Arco do Triunfo localizado na cidade de Paris. Crédito: Pixabay

Brasil – França: tentativas de ocupação e afinidade eletiva

Um francês, na América Latina, nunca é completamente estrangeiro

A França tem presença marcante ao longo da nossa História. Foram cinco séculos que ofereceram, remotamente, um quadro de beligerância – as várias tentativas de ocupação de nosso território – e, nos últimos dois séculos, pelo menos, de afinidade eletiva, história que teve início já em 1504, quando o Capitão Paulmier de Gonneville lançou âncoras na região onde hoje está o estado de Santa Catarina, passou seis meses com os pacíficos carijós e retornou ao seu país natal levando um jovem de apenas quinze anos, filho do cacique.

Foram várias as tentativas de colonização. Capistrano de Abreu, em seus capítulos da História Colonial (1907), afirma que “durante anos ficou indeciso se o Brasil ficaria pertencendo aos Perô (Portugueses) ou aos Maïr (Franceses).”

Em 1555, Nicolas Durand de Villegaignon aportava na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Sua intenção era fundar uma colônia, a França Antártica. Foram reduzidos pelos conflitos internos, marcadamente de fundamento religioso, sendo expulsos os invasores por Mem de Sá em 1560. Nada restou de pé da aspirada colônia, mas os sobreviventes, que retornaram à França de então, levariam imagens já qualificadas para colocar o Brasil num contexto do exotismo que, passados quatro séculos e meio, continua até os dias correntes abastecendo o imaginário francês. No século seguinte nova tentativa: em 1612 era fundada a cidade de Saint Louis du Maragnan. Dentre os colonizadores religiosos dois deles fizeram relatos sobre essa aventura, denominada França Equinocial, efêmera como fora a primeira, a saber, Claude D’Abbeville e Yves d’Evreux. Descrevem um paraíso habitado por bárbaros a serem catequizados.

Já em 1580 Michel de Montaigne haveria de fazer suas reflexões. Em seu Ensaio dos Canibais (1580) o notável pensador e original ensaísta francês aproveita a deixa para criticar práticas correntes na França: “Ouvi dizer que entre esses povos o impostor é gravemente punido. Quando fazem um prisioneiro, guardam-no durante algum tempo e, um dia, assam-no e comem-no, não para se alimentarem, mas em sinal de vingança.” No Tribunal da Razão, assinala, julgamos bárbaros todos esses atos. E acrescenta: “Mas estimo mais bárbaro esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e queimá-lo aos poucos, a pretexto de devoção.” O registro é uma óbvia provocação às fogueiras do Santo Ofício, ao massacre da noite de São Bartolomeu, às sangrentas guerras de religião.

Jean – Jacques Rousseau, escritor e filósofo de língua francesa, no século XVIII, fará uma longa reflexão sobre a origem das desigualdades entre os homens, enaltecendo, em cores vivas, a figura do homem tido como primitivo, inspirado no modelo das terras brasileiras.

Daí em diante as viagens dos franceses têm um conteúdo marcadamente científico. É reconhecida a contribuição de Saint – Hilaire, que escreveu interessantes relatos sobre boa parte do território brasileiro e catalogou sete mil espécies, a expedição de Charles – Marie de la Condamine ao Amazonas, quando se descobre o látex. Os franceses continuavam a chegar. Empolgavam aos viajantes a paisagem tropical, completamente distinta do cenário europeu. E a floresta é esse diferencial, sobretudo a floresta amazônica.

Depois, já no século XX, o Brasil tornou-se um espaço que acolheu intelectuais e músicos franceses, como Bernanos, que aqui residiu por mais de sete anos, relacionando-se com os pensadores brasileiros, bem como Blaise Cendrars. A convivência deste último com Tarsila do Amaral, com Oswald de Andrade e Paulo Prado, acabou por exercer confessada influência no modernismo brasileiro. Darius Milhaud, na música, é uma espécie de porta-estandarte da história das representações, dos emblemas brasileiros na França das duas primeiras décadas do século XX. É como que um preâmbulo das jornadas parisienses dos Oito Batutas e de Villa-Lobos.

Reciprocidade e mútuos encantamentos. Em 1920, Vera Janacopolus passa a residir no Brasil e conhece Villa-Lobos. Através dela o compositor conhece vários compositores – muitos franceses – amigos da soprano, a saber, Stravinsky, Bartok, Prokofiev, Ravel, de Falla, Poulenc, Milhaud, Fauré. O centro de irradiação era, por certo, Paris, a maior caixa de ressonância do mundo ocidental. Villa dizia, com sua habitual imodéstia: “Não vim aprender, vim mostrar o que fiz”.

E Bandeira, em 1924, escrevia: “Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que venha cheio de Paris. Entretanto, Villa-Lobos chegou de lá cheio de Villa-Lobos”.

São Paulo recebeu a chamada “missão francesa”. Cuidava-se da Fundação da Universidade de São Paulo, no ano de 1934. A contribuição francesa foi inegável, estabelecendo um liame de responsabilidade e de reciprocidade que tanto nos encantou. O maior expoente foi o etnólogo Claude Lévi-Strauss, que aqui nos legou discípulos e escreveu uma obra-prima, até hoje referência mundial em ciências humanas, Tristes Trópicos. Para aqui também vieram Roger Bastide, Pierre Monbeig, Fernand Braudel. A França, mais uma vez, pelo pensamento de seus jovens humanistas e pesquisadores, trazia para o Brasil o conjunto de suas idéias.

Em maio de 1968, naquela explosão que fez eco em todos os países dominados pela ditadura, a agitação das ruas parisienses teve grandes reflexos. O Brasil, já sombreado desde 64 pelo governo militar, não ficaria distante: aqui também levantes estudantis foram às ruas.

