Jotinhas

Análise

Desgaste de Bolsonaro e Moro tem como pano de fundo a sucessão presidencial

Críticas de Moro à decisão do STF sobre o Coaf e fortalecimento do ministro no eleitorado à direita azedaram relação

Presidente da República Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro / Crédito: Carolina Antunes/PR

Apesar de aparamente não terem conexão, dois dos principais acontecimentos recentes da política nacional podem estar mais ligados do que parece. No núcleo próximo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), há quem acredite que a indicação do deputado Eduardo Bolsonaro para a Embaixada dos Estados Unidos e o desgaste da relação do chefe do Executivo com o ministro Sérgio Moro têm como pano de fundo, na verdade, a sucessão presidencial.

A ida de Eduardo para os Estados Unidos seria um passo inicial na construção de uma candidatura da família para quando o pai tiver que deixar o Palácio do Planalto. Com o primogênito Flávio, o 01, investigado por suposto recolhimento de verbas de seus servidores, e com o favorito Carlos, o 03, mais interessado em brilhar nas redes sociais, Eduardo, o 02, seria o escolhido para uma eventual sucessão caso o governo mantenha força política até lá.

Além do background de policial federal de carreira e deputado federal em segundo mandato, uma passagem com sucesso pela embaixada do país mais rico do mundo poderia lhe dar mais credenciais para disputar a Presidência da República.

Vendo longe, há quem aposte até que Bolsonaro pode usar o bom desempenho do filho nos Estados Unidos como argumento para nomeá-lo ministro das Relações Exteriores, o que lhe traria de volta ao país e daria visibilidade para uma possível eleição. Em resumo: é imperioso aprovar a indicação para a embaixada americana.

E é no campo político hoje dominado pela família Bolsonaro, mais à direita e marcado pelo antipetismo, que o ministro Sergio Moro — responsável por condenar o ex-presidente Lula quando era juiz — poderia entrar.

Além da óbvia força de Moro, a avaliação do núcleo bolsonarista é que a divulgação das mensagens pelo site The Intercept sobre um possível conluio do então juiz com o Ministério Público nos casos da Lava Jato acabou por fortalecer, e não enfraquecer o ministro da Justiça perante os eleitores da direita e do antipetismo.

Somado a isso, irritou Bolsonaro o movimento de Moro para se descolar da família do presidente ao se posicionar contra decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), tomada a pedido do senador Flávio Bolsonaro, para suspender investigações com base em compartilhamento de dados de órgãos financeiros sem o aval do Judiciário.

Moro chegou a se reunir com ministros do Supremo para pedir a revogação da decisão e o então chefe do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Roberto Leonel, seu indicado, criticou publicamente o entendimento adotado pelo Supremo.

A partir daí, a relação azedou de vez e Bolsonaro passou a dar recados públicos a Moro, como no caso da indicação do diretor da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

E embora nunca tenha falado em deixar o ministério, as declarações de João Doria de que as portas de seu governo estão abertas para o ministro são mais um elemento complicador na relação de Moro com o presidente da República.


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito