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DIREITOS HUMANOS

Ajufe lança banco com decisões judiciais ligadas a direitos humanos

O banco vai servir como fonte de pesquisa e conta com sentenças de magistrados de todo o país

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Crédito Fernando Frazão/ABr

A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) conta agora com um banco de decisões judiciais relevantes que abordam temas relativos à defesa de direitos humanos. A iniciativa começa com 20 decisões que abordam temas como o pagamento de dano moral por perseguição política durante a ditadura militar, direitos da população LGBT, discriminação virtual e reconhecimento de apatridia.

Como destaque, o banco apresenta em seu espaço de honra a decisão histórica sobre o caso da tortura e morte jornalista Vladimir Herzog, de autoria do desembargador federal aposentado da 3ª Região, Márcio José Moraes.

O projeto foi pensado na 1ª edição do Fórum Nacional de Direitos Humanos da Ajufe (Fonadirh), que ocorreu em junho deste ano em São Paulo. O banco foi aprovado pela Carta redigida pelos participantes ao final do evento e seu objetivo é o de contribuir com a defesa do estado democrático de direito e dos direitos humanos, ambos objetivos estatutários da associação.

“No atual contexto de lesões e ameaças aos direitos humanos, de instituição de políticas de austeridade fiscal e tragédias socioambientais, a Ajufe criou o Fórum enquanto decorrência direta desta competência constitucional titularizada pelos juízes federais para tratar desses temas políticos sensíveis”, explica presidente da Ajufe, Fernando Mendes. Por isso, segundo ele, “a ideia agora é que esse mecanismo se torne uma iniciativa de caráter permanente”.

A coordenadora e uma das idealizadoras do Fonadirh, a juíza federal Clara Mota, acredita que a criação do banco joga luz sobre o relevante trabalho realizado pelas juízas e juízes federais. “Nós passamos hoje por um processo de perda de consensos mínimos em torno da aplicação de liberdades constitucionais e de como o poder judiciário contribuiu para esse processo de redemocratização ao longo do tempo. Essas decisões precisam ser conhecidas pela comunidade jurídica, de modo a haver um diálogo não apenas com a sociedade civil, mas também interno e auto reflexivo em relação ao que praticamos e sobre como contribuímos com a nossa atuação para a efetivação dos direitos humanos”, defendeu.

Das decisões enviadas, o juiz federal Fabricio de Lima Borges, da Subseção Judiciária de Juazeiro do Norte, no Ceará, é o autor da sentença sobre o procedimento comum em desfavor da União Federal, objetivando a condenação da ré ao pagamento de indenização correspondente a R$ 300 mil em razão de perseguição política, tortura e prisão arbitrária durante a ditadura militar. Para o magistrado, “a criação de um ambiente virtual, aberto ao público, que possa ser compartilhado como uma ferramenta para consulta, é uma forma eficaz para o compartilhamento de experiências entre juízes federais, que julgam casos sobre direitos humanos de todo o país”, afirmou.

“O banco pode servir como uma importante fonte de pesquisa para estudiosos de outras áreas do conhecimento, que poderão, ao analisar tais decisões, verificar como o Brasil, por meio de seu sistema de Justiça, tem lidado com o tema da promoção de direitos humanos após a redemocratização”, complementa Borges.

Já a magistrada Silvia Brollo, que submeteu quatro decisões ao banco, acredita que esse mecanismo ajuda a dar visibilidade a questões novas no Poder Judiciário e a tonar públicas respostas criativas a questões já conhecidas. Uma das decisões enviadas é relacionada à questão indígena. “A sentença trata da necessidade de destinar um espaço adequado a uma comunidade indígena, que vivia às margens de uma rodovia estadual, entre a pista de rolamento e a cerca das propriedades rurais. Havia perigo à integridade dos indígenas e daqueles que transitavam pela rodovia. Havia, também, a exposição a agrotóxicos. E havia, principalmente, o preconceito dos munícipes em aceitar os índios dentro da cidade”, relata a juíza. “Foram feitas várias audiências, mas infelizmente os entes envolvidos (poder municipal, estadual e federal) não chegaram a um bom termo. Ouvi os indígenas e tentei encaminhar a decisão para atender, efetivamente, às suas demandas”, lembra.

A juíza federal falou ainda sobre como a criação desse banco pode influenciar um colega em uma sentença, decisão ou procedimento. “Julgar é muito difícil e solitário, por isso precisamos dialogar com outras fontes e, por que não, acorrer à experiência de colegas, ainda que elas tenham sido inexitosas ou sejam pouco viáveis na nossa realidade. O que mais me orgulha nas decisões que enviei ao Banco não foi a fundamentação jurídica, mas sim o caminho que tracei, com o envolvimento das partes e de interessados em várias audiências em que as pessoas puderam expor seus anseios, suas angústias e saíram com a imagem de que o Poder Judiciário se importa com elas, independentemente do resultado do processo”, explicou.


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