Daí dizer-se que boa parte da formação brasileira está ancorada sobre bases francesas, num processo de interaction que envolveu os dois países. A França emprestou ao Brasil sua filosofia política, quer pela vasta bibliografia sempre cultivada no Brasil, quer pela presença, entre nós, de pensadores exponenciais, como André Malraux, então Ministro da Cultura de Charles de Gaulle e dos escritores Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Era como se estivéssemos a oferecer aos franceses este exuberante cenário reservado à fantasia e permitindo a fixação ou a existência de uma curiosa esperança de que longe da França era possível realizar algumas utopias.

Daí dizer André Siegfried: “Um francês, na América Latina, nunca é completamente estrangeiro: é que nossa cultura latina nos dá, em muitos casos, a chave de uma civilização para cuja formação nossa tradição cultural contribuiu em grande medida.” Na outra ponta o latino-americano tem pela França um vínculo de afinidade eletiva confessada. Ainda recentemente escreveu Carlos Fuentes: “Esse estranho amor pela França nos salva, a nós, latino-americanos, da velha subordinação hispânica e da nova subordinação anglo-saxã”. É óbvio que essa relação de amor não permite que se repita, nos dias correntes, tal como se fez sem hesitar em trabalhos considerados científicos na França até depois da Segunda Guerra mundial, a fórmula de Metternich, segunda a qual “quando chove em Paris, é necessário abrir os guarda-chuvas de Viena a Buenos Aires, ao Rio de Janeiro ou à cidade do México”.

Do alvorecer do século XX até os anos que se seguem ao término da Segunda Guerra mundial assinala-se a retirada, lenta embora, da influência e dos interesses franceses na América Latina e, em particular, no Brasil. Digamos que a América Latina e especificamente o Brasil teriam mudado de referência cultural, desancorando-se de uma Europa que envelhecia, tendo como ancoradouro preferencial a França, em seu passado faustoso e brilho de suas ideias.

A França cultivou, tanto em seu interior, como no exterior, uma poderosa imagem cultural, alimentada pelas luzes da Revolução Francesa, por seus pensadores e escritores. Durante o século XIX e boa parte do século XX ela era a principal, senão a única, referência para a América Latina e para o Brasil. No meio do século XX, esta referência capital começa a sofrer algum tipo de enfraquecimento. O modelo francês perde força para gerações mais jovens, não obstante a sua vitalidade e excelência celebradas pela geração dos ora sexagenários.

Basta que se leia atentamente a Revista Brasileira da Academia Brasileira de Letras, correspondendo ao período abril / maio / junho de 2005, toda ela dedicada à França, como se extrai da apaixonada apresentação de João de Scantimburgo: “Podemos afirmar, portanto, que assimilamos a França, os seus escritores, os poetas, os prosadores, os pensadores e também a culinária e a moda, com verdadeira paixão pela pátria gaulesa, que sentíamos próxima de nós outros. (…) Reafirmamos que temos a França no coração. Somos, sem dúvida, da geração Francófila e Francofônica (…) Que as novas gerações aprendam, com os exemplos franceses, a conviver democraticamente. (…) O País a quem dedicamos este número da revista brasileira é um repositório incomparável de grandes ideias, de dedicação aos interesses nacionais, e com preocupações sem trégua com a parcela do povo que tem mais dificuldade para atingir o padrão de vida que os povos altamente industrializados já alcançaram, com vantagens para as gerações emergentes”.

É inegável que mesmo os espíritos mais devotados ao universo francês, com o passar dos anos e o pragmatismo que vem se impondo no cenário internacional, terão forçosamente de promover uma revisão em suas crenças. Aquele isolamento está fadado ao insucesso, num universo que se apresenta em nosso tempo apoiado na idéia da mundialização. Mas para os espíritos humanistas é indeclinável ter presente que a verdadeira resolução não se resume em aceitar-se a globalização como uma tendência avassaladora e, por isso, irresistível. Os modelos vindos da França – a História contemporânea nos mostra, ao vivo e a cores – continuam vivos para todos aqueles que não se deixam sucumbir ao império ergonômico e continuarão oferecendo lucidez ao pensamento dos que não se entregam ao massacre empreendido por quem erradamente se atribui a condução da marcha da História do lado certo. Como escreveu Octávio Paz, em 1950, “depois da Segunda Guerra Mundial constatamos que essa auto-criação que a realidade nos impõe não é diferente da dos outros (e que) a História Universal é nossa tarefa comum”.

 

Referências bibliográficas:

  • Denis Rolland, A Crise do Modelo Francês, A França e a América Latina. Cultura, Política e Identidade 2005, Editora UNB.
  • Revista Brasileira, Fase VII, abril – maio – junho 2005, Ano 11 nº 43, Academia Brasileira de Letras, especialmente os ensaios de Elizabeth Trevassos / Manoel Aranha Corrêa do Lago (p. 109) e Turíbio Santos (p. 191).
  • História Viva, Grandes temas, Ed. Especial temática nº 9, A Herança Francesa, Vários autores.

 

“Um francês, na América Latina, nunca é completamente estrangeiro: é que nossa cultura latina nos dá, em muitos casos, a chave de uma civilização para cuja formação nossa tradição cultural contribui em grande medida”.

(Prefácio de L’Amerique Ibérique, de Jacques de Lauwe, Paris, Gallimard, 1937)

 

“Voltemos cinqüenta ou sessenta anos: o homem muito inteligente, muito cultivado, na América Latina, aspirava a que? Não a ser brasileiro, mas a ser, no Brasil, a representação mais alta e da mais fina cultura intelectual”. (Lucien Febvre, Le Nouveau Monde et l’Europe, 1954).

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