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Dilma Rousseff

Como prever uma eleição

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Capítulo 1

A reeleição de Dilma Rousseff

O dia no escritório começou como qualquer outro dia, sem grandes novidades. Às oito da manhã, a movimentação nos corredores começava a aumentar. Pessoas checando e­mail, examinando rapidamente as principais manchetes no noticiário e trocando algumas ideias sobre seus respectivos países enquanto aguardavam a vez para apertar o botão da máquina automática daquele chafé que os americanos insistem em chamar de café. Esse é o ritual diário que precede a reunião de pauta matinal, que começa pontualmente às oito e quinze e reúne os vários analistas políticos espalhados pelos escritórios da empresa em Nova York, Washington e Londres, com mais alguns gatos pingados por outras cidades. Somos hoje mais de setenta analistas cobrindo cerca de cem países.

Naquele dia, não havia nada de muito especial na pauta. Os analistas apresentavam seus argumentos iniciais (que chamamos de calls) enquanto eram sabatinados pela equipe de vendas, ou business development, cuja principal função é afinar o tom de nossas pesquisas aos interesses dos clientes, entre os quais bancos, fundos de investimento e grandes empresas multinacionais. Discutia­-se, entre outros temas, as primeiras medidas de um novo governo de unidade nacional no Iraque para o setor de petróleo, a possibilidade de elevação de impostos pelo governo japonês e se a Indonésia iria reduzir a produção de carvão para impedir uma queda maior no preço da commodity.

Voltei à minha mesa, onde meu contato com o mundo — ou melhor, com o Brasil — dá-­se por meio de um telefone e duas telas de computador. Enquanto respondia alguns e­mails e decidia sobre o tema do próximo relatório, o serviço de notícia em tempo real avisava que um helicóptero havia caído em Santos. Pouco depois, a notícia era de que o governador de São Paulo Geraldo Alckmin estava se deslocando para a cidade, pois um avião — e não um helicóptero — tinha de fato caído. Achei a correlação um pouco estranha, mas sem dar a devida atenção. Foi então que um colega do escritório de Nova York me encaminhou por e­ mail a chamada que saíra no terminal de notícias da Bloomberg segundos antes: BRAZIL PRESIDENTIAL CANDIDATE EDUARDO CAMPOS WAS ON PRIVATE JET THAT CRASHED IN SANTOS.

Era 13 de agosto.

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O que estava em jogo em outubro de 2014 era muito mais do que a maior sala do terceiro andar do Palácio do Planalto. Para investidores e outros agentes econômicos internacionais, as eleições presidenciais determinariam o lugar do Brasil no mundo— quer dizer, nos mercados. Depois de quase uma década na vitrine da nova ordem econômica global, a maré parecia ter virado para o Brasil. Poucos anos de crescimento frustrante sob o comando da presidente Dilma Rousseff foram suficientes para azedar expectativas dos investidores e quase remover o status de potência emergente do país.

Uma parte do pessimismo, ao menos no início, era fruto de ressaca em Wall Street. Não raro, as tentativas incessantes de analistas de mercado de adivinhar onde ocorrerá o próximo milagre econômico acaba resultando em frustração. Com a crise financeira global de 2008­/09, essas expectativas excessivas começavam a demarcar o que parecia então ser um processo inexorável de transição. Enquanto os EUA e outras economias desenvolvidas escorregavam ralo abaixo, países emergentes —como os BRICS — continuavam a crescer, carregando o piano da economia global. Para muitos, esse processo marcava o presságio de mudanças tectônicas na ordem mundial, caracterizadas pela “emergência do resto”.

É verdade que alguns anos de crescimento sustentado deram mais visibilidade internacional ao “B dos BRICS”. Por quase uma década, o Brasil havia se beneficiado enormemente do apetite chinês e seu impacto no preço internacional das commodities. O crescimento das exportações brasileiras colocou a economia num ritmo mais acelerado de expansão, ajudando a financiar um conjunto de políticas econômicas e sociais que ampliaram significativamente o mercado consumidor com a emergência de uma nova classe média. Tudo parecia conspirar a favor do país. A despeito dos problemas ainda existentes, essa espécie de New Deal tupiniquim acabou colocando o Brasil no centro do radar dos investidores internacionais, com direito a Cristo Redentor alçando vôo e tudo na capa de novembro de 2009 da revista The Economist.

Mas após quase uma década de ventos favoráveis que ajudaram a transformar a economia e a sociedade como em poucos períodos da história nacional, a desaceleração da economia global fatalmente fez o país adentrar em uma fase menos promissora a partir de 2011. O fim do período de abundância desvelava algumas fragilidades do modelo econômico brasileiro. Arroubos nacionalistas, que pouco antes pareciam reflexos naturais de uma potência que emergia confiante no palco internacional, começavam a ficar sem lastro dentro das fronteiras. A letra B de BRICS perdia seu brilho e corria o sério risco de ter seu lugar ameaçado na sigla — ou ao menos de ser vergonhosamente minusculizada.

Para os analistas de Wall Street, a preocupação era com a intervenção crescente do governo na economia. Mesmo na época do boom, e principalmente durante o segundo mandato do presidente Lula, já era fácil perceber os desvios da tal “nova matriz macroeconômica”, a desconfiança inata do governo com o setor privado, a compulsão dirigista, a política industrial de cunho protecionista e a ausência de discussão sobre reformas econômicas estruturais. Só que com a economia em franca expansão, o grau de tolerância dos mercados era proporcional ao grau de arrogância em Brasília. O fluxo de capitais continuou fazendo a maré subir por um bom tempo, mantendo a economia brasileira em evidência, a despeito das políticas questionáveis do governo petista.

Bastou um pouco mais de ano de crescimento pífio para a história começar a mudar. As pressões crescentes do governo Dilma sobre o setor privado — bancos, concessionárias elétricas, etc. — fizeram azedar o humor dos investidores. Com a forte desaceleração da economia a partir de 2011, o intervencionismo e a ausência de uma agenda de reformas estruturais começavam a custar caro ao governo. Naquela altura, os analistas de Wall Street, buscando separar o joio do trigo, já falavam em mercados emergentes porém divergentes — uns responderiam a um cenário global mais desfavorável com reformas estruturais enquanto outros o fariam dobrando a aposta em medidas intervencionistas. O Brasil de Dilma parecia mais próximo do segundo grupo. Em setembro de 2013, menos de quatro anos após a famosa capa, a The Economist agora perguntava se o Brasil havia perdido o rumo. Era como se, depois de tanta bonança, a maré global houvesse baixado e revelado um país nu.

O desafio para o próximo presidente seria colocar a casa em ordem. Afinal, num ambiente externo de maior escassez, a competição para atrair capitais aumenta. Resgatar a credibilidade internacional do país seria apenas o ponto de partida — e cada um dos candidatos à presidência oferecia visões bem distintas do caminho a ser seguido. Pouco surpreendia, portanto, que o mercado já estivesse apreensivo com as eleições no Brasil.

A morte de Eduardo Campos a quase um mês e meio do pleito, no entanto, elevava as expectativas — e a especulação — às alturas. Quase que inadvertidamente, o país se encaminhava rumo à mais disputada eleição em quase duas décadas. ­­­

As primeiras de muitas ligações e mensagens naquela manhã vieram de clientes e de jornalistas. Em um dia normal, essa interação faz parte do trabalho. Mas em meio à consternação provocada pela notícia, o nosso desafio era tentar avaliar friamente o significado político da tragédia. Silenciei o telefone para começar a pensar como a morte de Eduardo Campos — e a provável entrada em cena de Marina Silva — afetaria a eleição poucas semanas depois. A mudança repentina no quadro de candidatos provocaria a ruptura da polarização que mais uma vez se avizinhava entre o PT e o PSDB? Qual candidatura estaria mais ameaçada, a de Dilma Rousseff ou de Aécio Neves?

Uma das vantagens de trabalhar numa empresa global de consultoria política com dezenas de cientistas políticos é o acesso quase imediato a um vasto cabedal de informações e análises sobre vários países e temas. Nossa primeira tarefa, portanto, era buscar exemplos de acontecimentos semelhantes em outros países. A empreitada não foi tão difícil, pois a tragédia brasileira havia se tornado o principal tema do dia no escritório, atraindo a curiosidade — e os palpites — de meus colegas.

Grandes tragédias nacionais normalmente fortalecem o governante, era a avaliação mais corrente. Os atentados de setembro de 2001 nos EUA fizeram disparar a aprovação do até então impopular presidente George W. Bush. Mas o que dizer então do caso espanhol? O ataque terrorista de 2004 em Madri desencadeou uma reviravolta nas pesquisas de opinião em poucos dias, o que acabou resultando na derrota do partido governista na eleição daquele ano. Já na Polônia, a morte de um presidente­candidato em 2010, também em um acidente aéreo, não foi suficiente para fortalecer a candidatura de seu irmão, que acabou sendo derrotado nas eleições pelo sucessor imediato do falecido presidente. Havia exemplos para todos os gostos.

Com os clientes do mercado financeiro com as expectativas nas alturas e os olhos na bolsa, não podíamos nos dar ao luxo de refletir demoradamente. Tínhamos de tomar uma posição rapidamente. Com uma boa dose de instinto, arrisquei um primeiro palpite numa mensagem interna a alguns colegas:

“The question is whether this may catapult Marina ﴾[Campos] VP and likely to replace him﴿ to the second round. If yes, it increases the risk for Rousseff. 

But besides the near term commotion, I still think that it will be Neves v. Rousseff

Chris, let’s talk?” 

Nosso diretor de pesquisas e meu colega de cobertura Christopher Garman se encontrava no Brasil, prestes a falar no evento para o qual Eduardo Campos se encaminhava. Depois de uma breve conversa, batemos o martelo. Às 12:40 da tarde do dia 13 enviamos nosso flash — uma reação curta e rápida a um fato relevante — aos clientes. Para além do título óbvio do comunicado (DEATH OF EDUARDO CAMPOS MAKES ELECTION MORE DIFFICULT), afirmamos que a entrada em cena de Marina tornaria a eleição mais competitiva, pois elevava a probabilidade de haver segundo turno, e que Marina e Aécio tinham chances iguais de ir ao segundo turno contra Dilma. Mas afirmávamos também que a comoção em torno da morte de Campos não duraria até a eleição, e que a presidente se mantinha como favorita para ganhar o pleito, independentemente do adversário.

Estava dada a largada.

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Ciência política é que nem ficção científica, só que menos relevante. A piada, para mim, sempre teve um fundo de verdade, pois ao abrir minha conta num banco anos atrás, não existia no cadastro a opção cientista político como profissão. Virei sociólogo (tenho lá minhas dúvidas que só incluíram sociólogo depois que o Fernando Henrique virou presidente). Talvez isso explique minha quase obsessão em manter um pé no que eu considerava o mundo real enquanto cumpria, de forma meio mambembe, as principais etapas da carreira acadêmica. Na década entre o fim da graduação e o começo do doutorado, trabalhei no Congresso Nacional e em consultorias políticas no Brasil e nos Estados Unidos. Depois de anos intercalando esquizofrenicamente estudo e trabalho como se fossem mundos distintos, comecei descobrir pontos de contatos entre as duas “carreiras”. Para o meu alívio, nem tudo era ficção.

A ideia por trás da análise de risco político é aproximar a ciência política do mundo dos tomadores de decisões. Uma das tarefas principais de uma consultoria de risco político é tentar antecipar os fatos políticos que desenharão o universo de escolhas possíveis para governantes e investidores. Na Eurasia Group, a tese central é que a política, principalmente nos mercados emergentes, é no mínimo tão importante quanto aspectos econômicos e legais na definição do ambiente de negócios. Via de regra, a falta de transparência em regimes autoritários ou a fragilidade institucional de democracias jovens são ingredientes de instabilidade política, que, por sua vez, costuma a engendrar incertezas em relação às ”regras do jogo” e a provocar mais volatilidade nos mercados.

Além de tentar advinhar quem vai ganhar a eleição, portanto, a função do analista político é também de avaliar qual será o impacto do resultado do pleito no mundo dos negócios. O partido vencedor é intervencionista ou mais pró­-mercado? Qual o risco de medidas radicais, como expropriação de ativos ou controles de capitais, serem adotadas? Quais setores da economia estão mais vulneráveis a mudanças regulatórias? O novo governo embarcará numa agenda de reformas estruturais ou preferirá dar curso a uma política econômica expansionista? Será um governo de coalizão majoritária no congresso? A lista de perguntas a responder é extensa. De certa forma, na análise de risco político, o resultado de uma eleição está mais para ponto de partida do que ponto de chegada do trabalho a ser feito.

