão de que o dinheiro das empreiteiras era repassado ao PT a título de doação para garantir a continuidade delas nos contratos da Petrobras.

No fim do ano passado, o próprio Augusto também contou aos investigadores que o cartel existiu, e que funcionava com regras de “campeonato de futebol”. As reuniões eram sigilosas, marcadas via mensagem de celular e sempre aconteciam no escritório de Ricardo Pessoa, da UTC.


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito