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Apesar de mínima histórica da Selic, população acha que taxa de juros cresceu

Para 49,5% dos ouvidos pela pesquisa de opinião nacional do JOTA, a taxa aumentou no último ano

taxa de juros
Banco Central do Brasil em Brasília. Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Na semana passada, o Conselho de Política Monetária do Banco Central (Copom) baixou em 0,25% a taxa básica de juros da economia, a Selic. Com isso, a taxa atingiu o menor patamar já registrado na Selic desde 1999, quando o país adotou o regime de metas de inflação.

Para economistas, tal patamar da taxa de juros muda o paradigma da economia nacional – e barateia as operações de crédito, como o financiamento de imóveis e empréstimos. Apesar da queda da Selic de 6,5% para 4,25% nos últimos 12 meses, quase metade dos ouvidos na pesquisa do JOTA /Ibpad afirma que a taxa de juros cresceu no último ano.

Na pesquisa, 34,4% apontam que a taxa de juros “aumentou muito” e 15,1%, que “aumentou um pouco”.

Ao mesmo tempo, 20,1% avaliam que ela ficou igual. Um em cinco brasileiros entende que diminuiu: 17,3% que diminuiu um pouco e 3,6%, que diminuiu muito.

A pergunta fez parte de uma bateria de questionamentos que buscaram medir qual é o principal problema da economia brasileira. Para um terço dos ouvidos, o desemprego é o grande vilão.

Para Felipe Nunes, cientista político da UFMG e diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria, o resultado provavelmente capta um fenômeno que a Ciência Política classifica como viés de confirmação, quando as pessoas buscam justificativas para opiniões que já têm.

“Na verdade, o que provavelmente o survey está captando é esse fenômeno de viés de confirmação em que a pessoa responde porque isso é o que confirma a opinião e a expectativa que a pessoa já tem. Isso é muito famoso na ciência política principalmente em estudos e avaliações sobre políticos e fatos que as pessoas gostariam que fossem de outro jeito”, diz Nunes.

Historicamente, o Brasil teve altas taxas de juros. Em julho de 2016, ela estava em 14,5% ao ano. Para Nunes, o que talvez explique o resultado da pesquisa seja o fato de que as pessoas acham que os juros são muito altos. “Elas convivem com os juros altos na hora de comprar o carro, a casa, de pagar os juros do cartão de crédito, do empréstimo”, afirma.

Ele pondera que, em pesquisas de opinião, é comum as pessoas responderem quando perguntadas sobre um assunto, mesmo que não tenham uma opinião formada sobre esses temas.

“Assuntos como economia, avaliações objetivas de conhecimento que exigem um certo grau de sofisticação tendem a ser respondidos em pesquisa de opinião de maneira, digamos, que a pessoa produz uma opinião naquele momento. Pesquisa de opinião exige uma forma de perguntar e precisa entender que há limites”, afirma.

Renda

O JOTA também fez um recorte de renda, gênero, perfil educacional e localização sobre os respondentes para entender se havia diferenças significativas na percepção sobre a taxa de juros.

No grupo de entrevistados que não tem rendimento, 58,2% acreditam que a taxa de juros aumentou e pouco mais de 25% avaliam que ela diminuiu.

Na faixa de rende até um salário mínimo, 65,6% apontam que a taxa cresceu no último ano – 49% dizem que aumentou muito – e pouco mais de 11% entendem que ela diminuiu.

Já para 54,4% dos que recebem entre um e dois salários mínimos, a taxa de juros aumentou.

Entre os que recebem entre três e cinco salários mínimos, apenas 35,9% apontam que a taxa de juros aumentou. Ao mesmo tempo, quase 30% deles diz que ela diminuiu. Neste grupo, está a maior proporção de respostas “ficou igual” da decomposição em renda.

Na faixa de renda de quem ganha entre cinco e dez salários mínimos, 65,6% já apontam que a taxa de juros diminuiu. Apenas 20,4% afirmam ter aumentado.

Para 72,3% dos que ganham mais de dez salários mínimos, a taxa de juros diminuiu. Quase 10% deles apontam que ela aumentou.

Macrorregião

Ao analisar o recorte dos entrevistados por macrorregião geográfica, é possível ver que a proporção entre os acreditam que a taxa de juros cresceu é maior no Nordeste do que nas outras regiões. Lá, 61,9% dos entrevistados acreditam que a taxa aumentou (44,1% que aumentou muito). Pouco mais de 15% acham que ela diminuiu.

No Norte e no Sudeste, a proporção de respondentes que avaliam que os juros aumentaram é parelha: 55,1% e 53,4%, respectivamente.

No Centro-Oeste, 48,7% avaliam que a taxa de juros aumentou e 34,2%, que diminuiu.

O Sul é a região onde a menor parte da população acredita que a taxa de juros aumentou: 40,8%. Já 39,3% avaliam que ela diminuiu.

Educação

Há diferenças nas respostas a partir do nível de educação. Entre pessoas com apenas o ensino fundamental completo, 61,7% acreditam que a taxa de juros aumentou. No grupo de ouvidos com ensino médio, o número cai para 51,8%. Já no grupo de respondentes com ensino superior a proporção é de 42,3%.

Gênero

Ao decompor a percepção em gênero, 61,4% das mulheres apontam que a taxa de juros aumentou, enquanto 48,2% dos homens afirmam o mesmo.

Quase 15% das mulheres apontam que a taxa de juros diminuiu. Entre os homens, essa resposta foi dada por mais de 25% dos ouvidos.

Opinião nacional

A pesquisa do JOTA já mostrou que Bolsonaro iniciou o segundo ano de mandato com taxa de aprovação estabilizada, com ligeiro viés de alta, com 34% de avaliações bom/ótimo.

O mesmo levantamento indicou uma percepção geral de melhora na economia, mas 59% dos eleitores acreditam que a economia “ainda vai demorar muito para se recuperar”, o que leva a uma menor pressão de recuperação imediata sobre Bolsonaro, conforme observou o analista-chefe do JOTA em São Paulo, Fábio Zambeli. E, sem pressão, o presidente tende a ceder ao populismo digital e a deixar pauta reformista em segundo plano.

Nesta semana, a pesquisa revelou que 44,1% dos brasileiros apontaram que o ministro da Justiça e ex-juiz federal Sergio Moro deveria se afastar da política e mostrou que, para a população, o desemprego é o principal problema da economia brasileira hoje.

Além disso, mediu a rejeição dos brasileiros a Bolsonaro e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Levantamento

A pesquisa foi feita com 1.022 pessoas, por telefone, entre os dias 28 e 31 de janeiro e conta com respondentes em 387 municípios, em 25 Estados e no Distrito Federal. O sexo de 17 respondentes foi atribuído por meio de sorteio porque os aplicadores não conseguiram identificar essa informação durante a entrevista. A precisão desta pesquisa é medida usando um intervalo de credibilidade. Neste caso, o intervalo calculado é de mais ou menos 3,1%.

A seleção da amostra foi aleatória e após a coleta o time de dados do JOTA Labs aplicou um modelo de regressão multinível para conjugar os dados da pesquisa aos dados do Censo antes de aplicar pós-estratificação usando variáveis como gênero, idade, escolaridade, renda, região do país e declaração de religião. Essa modelagem estatística é importante para garantir o balanceamento da amostra e segue técnicas propostas por professores como Andrew Gelman.


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