Ironicamente, no ano passado análise de risco político havia se tornado uma atividade arriscada no Brasil. Em fins de julho de 2014, poucas semanas antes da morte de Campos, um relatório mensal do banco Santander, que alertava seus clientes para os riscos que a reeleição da presidente Dilma Rousseff poderia trazer para seus investimentos, provocou a ira de autoridades em Brasília. Ministros e líderes do PT rapidamente condenaram o relatório, denunciando-­o como uma obra típica de uma elite golpista e alérgica a um governo “popular”. Para a surpresa geral, a direção do banco, temerosa que o incidente poderia prejudicar a relação com o Planalto, não apenas emitiu uma nota de desculpas censurando o texto, mas demitiu o analista responsável pela análise.

O ocorrido acentuava um clima cada vez mais polarizado, no qual confundir análise com torcida havia se tornado lugar comum. Sem a menor sombra de constrangimento, alguns cientistas políticos e institutos de pesquisas publicavam suas análises “isentas” ao mesmo tempo em que se promiscuíam com partidos políticos e candidatos. A convicção das opiniões era infinita enquanto duravam os contratos. Já entre formadores e tomadores de opinião, verbetes como petralhas e coxinhas ”enriqueciam” o léxico político com rótulos que frequentemente se transformam em atalhos convenientes para quem sofre de preguiça mental. No fim, a vítima era a tolerância e civilidade geral, que foram sendo lentamente asfixiadas.

Fazer qualquer previsão eleitoral nesse ambiente carregado era mais que um malabarismo. Nas semanas que antecederam a eleição, cheguei até a receber um email de um ex-­professor, renomado cientista político, aconselhando uma mudança de nosso call sobre o favoritismo da Dilma, pois poderíamos perder clientes. Ouvimos recomendações semelhantes a torto e direito (o curioso é que a convicção da maioria era com a derrota da Dilma, pois as apostas nos outros dois candidatos titubeavam diariamente entre um e outro). Durante o programa Manhattan Connection, a duas semanas do segundo turno e com Aécio poucos pontos na frente nas pesquisas, consegui a proeza de fazer com que uma empresa norte-­americana de consultoria fosse acusada nas redes sociais de ser esquerdista — e de estar recebendo dinheiro desviado da Petrobras (!). Os ataques motivaram um dos apresentadores, o jornalista Caio Blinder, a me defender em sua coluna no site da revista Veja.

Em Wall Street, o entusiasmo com a possibilidade de derrota da presidente Dilma era movido pela expectativa de melhora do ambiente econômico sob um novo governo. Afinal, o ”pragmatismo sem resultados” da presidente tecnocrata chegava até a deixar um ou outro investidor com saudades dos arroubos ideológicos do ex­presidente operário. Antes mesmo da tragédia do dia 13 de agosto, várias hipóteses já haviam sido contempladas. Os protestos vão derrubar a Dilma. A desaceleração da economia vai tirar o PT do poder. A corrupção na Petrobras vai desmascarar o governo e inviabilizar sua reeleição. O fracasso na organização da Copa do Mundo ou até mesmo o vergonhoso 7 a 1 contra a Alemanha !﴿ seriam a gota d’água. Passamos, Chris e eu, boa parte do ano avaliando — e, na maioria das vezes, moderando — a importância desses fatores em nossos relatórios.

De todo modo, a ordem do dia para boa parte dos analistas cobrindo o pleito de outubro era preencher, o quanto antes, a lacuna da famosa frase do consultor político norte-­americano James Carville sobre como é decidida uma eleição: “É a/o ________, estúpido!”

Nós tínhamos a nossa hipótese.
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Como explicar o favoritismo da presidente Dilma diante de um cenário político, econômico e social mais turbulento, especialmente a partir das manifestações populares que varreram as ruas das principais cidades brasileiras em junho de 2013?

A resposta começa com uma afirmação que pode parecer ousada: eleições presidenciais são mais fáceis de se prever do que se imagina. De acordo com um modelo desenvolvido conjuntamente pela Eurasia Group e pela Ipsos Public Affairs, usando como base mais de duzentos pleitos ocorridos mundo afora nas últimas duas décadas, é possível prever boa parte das eleições recorrendo a duas variáveis ­chave. A primeira é o grau de desejo de mudança ou continuidade no eleitorado. A segunda é se um líder está ou não concorrendo à reeleição. O modelo, co­autoria de meu colega Christopher Garman e Clifford Young, diretor da Ipsos, foi o ponto de partida das  [simple_tooltip content=’TheUnpredictabilityofPunditsandPredictableElections:Usingpublicopinionto predictpoliticaldisputes.CliffYoungandChrisGarman.63rd AnnualWaporConference. Chicago, Illinois, 2010.’]nossas análises[/simple_tooltip].

