Eleições 2022

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Ciro Gomes: o candidato sem papas na língua que tenta pela 4ª vez chegar à Presidência

Gomes aposta no conhecimento sobre economia e experiência em cargos públicos para ganhar votos nas eleições de 2022

Ciro Gomes
Ciro Gomes é o candidato do PDT à Presidência da República / Crédito: Reprodução do Facebook de Ciro Gomes

Com 40 anos de vida política, Ciro Gomes (PDT) chega às eleições de 2022 em sua quarta tentativa de se eleger presidente da República, tendo como principal ativo os números da economia na ponta da língua e suas bem avaliadas passagens por cargos públicos. Em terceiro lugar nas principais pesquisas, porém, ainda não conseguiu alavancar 10% das intenções de votos a cinco meses da eleição.

Mas, o político de 64 anos tem um plano em sua cabeça: “Derrotar o fascismo corrupto do [Jair] Bolsonaro no primeiro turno, e a demagogia e a apologia da ignorância corrupta que o Lula representa no segundo turno”, respondeu ao JOTA, no dia 30 de abril, após um encontro de lideranças religiosas promovido por seu partido, o PDT, em Brasília, quando questionado sobre possibilidades de conversas com o PT e Lula.

Não está claro, contudo, como será a trajetória de Ciro Gomes até outubro. Ele tem mantido conversas com frentes de centro, como o União Brasil e o PSD. Mas, ataca todos os lados.

Mesmo no PDT há quem diga que ele “não agrega” e já esteja de olho no palanque de segundo turno com o PT. “Em termos de nome para presidente é o melhor que tinha [no PDT], mas passar por uma campanha… Eu não perco tempo com quem não agrega”, afirmou ao JOTA um parlamentar do partido.

Outro integrante do diretório nacional da sigla disse não ter dúvidas de que, no dia seguinte ao primeiro turno, “o PDT senta com Lula para fechar acordo pro segundo turno”.

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Quem é Ciro Gomes?

Apesar da longa trajetória política, uma das frases mais famosas de Ciro Gomes não tem relação com os cargos que ocupou. “A minha companheira tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo”, afirmou a um grupo de jornalistas em 2002, em sua segunda disputa à Presidência, referindo-se à sua namorada à época, a atriz Patrícia Pillar.

“Eu sou o que eu sou”, afirmou Ciro Gomes ao JOTA, quando questionado sobre o jeito “esquentado” como é descrito de aliados a inimigos.

Suas palavras vêm lhe rendendo dezenas de processos. Em 2018 o JOTA mostrou que havia no Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) mais de 70 processos contra Ciro Gomes só por danos morais, injúria, difamação ou calúnia. Há outros por uso de imagem ou por perdas e danos. Nenhum deles, contudo, está no rol da Lei da Ficha Limpa e, portanto, não impedem o registro da candidatura de Ciro.

Mais recentemente, em dezembro, o político e dois de seus irmãos foram alvos de uma ação de busca e apreensão da Polícia Federal no âmbito da Operação Colosseum, que investiga desvio de verbas e pagamento de propinas na reforma da Arena Castelão, em Fortaleza. Em fevereiro, porém, a 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) acolheu um habeas corpus de Ciro e anulou a ação. Os desembargadores entenderam que houve “falta de contemporaneidade” entre os supostos fatos que motivam a acusação e os dias atuais. Mas as investigações seguem.

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Trajetória política de Ciro Gomes

Nascido em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, em 15 de novembro de 1957, o mais velho dos cinco filhos do defensor público cearense José Euclides Ferreira Gomes Filho com a professora paulista Maria José Ferreira Gomes foi criado em Sobral, cidade a cerca de 330 km de Fortaleza. É formado em Direito.

Bisneto, neto e filho de político, Ciro tem irmãos, primo e ex-esposa na política. Atualmente, um dos irmãos, Cid, é senador pelo estado, e outro, Ivo, prefeito de Sobral. Deputado estadual por duas vezes, ex-prefeito de Fortaleza, ex-governador do Ceará e ex-deputado federal, Ciro também já foi ministro duas vezes.

Foi pelo PDS (atual PP), fruto da antiga Arena, que Ciro elegeu-se a deputado estadual com apenas 25 anos, apoiado pelo pai. No ano seguinte, mudou para o PMDB. Apoiou as Diretas Já, em 1984, e a eleição de Tancredo Neves em 1985.

Reeleito deputado estadual em 1986, foi escolhido por Tasso Jereissati, que havia vencido a disputa ao governo, para ser seu líder na Assembleia Legislativa. Nascia ali uma longa aliança, a ponto de o atual senador tucano ser considerado o padrinho político de Ciro Gomes.

