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Toga

Juiz mais ameaçado do país vai ao 2º turno e magistrado da Ficha Limpa perde

Discurso de combate à corrupção utilizado por magistrados produziu resultados diferentes nos Estados

O que leva magistrados e membros do MP a deixar a carreira pública?
Crédito: Pixabay

Magistrados que deixaram a toga e recorreram ao discurso de combate à corrupção e em defesa da aplicação literal da “Lei da Ficha Limpa” registraram desempenhos diferentes nas urnas: dois foram ao segundo turno, uma foi eleita para o Senado e um acabou derrotado pelo eleitor.

Wilson Witzel (PSC) – que vai disputar no segundo turno o governo do Rio de Janeiro com Eduardo Paes (DEM), tendo vencido o primeiro com 41,28% dos votos – não foi o único com bom desempenho.

No Mato Grosso do Sul, o juiz federal Odilon de Oliveira (PDT), que se aposentou no ano passado depois de 35 anos de toga, obteve 31,62% dos votos válidos no primeiro turno do pleito para o governo estadual. E vai decidir a competição no segundo turno com Reinaldo Azambuja, que saiu na frente com o expressivo percentual de 44,61%.

Odilon de Oliveira – que concorre como “Juiz Odilon” e tem o apoio também do Pode e do PRB – nasceu em Exu, interior de Pernambuco, em 1949, filho de pais lavradores. De acordo com o seu “perfil”, trabalhou na roça desde pequeno e foi alfabetizado em casa, só aos 16 anos. Aos 17 foi à escola e aos 29 anos se formou em Direito. Foi promotor e procurador em Mato Grosso do Sul antes de se tornar juiz de direito, por concurso, na década de 1980.

O “Juiz Odilon” ficou conhecido por inúmeras prisões de traficantes de drogas – inclusive de “Fernadinho Beira-Mar”, do “Comando Vermelho” – e foi objeto de um documentário intitulado “Em nome da lei-Odilon, o réu de si mesmo”, por ter vivido sob escolta, “numa espécie de prisão domiciliar”, durante quase 10 anos. Ele é considerado o magistrado mais ameaçado do país.

Em agosto último, o plenário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu retirar gradualmente a segurança que agentes federais prestavam ao juiz Odilon de Oliveira, do Mato Grosso do Sul. Ele se aposentara em 2017 e – de acordo com nota do CNJ na época – “órgãos técnicos de segurança pública” entenderam que “as supostas ameaças à sua integridade física não se sustentavam a ponto de justificar a proteção constante de agentes de Polícia Federal”.

Por unanimidade, os conselheiros julgaram desnecessária a manutenção da segurança 24 horas, baseados em laudos da própria Polícia Federal e do Departamento de Segurança Institucional do Poder Judiciário do CNJ.

Congresso

Já no Estado de Mato Grosso, a juíza recém-aposentada Selma Arruda, 55 anos, do PSL (o partido de Jair Bolsonaro), foi eleita para o Senado, com 677.391 votos, em primeiro lugar (o outro eleito foi Jayme Campos, do DEM, com 489.409 votos).

A nova senadora nasceu em Camaquã (RS), e mudou-se para Rondonópolis (MT) em 1986. Conforme o seu panfleto eleitoral, lá trabalhou como advogada, e teve seus três filhos. Em 1996, aprovada em concurso, foi nomeada juíza do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso. “A partir daí, passei a atuar em diversas cidades: Alta Floresta, Nobres, Rosário Oeste, Poxoréu, Cáceres, Várzea Grande e Cuiabá”.

Selma Arruda prossegue: “Durante esse período, julguei milhares de processos, colocando traficantes e policiais corruptos na cadeia e, por causa disso, comecei a receber várias ameaças de morte do crime organizado. Sem me intimidar, segui firme. Sempre fui dedicada, acumulei funções e conquistas, e por mérito, posições cada vez mais importantes na magistratura. Em 2015, no comando da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, me tornei a juíza responsável por decisões que entraram para a história de Mato Grosso. Em diversas operações, mandei prender o ex-Governador Silval Barbosa e ex-Secretários do seu governo.
Mandei prender também o ex-Presidente da Assembleia Legislativa, José Riva. E por fim, coloquei atrás das grades o ex-Presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, JoãoEmanuel”.

E assim termina a sua propaganda eleitoral: “Esta sou eu, Selma Arruda: mulher guerreira, corajosa e que não tem medo de lutar. A sua pré-candidata ao Senado por Mato Grosso”.

Derrotado

Já o juiz aposentado Marlon Reis, 48 anos, atual advogado da Rede Sustentabilidade, o partido de Marina Silva, não teve melhor sorte do que a candidata à Presidência da República, que chegou em oitavo lugar no pleito nacional (pouco mais de um milhão de votos).

Apesar de ter ficado conhecido nacionalmente por sua atuação em prol da aprovação pelo Congresso da Lei da Ficha Limpa, Marlon Reis teve votação melancólica na eleição para governador do Tocantins. O candidato da Rede só conseguiu 47.046 votos (6,68%), superado por Mauro Carlesse, do PHS, atual governador (404.484 votos), e Carlos Amastha, do PSB (219.842 votos).

Outros magistrados também concorreram na eleições. Dra. Vanda Milani (solidariedade-AC) foi a quarta deputada mais votada no Acre, com 22.219 (5,23%), e vai ocupar uma vaga na Câmara.

O Juiz Everardo Ribeiro (PMN) ficou em 11º colocado na disputa por uma vaga de senador pelo DF, com 77,6 mil votos (2,95%).  Luiz Sérgio Neiva (PODE-PR) renunciou à candidatura à Câmara.


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