Para medir o desejo por mudança versus continuidade no eleitorado, a variável usada é aprovação do governo numa escala binária (aprova ou desaprova). De acordo com o modelo, 60% ou mais de aprovação significa uma demanda firme dos eleitores por continuidade daquele governo; 40% ou menos, um desejo claro por mudança; e o intervalo entre 40%­ e 60% de aprovação é o cenário intermediário. Em relação à força do governante, o modelo recorre à notória literatura da ciência política que aponta para algumas das vantagens de se estar no poder: o alto grau de conhecimento do nome do candidato­governante junto ao eleitorado, o uso — implícito ou não — da máquina pública e a tendência à aversão ao risco do eleitor médio.

Conjugando as duas variáveis com o banco de dados eleitorais, os autores chegaram a três conclusões:

  • Quando contam com 60% ou mais de aprovação a seis meses da eleição, governantes se reelegem 99% das vezes. Quanto tentam eleger seus sucessores, o índice cai para 70%.
  • Quando têm 40% ou menos de aprovação, governantes ganham apenas 24% das vezes e conseguem eleger seus sucessores apenas 11% das vezes.
  • Quando a aprovação está entre 40% e 60%, governantes vencem 85% das vezes mas só elegem seus sucessores 36% das vezes.

O modelo reforça, portanto, a ideia de que governantes são candidatos muito fortes, mesmo quando existe um equilíbrio entre o desejo por mudança e por continuidade no eleitorado (cenário intermediário). Foi esse o caso na reeleição de Fernando Henrique Cardoso em 1998 (entre 50% e 60% de aprovação naquele ano) e de Lula em 2006 (perto de 50% de aprovação naquele ano). Já a transferência de votos para um apadrinhado é muito mais difícil de ocorrer se a popularidade do governante estiver abaixo de 60%, como foi evidenciado pela derrota do candidato governista José Serra em 2002 (Fernando Henrique terminou seu segundo mandato um pouco acima dos 40%). Lula, por sua vez, com uma popularidade média acima de 70% nos últimos dois anos de seu segundo mandato, não enfrentou problemas para eleger Dilma como sua sucessora.

Apesar da trajetória declinante, os números ainda conspiravam a favor da reeleição de Dilma naquele mês de outubro. Mesmo com a desaceleração econômica, os protestos e até mesmo a tensão pré­ e pós­ Copa do Mundo, a aprovação da presidente sempre esteve, do início do seu mandato até as eleições de 2014, acima dos 40% (ou seja, onde a chance de reeleição ronda os 85%).

De todo modo, um modelo probabilístico ainda assim carrega incertezas, o que demanda do analista um olhar apurado das especificidades de cada eleição. Para analisar a eleição presidencial brasileira, portanto, precisaríamos ir além da aplicação pura e simples do modelo e situar o país num contexto mais amplo. Afinal, protestos, corrupção, risco de racionamento energético, Copa do Mundo, acidente de avião, entrada em cena dramática de uma candidata carismática, saída não menos dramática da mesma candidata e ascensão de última hora do outro candidato foram apenas alguns dos fatores que fizeram nossa probabilidade de vitória da presidente Dilma ficar abaixo dos 85% sugerido pelo modelo e oscilar entre 60% e 70%. Nossas discussões internas sobre possíveis mudanças do call foram intensas até o final.

Mesmo assim, o estudo forneceu um bom ponto de partida. O ano de 2014, aliás, serviu como um bom laboratório para se testar o modelo, pois houve nada menos que 44 eleições (entre presidenciais, legislativas e locais) nos chamados mercados emergentes. Das 22 eleições que a Eurasia Group acompanhou mais de perto, 17 foram vencidas pelo governante (ou por seu grupo político). No total, nossos analistas erraram apenas dois resultados: Panamá e Romênia.

Nem tudo o que acontece na política brasileira é jabuticaba. O ciclo recente pelo qual passou o Brasil encontrou similares em outras partes do mundo. Anos de crescimento acelerado sustentado pela alta no preço de matérias­-primas elevaram o bem­estar de parcelas significativas da população, produzindo como consequência um “super­ciclo” político em vários países, em que governantes ou grupos políticos então no poder se tornaram praticamente imbatíveis durante boa parte da última década: Lula e o PT no Brasil, o kichnerismo na Argentina, Evo Morales na Bolívia, o chavismo na Venezuela, Rafael Correa no Equador, o uribismo na Colômbia e até Vladimir Putin na Rússia.

