Eleições 2022

Jair Bolsonaro: a trajetória militar e política do presidente que busca a reeleição

Conheça a trajetória de Bolsonaro da Escola de Cadetes de Campinas, passando pelo Congresso até o Palácio do Planalto

Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro. Crédito: Isac Nóbrega/PR

Após construir uma longa carreira parlamentar com base na defesa dos interesses de militares, Jair Bolsonaro chegou à Presidência da República, em 2018, com uma campanha eleitoral que privilegiou a coordenação nas redes sociais e que, a princípio, foi apontada como zebra pelos analistas políticos. Sublimando o sentimento de antipetismo e no momento em que o ex-presidente Lula da Silva estava preso e impedido de concorrer ao pleito presidencial devido a decisões oriundas da Operação Lava Jato, Bolsonaro derrotou o ex-prefeito Fernando Haddad ao receber 57,8 milhões de votos no segundo turno, todos registrados em urnas eletrônicas.

Leia abaixo, em ordem cronológica, a trajetória de Jair Bolsonaro da Escola de Cadetes em Campinas (SP) ao Palácio do Planalto. Atualmente, Bolsonaro busca a reeleição à Presidência nas Eleições de 2022, aliado ao Centrão. Ao longo das próximas semanas, o JOTA irá publicar perfis dos outros pré-candidatos à Presidência da República

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Carreira militar de Jair Bolsonaro

Jair Messias Bolsonaro começou sua trajetória militar na Escola de Cadetes de Campinas (SP), onde chegou em 8 de março de 1973, duas semanas antes de completar 18 anos de idade. No ano seguinte, foi aprovado para ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ). Integrante da turma Tiradentes, o cadete nº 531 ficou conhecido entre os colegas pelo apelido Cavalão, graças à disposição física que demonstrou durante o curso.

Bolsonaro cumpriu o curso básico de paraquedismo do Exército em julho de 1977. Em dezembro daquele ano, foi declarado aspirante a oficial de artilharia, concluindo o curso da Aman. O então presidente da República, general Ernesto Geisel — o penúltimo do regime militar —, esteve presente na cerimônia de formatura, conforme registrou reportagem da época publicada no jornal O Estado de S. Paulo.

Em 1986, em um artigo publicado na revista Veja intitulado “o salário está baixo”, o capitão Jair Bolsonaro cobrou abertamente o comando militar do país em relação aos soldos pagos a soldados e oficiais de baixas patentes. “Como capitão do Exército brasileiro, da ativa, sou obrigado pela minha consciência a confessar que a tropa vive uma situação crítica no que se refere a vencimentos”, ele escreveu. Por causa da publicação, Bolsonaro ficou 15 dias preso em um quartel.

No ano seguinte, a revista publicou uma reportagem em que revelava supostos planos de Jair Bolsonaro e de um colega militar, Fábio Passos, de explodir bombas em instalações militares com o objetivo de pressionar o comando por melhores salários e condições. “Só a explosão de algumas espoletas”, afirmou Bolsonaro à repórter, em tom de brincadeira.

Após a publicação da reportagem, que reproduzia um desenho esquematizado de um dos supostos alvos, Bolsonaro e Passos negaram ao então ministro do Exército, o general Leônidas Gonçalves, que os planos fossem verdadeiros. “Os dois oficiais envolvidos, eu vou repetir isso, negaram peremptoriamente, da maneira mais veemente, por escrito, do próprio punho, qualquer veracidade daquela informação”, disse o ministro à revista. “Quando alguém desmente peremptoriamente e é um membro da minha instituição e assina embaixo, em quem eu vou acreditar?”

O fato fez com que Bolsonaro respondesse a uma investigação em um conselho de justificação do Exército, onde foi inicialmente condenado por unanimidade. Após recorrer ao Superior Tribunal Militar (STM), Bolsonaro foi absolvido por falta de provas, por 9 votos a 4. A carreira militar de Jair Bolsonaro é narrada em detalhes no livro “O Cadete e o Capitão: A Vida de Jair Bolsonaro no Quartel” (Todavia), publicado em 2019 pelo jornalista Luiz Maklouf Carvalho.

