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Patrícia Tavares: ‘gestão de crise é esporte coletivo, precisa envolver todos’

Professora do Insper destacou em webinar JOTA-Insper a importância de o poder público ser ágil na crise

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Patrícia Tavares, professora do Insper. Crédito: YouTube

A Caixa Econômica Federal criou um aplicativo às pressas para facilitar o cadastro das pessoas com direito a receber o auxílio emergencial de R$ 600. A coleta de informações remota, além de agilizar o processo, evita que as pessoas se desloquem e fiquem expostas ao risco de contaminação pelo coronavírus. Para facilitar o acesso ao aplicativo, o Ministério da Cidadania fechou uma parceria com as empresas de telefonia, permitindo o cadastro mesmo se o cliente não tiver crédito no celular. No Congresso, não houve dificuldades para a aprovação do auxílio. “Gestão de crise é esporte coletivo, precisa envolver todo mundo”, afirma Patrícia Tavares, doutora em Administração e professora do Insper na graduação e educação executiva.

Tavares participou na manhã desta terça-feira (28/4) da série de discussões que o JOTA vem promovendo com o Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper. O tema do webinar, mediado pelo nosso analista-chefe em São Paulo, Fabio Zambeli, foi “agilidade organizacional no setor público e como ela se manifesta na crise”.

Um dos exemplos de agilidade citados durante o webinar foi justamente o aplicativo criado pela Caixa Econômica Federal. “A conta poupança-digital não existia e foi aprovada em tempo recorde pelo Conselho Monetário Nacional porque houve uma articulação”, lembra. “Em menos de um mês uma instituição que é pública, que não é inovadora, conseguiu fazer uma resposta assim. A gente entende que a crise permite que algumas coisas aconteçam”, diz. Entre essas coisas, destacou: trabalho entre diferentes áreas, foco maior em atender as demandas que surgem e maior descentralização de decisões. “Ao descentralizar, abrimos espaço para que mais pessoas possam contribuir com suas visões. Em um país continental, as soluções são muito diferentes”.

Para a professora, em uma crise é essencial que a liderança pública se apresente o quanto antes para coordenar os esforços. “Se você precisar estar certo para poder se mexer, jamais vai combater a crise”, diz. “É preciso de gestores públicos que se apresentem para o jogo. A força de resistência, de inação, talvez seja o pior risco dentro de uma gestão de crise”, ressalta. “Outro risco é você rachar, criando disputas entre aquilo que seria adequado”, complementa.

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Patrícia Tavares explicou que a crise traz um sentido de urgência e garante que o bem-estar do cidadão seja priorizado. “Quando se normaliza o problema, ou quando há uma saída do momento de maior perigo, eu relaxo essa urgência de ter que agir de maneira coordenada”, alerta. “Eu só conseguiria manter esse olhar sistêmico se eu tiver uma liderança pública com visão de Estado em vez de ter pessoas preocupadas somente com o próximo ciclo eleitoral”.

A professora avalia que a pandemia veio em um momento em que havia um gap de representatividade, sendo o Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia – um dos exemplos disso. “É só a gente lembrar os votos de desconfiança que foram feito nas grandes democracias, com pessoas não se sentindo representadas pelo governo”, diz. “A rapidez e a adequação de resposta dada por estruturas de governo na pandemia vão garantir ou não uma repactuação desta relação entre a sociedade com seus representantes eleitos”, explica. “E são dois momentos diferentes, porque uma coisa é você resolver problema, outra é construir solução”.

Uma das iniciativas consideradas essenciais no transcorrer da crise é a comunicação clara e consistente da liderança pública. “Um pouco do que o Mandetta (ex-ministro da Saúde) fazia, levando os técnicos, respondendo às perguntas de maneira técnica, traduzindo de maneira adequada para que todos entendam o que está acontecendo, com os próximos passos, dizendo quais são os riscos”, destacou.

“Durante uma crise como essa, o maior papel da liderança pública é ajudar as pessoas a lidarem com os próprios receios e a aceitarem mudanças”, explica. “A comunicação, além de ser honesta, tem que ser constante, lidar com aquilo que é difícil, informar o que a gente não sabe. Isso exige a postura do líder de desenvolver uma relação de confiança, botando a cara para o jogo”.