Não era para surpreender, portanto, que o período mais recente de desaceleração da economia global — e os impactos no preço das commodities — começasse a gerar desafios parecidos para os líderes de plantão. Ainda que não fossem suficientes para tirar a maioria deles do poder (todos citados acima continuam no poder), esses ventos menos favoráveis reduziram significativamente o raio de ação política desses  governantes. Sem o colchão das receitas oriundas do preço elevado das commodities, ficava difícil manter intocada a fórmula de governar baseada na ampliação constante e generosa de gastos. Até mesmo em relação ao intervencionismo na economia, começava­-se a perceber em alguns países uma incipiente dissonância entre o discurso — ainda agressivo — e a prática — mais moderada. A aura de invencibilidade se apagava.

Mas o retrocesso não fora total. A boa notícia era que, apesar da evidente piora do ambiente econômico nos últimos anos, a situação estava longe das crises financeiras que assolaram a região nos anos 80. Mesmo com a desaceleração, a maioria dos países latino­americanos ainda apresentava fundamentos macroeconômicos razoáveis, muitos deles com reservas internacionais abundantes, desemprego em baixa e inflação ainda em níveis toleráveis. Havia também uma novidade demográfica relevante. O período prolongado de crescimento econômico acima da média resultou numa melhora expressiva do padrão de vida região afora. De 2000 a 2013, milhões de pessoas no mundo emergente deixaram a linha da pobreza para trás. A classe média (ou as classes médias) se tornava maioria em boa parte dos países da América Latina. No Brasil, a parcela da população considerada de classe média subiu de cerca de 30% para 50% no período.

Por mais que nos quase quatro anos de governo Dilma tenha havido uma estagnação ou até mesmo uma leve piora desse processo, as dificuldades do passado ainda pesavam como lembranças recentes para muitos. O desafio para o governo, portanto, era o de transformar a eleição de 2014 em um plebiscito sobre os doze anos do governo PT—e não sobre o governo Dilma. Afinal, ainda que as expectativas estivessem lentamente se deteriorando, prevalecia na maioria da população um sentimento que misturava gratidão e medo do desconhecido. Por um lado, gratidão com quase uma década de políticas expansionistas que promoveram o aumento do consumo e uma melhora do bem­-estar. Por outro, incerteza com o futuro dessas políticas sob um governo de uma oposição que oscilava entre um discurso crítico e promessas não muito convincentes de continuidade.

Nos poucos meses que antecederam o pleito, o objetivo da candidata Dilma era mobilizar o segmento do eleitorado que, apesar de crescentemente insatisfeito com o governo, não se identificava ainda com nenhuma opção no campo oposicionista. A sugestão dos marqueteiros era para a presidente se distanciar da retórica “Lulinha paz e amor”, que havia dado certo em 2002, e adotar um tom mais agressivo, alertando que uma vitória de Marina ou de Aécio colocaria a perder todos os ganhos da última década. Era a tática do medo vencendo a esperança.

A poucas semanas da eleição, comparações com governos anteriores e promessas de que não haveria mudanças de rumo nas políticas do governo chegaram até a reanimar as expectativas da população com a economia. Por trás da enorme volatilidade das intenções de voto naquelas semanas que antecederam a eleição, as inúmeras pesquisas de opinião pública mostraram também que a estratégia oficial funcionara, fazendo a aprovação da presidente subir lentamente para patamares mais seguros (sempre dentro daquele intervalo de 40­60% do modelo). No momento decisivo, boa parte dessa aprovação se transformou em voto.

A fórmula que havia dado certo para o PT em 2006 e 2010 ainda mostrava força suficiente para funcionar em 2014. Por pouco.  

Apesar da melhora de muitos indicadores sócio­econômicos, o ciclo virtuoso já apresentava alguns sinais incipientes de fadiga em toda região. No Chile, milhares de estudantes foram às ruas em 2011/­12 reclamar por mais recursos ao setor educacional. Na Colômbia, vários grupos, entre camponeses, garimpeiros e caminhoneiros, chegaram perto de paralisar o país em 2013. Já no Brasil, os protestos de 2013 nas principais cidades evidenciavam uma mudança mais profunda no comportamento político de parcelas da nova classe média. Temas econômicos tradicionais, como trabalho e renda, ainda eram preocupações relevantes para o eleitor médio, mas começavam a perder espaço para a “agenda da qualidade de vida”, com seu foco em educação, saúde e segurança.