Em 1993, em entrevista a pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), o ex-ditador Ernesto Geisel — que compareceu à formatura da turma de Bolsonaro na Aman — classificou o então deputado federal como um “mau militar”. Segundo disse Geisel, “militares devem ficar fora da política partidária, mas não da política geral”. “Presentemente, o que há de militares no Congresso? Não contemos o Bolsonaro, porque o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar.”

A carreira política de Bolsonaro

Após ter se notabilizado no Rio de Janeiro pela defesa dos interesses corporativistas de militares, Jair Bolsonaro disputou eleições pela primeira vez em 1989, quando foi eleito vereador na cidade — ele chegou a distribuir santinhos em áreas militares, o que é proibido por lei. Dois anos depois, sob a mesma plataforma eleitoral, trocou o cargo de vereador pelo de deputado federal em Brasília, que manteve durante sete mandatos e 28 anos, até ser eleito presidente da República.

Bolsonaro também ganhou fama pelas declarações antidemocráticas. Em maio de 1999, em entrevista ao programa Câmera Aberta, da Band Rio, o então deputado pregou o fechamento do Congresso Nacional, uma guerra civil no país e o fuzilamento de políticos, inclusive do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. No mesmo programa, Jair Bolsonaro também disse ser a favor da sonegação de impostos.

Presidente do Congresso Nacional à época, o senador baiano Antônio Carlos Magalhães defendeu a cassação do mandato de Bolsonaro. “Se ele prega isso, deveriam cassar o mandato dele”, declarou à Tribuna da Imprensa, conforme a edição do dia 25 de maio de 1999. “Não vi a entrevista e não tenho que tomar conhecimento das loucuras de alguém que, evidentemente, está perdendo o senso e o juízo”, completou ACM. Já Fernando Henrique Cardoso disse ao jornal que as declarações de Bolsonaro “demonstram que ele não se converteu à democracia”.

A carreira política de Bolsonaro se confunde com sua vida pessoal. A primeira esposa dele, Rogéria Bolsonaro, se elegeu vereadora no Rio de Janeiro em 1996. Na disputa seguinte, em 2000, ela estava se separando do marido e concorreu à reeleição contra um dos filhos, Carlos Bolsonaro, que à época tinha 17 anos de idade. Carlos se tornou o vereador eleito mais jovem da História do país — tomou posse após completar 18 anos —, e Rogéria não conseguiu se reeleger. Até hoje, Carlos Bolsonaro ocupa o cargo de vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, atualmente em seu quinto mandato.

Outros dois filhos de Jair Bolsonaro, Eduardo e Flávio, seguiram os passos na carreira política. Flávio se elegeu deputado estadual pelo Rio de Janeiro em 2002 e se reelegeu outras três vezes, ocupando o cargo até 2018, quando foi eleito senador. Eduardo foi eleito para a Câmara dos Deputados por São Paulo em 2014 e, em 2018, se reelegeu como o deputado mais votado da história do Brasil, na esteira da campanha presidencial do pai.

A eleição presidencial de Jair Bolsonaro em 2018

A partir de 2015, Jair Bolsonaro passou a planejar uma campanha presidencial para o ciclo eleitoral seguinte, promovendo eventos presenciais em diversos estados. Mais uma vez com destaque midiático, inclusive por declarações e sexistas — como as duas vezes em que disse à deputada petista Maria do Rosário que não a estupraria porque ela “não mereceria” —, Bolsonaro maximizou o alcance de seus discursos também com a internet, coordenando redes de apoiadores em todo o Brasil.

Até o final de agosto de 2018, as pesquisas de intenção de voto mostravam o ex-presidente Lula da Silva (PT) na liderança, com Jair Bolsonaro, então filiado ao PSL, na segunda colocação. O petista foi preso em abril daquele ano, por decisão do então juiz federal Sergio Moro, titular da Operação Lava Jato na 13ª Vara Federal de Curitiba.

Em 6 de setembro, durante uma agenda de campanha em Juiz de Fora (MG) com a presença de milhares de apoiadores, Jair Bolsonaro foi vítima de um atentado a faca cometido por Adélio Bispo de Oliveira, preso em flagrante pela Polícia Federal. Socorrido inicialmente na Santa Casa de Misericórdia local, o candidato foi transferido para o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e recebeu alta no dia 29 de setembro. Por recomendação médica, ele passou o restante da campanha em casa, deixando de participar de eventos públicos, inclusive debates com os outros candidatos.

