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CORONAVÍRUS

‘Vamos precisar de um Estado com maior poder de intervenção, gostemos ou não’

Cientista político Carlos Melo participou do webinar inaugural do JOTA em parceria com o Insper

Crédito: Insper

“No longo prazo estaremos todos vivos. Isso se superarmos o curto prazo”. A frase para descrever o momento é do cientista político Carlos Melo, professor do Insper, e faz referência ao pensador econômico John Maynard Keynes. No livro, “Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda”, principal obra do economista, de 1935, ele escreveu “no longo prazo todos estaremos mortos”.

Apesar de ter alterado a frase de Keynes, a avaliação de Carlos Melo é de que, para superar a crise, será necessário seguir as recomendações do economista do século XX. “O mundo foi para a UTI e o respirador vai se chamar keynesianismo”, disse Melo durante webinar inaugural do JOTA em parceria com o Insper que foi transmitido na manhã dessa quarta-feira (8/4).

O keynesianismo tem como base a intervenção do Estado na economia para garantir o pleno emprego. “Aquele lema do Estado menor, sem dívidas, não é mais suficiente”, avalia Melo. “Precisamos de cabeça para pensar um mundo que não é mais o mesmo”.

Para explicar esse novo mundo, o professor fez uma digressão. Ele lembrou que nos últimos 30 anos houve uma evolução tecnológica vertiginosa e alguns empregos desapareceram definitivamente, sem equivalentes em outros setores. “Temos o que começou a se chamar de uberização das relações de trabalho e das relações sociais. A consequência foi um desencanto com a política, que não conseguiu dar resposta”, avalia.

“O cidadão comum começou a ficar insatisfeito, olhando para o passado como solução”. Como exemplo, Melo lembra que o slogan da campanha eleitoral do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi “Make America Great Again”, traduzindo: “faça a América grande novamente”.

“O mundo vinha dessa forma e o coronavírus acelera o processo, mostrando que não há políticas para esse contexto em que a desigualdade é muito grande”. Por isso, o professor entende que “nós vamos ter que ter um Estado com maior poder de participação e intervenção, gostemos ou não”.

A solução exige políticas públicas pensadas a partir de um novo mindset. “É preciso ter gente qualificada que entenda da alta tecnologia, do 5G, e que compreenda o papel do estado de acolhimento dos cidadãos, de proteção”, diz Melo. “São pessoas que saibam transitar entre o Estado e o mercado”.

O papel principal das lideranças políticas será entender essa necessidade de mudança de postura quanto ao papel do Estado. “É preciso de uma liderança capaz de atrair figuras que pensam dessa maneira”, explica o cientista político. “Isso fica muito difícil quando você tem um político com ministros que não podem se destacar. E não temos uma eleição presidencial próxima para fazermos um novo balanço dessa situação”.

No Congresso, será necessário um consenso: “as oposições vão precisar, de alguma forma, encontrar algum tipo de acordo porque o desafio é muito grande e vai afetar a todos”. Esta crise, segundo Melo, é democrática, já que coloca todos, desde aquele que tem plano de saúde privado até quem depende do sistema público, em risco.

Ao falar sobre o legado positivo da crise, se é que ele existe, Melo ressaltou que ela “desperta a solidariedade, que desperta uma perspectiva mais ampla de sociedade”. Além disso, ele afirma que o senso comum está perdendo espaço para o conhecimento, ordem que foi invertida nos últimos tempos.

A conversa com o professor Carlos Melo faz parte de uma série de webinars promovida pelo JOTA, em parceria com o Insper, para discutir os impactos da crise do coronavírus na política, na economia e nas instituições. Nesta quinta-feira (9/4) o webinar será com o professor Marcos Mendes, que vai falar a partir das 11h30 dos impactos fiscais da crise. Inscreva-se.