O modelo de crescimento via expansão do consumo estava quase esgotado como ferramenta política. O principal problema para a nova classe média deixara de ser o acesso a bens de consumo, facilitado por anos de políticas expansionistas, e passara a ser o acesso a serviços públicos de qualidade, praticamente negligenciados por gerações de governantes. Para um país com mais de 250 milhões de linhas de celulares para 200 milhões de pessoas, ter um aparelho deixou de ser um fim em si próprio; era fundamental ter um celular que funcionasse razoavelmente bem. Ou seja, o foco e as demandas populares migraram dos bens aos serviços que davam alguma utilidade àqueles bens. Nenhum governo tinha uma fórmula pronta para promover um salto qualitativo que atendesse às novas expectativas de parcela significativa da sociedade.

Diante das manifestações populares como as do Chile em 2011 e as que passaram por Brasil e Colômbia dois anos depois, a região parecia viver um aggiornamento. Segundo alguns analistas, o processo se assemelhava à Primavera Árabe, movimento com tons liberais que varreu muitos países do Médio Oriente em 2010 e 2011. Mas diferentemente desta, os protestos na América Latina tinham outro alvo. Em vez de reações a governos autoritários, foram reações contra governos incompetentes.

Doravante, as exigências mais elevadas das classes médias em meio a um ambiente econômico menos favorável impõem um desafio de governança aos líderes de plantão: como entregar mais (e melhores serviços públicos) com menos (recursos)? Na melhor das hipóteses, o resultado desse dilema se traduz em governos mais fracos e menos populares. Já na pior hipótese, a escassez de recursos desvela os conflitos distributivos entre agentes econômicos e o sistema político, o que acaba trazendo à tona esquemas de corrupção traçados em época de bonança. Não é difícil achar confirmação dessas duas hipóteses na América Latina de hoje. Aliás, no nosso relatório anual de riscos globais para 2015, chamado de Top Risks, apontávamos o enfraquecimento crescente de vários governantes como um dos principais (risco número seis numa lista de dez).

Com alguns anos de defasagem, o “super­ciclo” político acabou por acompanhar a trajetória declinante do “super­ciclo” econômico. Às vésperas da eleição presidencial de 2014, o êxito de anos de governos petistas parecia, de certa forma, trazer em si a semente de sua própria destruição. Para quem acompanhou de perto o contraste entre as promessas da candidata Dilma e os dilemas das presidente recém­ reeleita, ficava evidente a máxima que diz que fazer campanha é poesia, mas governar é prosa.

Para boa parte de nossos clientes, a reeleição de Dilma trouxe mais incertezas para um cenário já bastante complicado. Para mim, trouxe a certeza de que as férias seriam curtas.

Acertar o resultado de uma das eleições mais competitivas em décadas rendeu à Eurasia Group alguns bons contratos e bastante prestígio fora e dentro do Brasil (o que espero que facilite um pouco minha tarefa de tentar explicar o que faz um brasileiro numa empresa de consultoria norte­americana chamada Eurasia). Para o Chris Garman, além de validar o seu modelo, o sucesso rendeu também uma garrafa cara de vinho de um cliente de Wall Street (que tivemos de despachar numa sacolinha para evitar desperdiça­la às pressas em copinhos de plástico antes de passar pelo raio­X do aeroporto). Para mim, além da exposição e de alguns parabéns, as longas horas de trabalho movidas a muito café contribuíram com um problema sério de visão decorrente do estresse (ao menos o intragável chafé foi substituído pelo espresso, pois consegui uma máquina para o escritório como parte de minha promoção a diretor).

Nas quase dez semanas entre a morte de Eduardo Campos e o segundo turno da eleição, produzimos dezenas de relatórios, mantendo o Brasil no topo do ranking de publicações da Eurasia Group. Afinal, uma eleição extremamente competitiva criava oportunidades (e riscos) incomparáveis para o investidor de curto prazo. Independentemente de preferência política, apostar na volatilidade do mercado financeiro brasileiro permitia ganhar (ou perder) em uma semana o equivalente a meses em outros mercados.