Além da expectativa por parte dos atores políticos de que Lula permaneceria preso até a eleição, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indeferiu o registro da candidatura do ex-presidente com base na Lei da Ficha Limpa, já que o petista naquele momento havia sido condenado em duas instâncias.

Em abril, na véspera do julgamento no STF que definiria se Lula permaneceria preso, o então comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas-Bôas, escreveu no Twitter: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.” Militares que mais tarde comporiam o ministério de Bolsonaro discutiram a publicação da mensagem, conforme depoimento dado a pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Na segunda semana de setembro, o PT anunciou oficialmente que o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad substituiria Lula na urna. A partir daquele momento, os principais institutos passaram a apontar Bolsonaro como o favorito, com Haddad em segundo.

No primeiro turno, Jai Bolsonaro recebeu 49,3 milhões de votos (46% dos votos válidos), terminando na liderança e indo para o segundo turno contra Haddad, que recebeu 31,3 milhões de votos (29%). No segundo turno, 57,8 milhões de eleitores — o equivalente a 55% dos votos válidos — escolheram Bolsonaro como o próximo presidente do Brasil.

Na cerimônia de passagem do cargo de ministro da Defesa, um dia após assumir a presidência da República, Bolsonaro elogiou o general Villas Bôas: “O que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui.”

Após a vitória eleitoral, sob o mote de “mais Brasil e menos Brasília”, o presidente-eleito começou a montar sua equipe com dois principais pilares, os futuros ministros da Economia, Paulo Guedes, e da Justiça, Sergio Moro. Com a junção de quatro ministérios (Fazenda, Planejamento, Indústria e Trabalho) sob seu comando, Guedes recebeu o rótulo de “superministro” tanto pela equipe de Bolsonaro como pela imprensa, status que ficou diminuído com o passar do governo.

Já o ex-juiz federal deixou a carreira concursada no Judiciário para assumir o cargo no Executivo. A escolha de Moro para comandar a Justiça, pasta à qual é subordinada a Polícia Federal, gerou críticas de petistas que acusaram o ex-juiz de ter agido politicamente ao prender o ex-presidente Lula e tirá-lo da disputa eleitoral. O nome de Moro foi confirmado no dia 1º de novembro, exatamente um mês depois de ele ter autorizado, em 1º de outubro, a retirada do sigilo da delação de Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil petista que acusou de corrupção Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e outros ex-correligionários.

“Ele [Moro] estava muito próximo desse movimento político, tanto é que na eleição, no segundo turno, ele faz aquele vazamento das confissões, das delações do Palocci. A quem interessava isso? Interessava ao adversário do PT”, afirmou o ministro do STF Gilmar Mendes, em maio de 2020, ao comentar o caso em retrospectiva, em entrevista à Rádio Gaúcha. “Depois ele aceita esse convite, que foi muito criticado, para ser ministro do governo Bolsonaro, cujo adversário ele tinha prendido. É toda uma situação muito delicada, se discute muito a correição ética desse gesto”, concluiu Mendes.

O Governo Bolsonaro, inquéritos e investigações

O comentário do ministro do Supremo ocorreu em meio à polêmica saída de Moro do governo Jair Bolsonaro, em abril de 2020. À época, o ex-juiz pediu demissão do Ministério da Justiça e acusou o presidente da República de tentar interferir ilegalmente no comando da Polícia Federal. Bolsonaro sempre negou as acusações, tanto em público como no depoimento que prestou à autoridade policial.

Em meio à investigação sobre o caso, foi divulgada a gravação de uma reunião ministerial ocorrida em abril de 2020, na qual Bolsonaro afirma: “Eu não vou esperar foder [sic] a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira.”

No depoimento que prestou no decorrer da investigação, ele negou que a frase indicasse a intenção de interferir na PF, conforme Moro buscou sustentar. A Polícia Federal concluiu que o presidente da República Jair Bolsonaro não cometeu crime neste caso. O inquérito ainda está em andamento.

