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Racismo

PUC-Rio é suspensa dos Jogos Jurídicos após acusações de racismo

Alunos relatam que banana foi jogada em direção a um atleta e houve gritos de “macacos”; PUC diz que busca identificar os autores

PUC-Rio é suspensa dos jogos jurídicos após acusações de racismo
Crédito: Reprodução/Twitter

Alunos participantes dos Jogos Jurídicos de 2018, realizado em Petrópolis, no Rio da Janeiro, no feriado de Corpus Christi, afirmam que membros da faculdade de Direito da PUC-RJ tiveram atitudes racistas em diversos momentos da competição.

Após as acusações de racismo, a Liga Estadual do Rio de Janeiro, uma das organizadoras dos Jogos Jurídicos, decidiu banir por um ano a PUC-RJ e retirar o título de campeã geral da competição.

A atlética da faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) informou, em nota oficial publicada nesta terça-feira (5/6) na página do Facebook da organização, que entrará em contato com a equipe de segurança dos Jogos Jurídicos 2018 para identificar autores de manifestações racistas realizadas por pessoas que estariam na torcida da faculdade.

Além disso, a atlética da PUC-Rio se comprometeu a obter depoimentos e relatos da seguranças e profissionais que trabalhavam no momento das acusações de racismo e levar as informações para que “sejam tomadas as medidas legais cabíveis contra os eventuais responsáveis”.

Os jogos jurídicos reuniram oito faculdades de Direito do Rio de Janeiro para a disputa de competições esportivas coletivas e individuais, com a participação de milhares de alunos.

As primeiras acusações de racismo ocorreram no sábado (2/06), durante uma partida válida pela semifinal do futebol de campo masculino entre a PUC-Rio e a Universidade Católica de Petrópolis (UCP). Membros da torcida da PUC teriam jogado uma banana em direção a um jogador do time adversário.

Segundo um aluno da UCP, que participa do time de futebol, o atleta que teria sido atingido pela banana levou o caso à organização da Liga. Como resultado, a PUC teve de disputar partidas, no dia posterior ao acontecimento, sem a presença de sua torcida.

“Conversei com o atleta após o jogo e o apoiamos na medida que era possível. Todos ficamos chateados, é claro, ainda mais com um caso horrível desses”, afirmou o estudante. A reportagem não conseguiu entrar em contato com o aluno que teria sido ofendido por torcedores da PUC.

Coletivo Jogos Sem Racismo compartilhou imagem da banana que teria sido jogada em atleta

Outro caso de racismo ocorreu durante partida de basquete entre a PUC-Rio e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no domingo. Após a partida, no momento da saída das torcidas do ginásio poliesportivo, torcedores da PUC teriam realizado gestos e barulhos imitando macacos na direção da torcida da UERJ.

Segundo Igor Julio, aluno da UERJ que estava presente no momento de saída dos torcedores, os gestos racistas aconteceram enquanto alguns torcedores comemoravam a vitória do time. “Eles se juntaram e começaram a fazer os gestos. Imediatamente começamos a chamar eles de racistas”, diz o estudante.

“Não é a primeira vez que isso acontece. Também escutamos gritos da PUC como ‘Ei, você ai, não pode estar aqui’ e ‘vai se formar pra ser estagiário do meu pai'”, diz uma estudante da UERJ também presente.

Segundo Brenda Uzeda, aluna da UERJ e membro do coletivo “Jogos Sem Racismo”,  alunos da faculdade e membros coletivo estudam novas punições para a PUC-Rio. “Conversamos com professores e eles nos orientaram a mover  ações cíveis e criminais para que a PUC-Rio possa trazer a público as pessoas responsáveis pelos acontecimentos. Racismo é um crime!”, declarou.

Episódio semelhante teria acontecido durante uma partida de handebol feminino entre a PUC-Rio e Universidade Federal Fluminense (UFF), ainda no domingo. Segundo uma aluna a UFF e participante do coletivo negro da faculdade, uma das jogadoras do time foi chamada de “macaca” durante a parida.

Os acontecimentos causaram comoção no meio jurídico. Um grupo de oito juízes de sete estados divulgou uma nota de repúdio aos casos de racismo.

“A promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação é um dos objetivos da República brasileira e deve ser compromisso por todos assumidos. Aqueles que praticam a intolerância e a discriminação desconsideram o outro como ser digno de consideração e respeito. Condutas dessa natureza não devem encontrar lugar entre aqueles que integrarão as carreiras jurídicas”, diz trecho da nota assinada pelas juízas e juízes federais Adriana Cruz, Alcioni Escobar, Eduardo Pereira da Silva, Fabio Cesar Oliveira e pelas juízas e juízes de Direito Edinaldo Cesar Junior, Fabio Esteves, Karin Luise Pinheiro e John Silas da Silva.

A Defensoria Pública do Estado do Rio divulgou nota incentivando pessoas que sofreram racismo a denunciar os casos ao Núcleo de Combate a Desigualdade Racional. “Se os próprios estudantes de Direito não respeitam a Constituição e as Leis, quem irá trabalhar pelo cumprimento delas?”, questiona a instituição.

Outro lado

A atlética da PUC-Rio em nota pública afirmou que repudia todo e qualquer ato de discriminação racial, em especial no esporte universitário. A organização também escreveu que “se faz necessária, por força legal e constitucional, a devida investigação policial, motivo pelo qual a atlética não desrespeitará princípios basilares da persecução penal, entre os quais a ampla defesa, o contraditório e, ainda, o devido processo legal”.

A organização esportiva dos alunos da PUC-Rio também chamou os fatos de “graves”, mas disseram que eles ainda não foram confirmados e que “não se pode, contudo, tomado pelo calor do momento, pactuar com a imputação leviana de fatos criminosos a todo um conjunto de pessoas, como ‘alunos da PUC/Rio’ “.

A Liga Jurídica Estadual do Rio de Janeiro, uma das organizadoras dos jogos jurídicos, informou em nota que, além da suspensão da faculdade, também se “compromete a criar canais de comunicação e diálogo com o movimento Jogos Sem Racismo e os coletivos negros de cada faculdade a fim de que o período de suspensão da PUC-Rio seja um ano de trabalho intenso de didática antirracista”.

A atlética da UCP informou por nota que “repudia e não tolera, em nenhuma hipótese, qualquer tipo de racismo, ou discriminação, seja ele dentro ou fora das quatro linhas, em função ou não de um evento esportivo”.

A reportagem entrou em contato com a atlética da UFF mas não obteve resposta até o fechamento da matéria.


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