Eleições

ELEIÇÕES 2020

Eleições 2020 devem revelar tendência ao centro da política, diz presidente do PCdoB

Para Luciana Santos, quando o processo se radicaliza, é preciso “dar dois passos para trás para dar dois para frente”

Luciana Santos centro da política
Luciana Santos, ex-prefeita de Olinda e vice-governadora de Pernambuco / Foto: Agência Brasil

As eleições municipais de 2020 devem revelar uma tendência ao centro da política, com menos prevalência de polarização entre atores da direita e da esquerda. A análise é de Luciana Santos, ex-prefeita de Olinda, atual vice-governadora de Pernambuco e presidente nacional do PCdoB, que participou nesta terça-feira (13/10) de um webinar promovido pela Casa JOTA em parceria com o Insper.

O debate, que contou também com a participação do ex-prefeito de Vitória e ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, tratou do tema “processo de transição em governos municipais“.

“Acho que de fato a gente viveu 2018 com a exacerbação de um radicalismo que é burro, que nega o debate, nega ideias, nega a história. Há um recrudescimento do ódio e da tolerância que é inaceitável. Mas, nesse ano, vejo se revelando uma certa tendência ao centro da política, esse ideário mais radicalizado do Bolsonarismo você não vê com tanta força”, disse Santos.

Para ela, na perspectiva da esquerda, isso teve influência também pelas decisões tomadas pelo Partido dos Trabalhadores. Em sua visão, por um lado a legenda foi muito perseguida, mas de outro não compreendeu que “quando você tem um processo mais radicalizado, você tem que dar dois [passos] para trás para dar dois para frente. Como fez Cristina Kirchner na Argentina”. “No Brasil, nós [esquerda] sequer conseguimos nos unir no segundo turno”, sustentou. 

Para Hartung, o eleitor, não só brasileiro, chega perto da eleição pouco ligado ao processo do debate eleitoral. Por isso, disse, não consegue avaliar o que pode acontecer nas eleições municipais, a partir das pesquisas. Hartung concorda que “a frente fria da polarização nervosa e raivosa é uma frente fria que está perdendo força”.

“Recentemente tivemos que fazer uma defesa da democracia, não queria ter que entrar nesse tema de novo. Entramos de novo e fomos bem sucedidos e isso nos dá uma boa pista para o futuro”, disse, acrescentando que também não consegue fazer previsões para 2022.

Nós ainda não terminamos 2020. Vamos atravessar 2021 inteiro. Quando olharmos em 2022 ainda não vai ser tempo de a população estar ligada, só lá para maio. Há muita conversa entre lideranças políticas, muita coluna de jornal, mas a coisa só pega em abril, maio de 2022. O que vai acontecer com a economia brasileira? Se nada for feito, a economia vai para o buraco literalmente”, disse.

Demandas sociais

Para dar vazão às demandas sociais que virão com força nas eleições municipais, principalmente por causa dos impactos da Covid-19 e da proximidade do fim do auxílio emergencial, a vice-governadora de Pernambuco diz que os gestores deverão ser mais cirúrgicos, com foco em problemas pontuais.

A gente vive um certo paradoxo, porque a CF de 88, no que concerne ao papel dos entes federados, aumentou muito a atribuição do poder local, mas não conseguiu encontrar uma equação. Então você criou uma situação onde o poder de fogo dos municípios para fomentar a economia, é muito limitado. Mas é possível fazer ações que não sejam distribuição efetiva de dinheiro”, afirmou. “Isso é um debate que depende muito do que cabe no orçamento e do que é o contingente de miseráveis e pobres que têm naquela determinada localidade.”

Boa gestão e transição

Santos e Hartung consideram que para ter uma gestão de sucesso, inclusive no processo de transição, é preciso que se faça uma campanha real, sem “promessas que vendem terreno na lua”.

“Quanto mais curto for o tempo [de transição] melhor, não pior. Bom mesmo é se a gente tivesse eleição em uma semana e posse na outra. Evidentemente que levaria o país a ter uma estrutura de carreiras públicas com mais estabilidade, mais permanente, menos cargos de livre nomeação. Então esse tempo não é problema”, disse Hartung.

“Onde vejo problema: na condução da campanha. O problema começa na eleição. Eu acho que toda eleição que vende terreno na lua, a execução do governo é de muita dificuldade. Porque você passa quatro anos brigando entre a expectativa que você gerou e sua capacidade de entrega”, continuou.

Santos avalia que um dos fatores mais importantes é a questão política: “A percepção e o compromisso que os gestores devem ter, independente do espectro político, de continuidade. Uma noção de política de Estado, não de governo, mostra cada vez mais importância”.

Precisa de uma boa prestação do serviço, associando isso ao programa que você defendeu na campanha, que por sinal a gente não pode prometer em campanha coisas que não dá para fazer. Outra lição que precisa tirar”, afirmou a vice-governadora de Pernambuco. 

Há outro ponto de atenção, segundo os entrevistados, que envolve os limites de fiscalização dos órgãos de controle. “Esses órgãos precisam cumprir seu papel, mas o país tem uma tradição horrorosa de patrimonialismo, tem que ter cuidado porque se você erra a mão e começa a criminalizar tudo que se faz. Nessa lógica, as pessoas passam a fazer uma coisa que eu vi no setor público: ao invés de o servidor decidir, ele manda para outro. E ninguém decide, porque ninguém quer responder ao TCU”, afirmou Hartung.