Outra investigação relevante que ocorreu durante o governo Bolsonaro foi a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia de Covid-19, que ocorreu no Senado Federal e apurou supostos crimes relacionados a políticas públicas de combate à pandemia. Em depoimento à CPI, o deputado federal Luís Miranda, aliado de Bolsonaro então filiado ao DEM-DF, disse ter relatado pessoalmente ao presidente pressões indevidas que o irmão dele, o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, teria recebido para facilitar a compra da vacina Covaxin.

De acordo com senadores da CPI, Bolsonaro teria cometido o crime de prevaricação ao deixar de tomar providências após ter sido alertado sobre uma suposta ilegalidade no Ministério da Saúde. À época, o presidente confirmou o encontro com os irmãos Miranda, mas negou ter cometido crime. “Ele [Luis Miranda] pediu uma audiência para conversar comigo sobre vários assuntos. Eu tenho reunião com mais de 100 pessoas por mês, dos mais variados assuntos possíveis. Eu não posso simplesmente, ao chegar qualquer coisa pra mim, ter que tomar providência imediatamente. Tomei providência nesse caso”, disse Bolsonaro em julho de 2021.

A ministra Rosa Weber negou, no fim de março, o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para arquivar o inquérito. Para a ministra, “ao ser diretamente notificado sobre a prática de crimes funcionais (consumados ou em andamento) nas dependências da administração federal direta, ao Presidente da República não assiste a prerrogativa da inércia nem o direito à letargia, senão o poder-dever de acionar os mecanismos de controle interno legalmente previstos, a fim de buscar interromper a ação criminosa – ou, se já consumada, refrear a propagação de seus efeitos –, de um lado, e de “tornar efetiva a responsabilidade dos seus subordinados”, de outro”. A PGR recorreu da decisão.

Além das acusações relacionadas à compra da Covaxin e à suposta interferência na Polícia Federal, Bolsonaro também enfrenta investigações sobre disseminar desinformação sobre a eficácia da vacinação, promover ataques a ministros do STF, divulgar mentiras sobre a urna eletrônica e a Justiça Eleitoral e vazar informações sigilosas em uma transmissão ao vivo na internet.

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Aliança de Bolsonaro com o Centrão

Eleito presidente da República pelo então nanico PSL, Jair Bolsonaro deixou o partido já no seu primeiro ano de governo. Entre 2019 e 2020, tentou criar o Aliança Pelo Brasil, que seria a sigla para a campanha de reeleição, mas não conseguiu cumprir os requisitos legais, como a coleta de assinaturas.

No Congresso Nacional, os três principais partidos do chamado Centrão — PL, PP e Republicanos — formaram a base do governo, principalmente após o deputado Arthur Lira (PP-AL) ter sido eleito presidente da Câmara. A aproximação também se reverteu em indicações a ministérios e, em 2021, na filiação de Jair Bolsonaro e seus filhos ao PL, presidido por Valdemar da Costa Neto, ex-aliado de Lula condenado pelo mensalão.

Durante a janela partidária, período pré-eleitoral em que a fidelidade partidária deixa de valer, deputados fiéis a Bolsonaro deixaram seus partidos em massa rumo ao PL, que passou a ter a maior bancada da Câmara. Já o PSL, que elegeu a maior bancada em 2018 na esteira de Bolsonaro e seus filhos, promoveu uma fusão com o DEM e formou o União Brasil, partido ao qual o ex-ministro Sergio Moro é filiado atualmente.

Na disputa pela reeleição em 2022, Jair Bolsonaro concorrerá pelo PL e com o apoio do PP, de Arthur Lira e Ciro Nogueira, e do Republicanos, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus — o mesmo Centrão que dá apoio a seu governo no Legislativo, consolidando a aliança programática estabelecida durante os últimos anos também no campo eleitoral.

Em janeiro deste ano, em entrevista à Jovem Pan News, Bolsonaro disse: “Eu, pra conseguir disputar a eleição de 2022, tenho que ter um partido. É a mesma coisa do cara falar: ‘Ah, o Centrão’. Poxa, vocês votaram num cara que foi do Centrão. Eu fui do PP por muito tempo. Fui do PTB, fui do então PFL.”