JOTA/Insper

Coronavírus

Portugueses abraçaram confinamento antes mesmo de serem obrigados

Ricardo Reis, professor da UCP, falou em webinar JOTA/Insper sobre o enfrentamento à pandemia da Covid-19 em Portugal

Cidade do Porto, em Portugal / Crédito: Pixabay

Já é sabido que a partida entre o time espanhol Valencia e a equipe italiana Atalanta, no dia 10 de março, que levou à Espanha inúmeros torcedores da Itália, país que já tinha quase mil casos confirmados de coronavírus, ajudou na disseminação do vírus em terras espanholas. O efeito foi o de uma “bomba biológica”, explica o professor da Catolica Lisbon School Business and Economics da Universidade Católica Portuguesa (UCP) Ricardo Reis.

Em contrapartida, o mau desempenho nas competições internacionais de futebol por parte dos clubes portugueses, todos eliminados no início de fevereiro, pode ter ajudado o país a não ter enfrentado uma crise tão grave quanto ao vizinho devido à ausência de grandes eventos. 

Reis participou, nesta sexta-feira (15/5), do webinar promovido pelo JOTA em parceria com o Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper. O professor também é diretor da Católica Sondagens (CESOP), centro de estudos de opinião e sondagens da UCP e um dos principais institutos de pesquisas eleitorais no país. O centro de estudos realizou uma pesquisa sobre o comportamento da população portuguesa no período de pandemia.

A maior parte do êxito que Portugal tem relação com o isolamento social. Segundo Reis, há “mérito dos portugueses e das famílias, que têm um comportamento coletivo muito positivo em relação a tudo que está acontecendo”. E acrescenta que a situação esteve a favor do governo, “que só teve que não estragar”. Por exemplo, o fechamento das escolas ocorreu antes mesmo de o governo decretar quarentena, e foi uma decisão tomada pelas próprias instituições de ensino e população. “A dimensão do confinamento é algo que os portugueses abraçaram antes mesmo de serem obrigados a fazer”, acrescenta.

Comparando o comportamento de espanhóis e portugueses, o professor menciona outro evento que acelerou a disseminação da doença na Espanha: as celebrações do Dia Internacional da Mulher, 8 de março. “Houve uma grande manifestação em Madri, onde estiveram milhares de mulheres, e essa ‘bomba biológica’ foi um foco de contaminação. Os portugueses não celebraram tanto o dia, portanto ficaram protegidos”, afirma. Seis dias depois do acontecimento, em 14 de março, Begoña Gómez, mulher do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, foi diagnosticada com coronavírus. 

Uma das primeiras medidas tomadas pelo governo português foi o “lay off”, que permite que empresas cancelem suas atividades, e os salários dos funcionários sejam cobertos pelo Estado durante o afastamento. “Cerca de 13% da população ativa é em lay off, número que se manteve de abril para maio”, explica Reis. Depois surgiram algumas outras medidas como o oferecimento de crédito às empresas, enquanto perdurar a pandemia. 

Reis afirma que com a pandemia, nota-se um acréscimo em torno de três vezes mais desemprego no país. “Estava em níveis muito baixos, chegou a rondar os 4%. Já estava 7% em março, e nossa estimativa de maio aponta para um valor em torno dos 12%”, afirma. 

“Tivemos azar”, afirma o professor, sobre o turismo, que é um dos principais combustíveis econômicos de Portugal. “No Brasil a época do turismo já estava encerrada quando a crise se iniciou, aqui não está sequer iniciada. Para um ´país que depende do turismo, essa vai ser uma situação bastante catastrófica”, acrescenta. 

Diante de um cenário político em que vários países apresentam conflitos entre os Poderes durante a pandemia, como no Brasil, com o Presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) e os governadores, Reis afirma que em Portugal “não houve confronto do microfone”. Para ele, o motivo da ausência de conflitos é que o presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, teve como primeira ação colocar-se em quarentena e em nenhum momento houve disputa de protagonismo com o primeiro-ministro, Antônio Costa.

Após uma rigorosa medida de quarentena levada seriamente pela população, Portugal inicia o processo de desconfiamento. Segundo Reis, “nesta semana abriram todos os estabelecimentos com menos de 20m²”, e estão em funcionamento limitado. Hotéis também estão reabrindo com muita cautela e medidas preventivas: apenas metade dos quartos ficam disponíveis, para que quando troque de hospede, os locais utilizados fiquem dois dias sem visitas”.