Com apoio de Jereissati, Ciro elegeu-se prefeito de Fortaleza em 1988 e, dois anos depois, chegou ao Executivo estadual. Na época no PSDB, foi o único governador eleito pelo partido. Em 1990 e 1992, Datafolha e Ibope apontaram altas taxas de aprovação às suas gestões.

Em 1994, Ciro foi chamado às pressas por Itamar Franco para assumir o Ministério da Fazenda e substituir Rubens Ricupero, que teve a célebre frase “eu não tenho escrúpulos” captada por antenas parabólicas. O convite, contam aliados, deveu-se muito mais à confiança do ex-presidente em Ciro, do que pela familiaridade deste com temas econômicos na época.

No maior cargo de projeção nacional que já ocupou, Ciro deu andamento à política de implantação do Plano Real e outras que já estavam caminhando. Também criou a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e negociou os termos finais do acordo de tarifas do Mercosul.

Ele, porém, se desentendeu com a equipe econômica e desagradou empresários. “Com umas quatro porradas, a gente faz a inflação cair”, afirmou, um dia após assumir o ministério. Também ficaram famosas frases suas classificando de “canalhice” a possibilidade de empresas aumentarem preços depois das eleições e chamando consumidores de “otários”. Enfrentou ainda uma das maiores greves da história da Petrobras.

Seu nome, que chegou a ser defendido para compor a equipe de Fernando Henrique Cardoso, passou a ser questionado devido ao seu “destempero verbal”, nas palavras de um tucano. Logo após eleito, FHC anunciou o economista Pedro Malan para a Fazenda.

Estes fatos ajudam a explicar a saída de Ciro do PSDB e sua ida para o PPS, partido pelo qual disputou pela primeira vez a Presidência da República em 1998.

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Propostas de governo de Ciro Gomes

Se faltava familiaridade com temas econômicos em 1994, atualmente é neles que Ciro se concentra. Segundo ele, o Brasil “está passando pela pior agonia da sua história”, mas a origem remete aos governos petistas.

Contra isso, ele fala em acabar com o teto de gastos, ampliar a capacidade de consumo das famílias e do investimento público, revisar a reforma trabalhista aprovada no governo de Michel Temer – sem, contudo, dar detalhes do que pretende revisitar -, reduzir as desonerações tributárias e de Imposto de Renda sobre dividendos, fortalecer a indústria, mudar os processos produtivos, taxar grandes fortunas, e tributar grandes heranças.

No momento em que os combustíveis não param de subir, a política de preço da Petrobras está sempre no radar de suas críticas, bem como as privatizações e as desestatizações.

Ataques a Lula, PT e adversários

Na retórica recheada de economês também sobram ataques aos opositores. O presidente Jair Bolsonaro é o predileto em xingamentos, mas Lula, de quem Ciro já foi aliado próximo, não fica atrás.

Mas, se hoje adota esse discurso contra Lula, a quem já chamou até de “maior corruptor da história” em uma entrevista ao jornal “Valor Econômico” em maio de 2021, nem sempre foi assim.

Ciro foi ministro da Integração Nacional de 2003 a 2006, e deu início ao projeto de implantação da transposição do Rio São Francisco. Na época, rompeu com seu partido, o PPS, quando a sigla migrou para a oposição ao governo petista.

Após deixar o cargo, Ciro Gomes se elegeu deputado federal em 2006, pelo PSB. Em 2010, defendendo uma candidatura própria da legenda à Presidência, deixou o partido e filiou-se ao PROS. Foi secretário de Saúde do Ceará na gestão do irmão Cid, entre 2013 e 2015, e depois, passou pela diretoria da Transnordestina Logística S/A, cargo que ocupou até maio de 2016.

Mesmo longe da política nacional na época do impeachment, em 2016, posicionou-se, já no PDT, contra a saída de Dilma Rousseff da Presidência da República.

Foi em 2018, porém, na sua terceira tentativa de disputar a Presidência, que a relação com o PT e, especialmente, Lula, esgarçou. A escolha do líder petista por Fernando Haddad na campanha levou Ciro a mudar o discurso e elevar o tom de suas críticas.

Sua campanha de 2022 está posta praticamente desde 7 de outubro de 2018, quando obteve 12,47% dos votos – 13.344.366 votos válidos – no primeiro turno da eleição presidencial. No segundo turno, o PDT anunciou “apoio crítico” a Haddad na disputa contra Bolsonaro. Ciro Gomes pediu “voto contra a intolerância”, mas não declarou voto em Haddad. A relação com o PT nunca mais foi a mesma.

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