Mas parte importante do trabalho de um analista de Brasil é olhar além do nevoeiro do dia­a­dia para tentar identificar tendências mais duradouras. Muitas vezes, essa tarefa se resume a moderar percepções extremadas que costumam a transformar diálogos em monólogos. Aliás, certa feita um repórter me disse que quanto mais eloquente uma capa de revista, menos o conteúdo da matéria era lido. Parecia ser o caso do Brasil na visão de muitos investidores. Nos poucos anos entre a decolagem e a queda livre do Cristo Redentor, segundo a The Economist, nosso trabalho foi da moderação do otimismo para a moderação do pessimismo.

Afinal, pelo bem ou pelo mal, o país está sempre no radar dos investidores estrangeiros. Além do tamanho do mercado consumidor, da abundância de recursos naturais, de uma base industrial diversificada e da ausência de riscos geopolíticos, fatores que sempre colocam o Brasil em posição de destaque entre as maiores economias emergentes, até mesmo as características aparentemente disfuncionais do sistema político brasileiro têm seus méritos quando comparadas às de alguns países vizinhos e outros emergentes.

Se por um lado um estado federado com múltiplos partidos e um poder judiciário independente muitas vezes emperram o processo decisório, por outro essa “disfuncionalidade” ajuda a filtrar eventuais surtos de radicalismo dos líderes de plantão. Ou seja, os mesmos fatores que fizeram do Brasil um retardatário na adesão às reformas liberalizantes propostas pelo Consenso de Washington nos anos 90 atenuaram os reflexos nacionalistas e populistas que rondaram o Palácio do Planalto uma década depois.

Para muitos investidores, a situação do Brasil estava se complicando, mas podia ser pior. Bastava olhar para a situação em Buenos Aires, Caracas, Quito ou La Paz. Por exemplo, enquanto o pêndulo da vizinhança se deslocava decididamente do neoliberalismo ao bolivarianismo, as lideranças políticas brasileiras continuavam a se movimentar mais lentamente, permanecendo na prática mais próximas do centro do espectro ideológico. Traduzindo para uma linguagem de negócios, essa moderação se traduz em mais estabilidade jurídica, porém com elevados custos operacionais.

Com o fim da “era da bonança” e a intensificação da crise econômica na região, a expectativa é que esse pêndulo comece a reverter novamente nos próximos anos, num processo que promete ser turbulento. Pois em vez de conduzidos por novas forças políticas com novas ideias, os ajustes na economia começarão a ser timidamente feitos pelos mesmos personagens ou apadrinhados, movidos mais pela necessidade do que pela convicção. O sapo não pula por boniteza, mas por precisão.

Dessa forma, apostávamos não apenas na reeleição da presidente, mas também num segundo mandato que seria o oposto do primeiro. Ou seja, enquanto boa parte dos investidores acreditava que o governo vitorioso dobraria a aposta na mesma fórmula dos anos anteriores, nossa análise apontava que, passada a disputa eleitoral, uma conjuntura mais desfavorável empurraria o governo a reverter algumas políticas questionáveis. A mudança da equipe econômica e o anúncio de um ajuste fiscal, por exemplo, foram os primeiros indícios dessa “correção de rumo”.

Mas alertávamos também que, apesar da disposição crescente em corrigir algumas políticas equivocadas, a capacidade dos tecnocratas da Esplanada em fazê-­lo num ritmo satisfatório seria declinante. Enquanto boa parte do primeiro mandato foi caracterizada pela administração dos elevados índices de capital político herdados da Era Lula, o segundo mandato seria caracterizado pela dilapidação desse espólio, sem o qual qualquer projeto de reforma ou ajuste torna­-se praticamente impossível. Desta forma, diante de um escândalo de corrupção de proporções monumentais e de maior recessão econômica em décadas, é possível afirmar que, no melhor das hipóteses, os próximos três anos não serão brilhantes.

Como eu disse anteriormente, o trabalho do analista político começa para valer quando termina as eleições. O fim do concorrido pleito de 2014 trouxe mais dúvidas do que certezas. O vendaval de imprevistos no decorrer da campanha deu lugar a receios em relação a uma possível tempestade política perfeita em Brasília. A pergunta do investidor agora é se, diante de tantas dificuldades, a presidente Dilma corre risco de sofrer um processo de impeachment. Com tantas denúncias e boatos, nos últimos meses os telefones da Eurasia começaram a tocar como naquele mês de agosto, com clientes e jornalistas a procura de probalilidades. Assim como o fizemos durante a eleição, temos dado a nossa resposta: a chance de a presidente não sobreviver até o fim de seu mandato é de 30%.

Mas aí é outra história.