O sofisma de uma estabilidade falaciosa

Campeões do privilégio tentam convencer sociedade que problema são supostos excessos do MP

O Brasil é um país interessante: muita virtude em potência e pouca em realizações. Apesar dos problemas quase generalizados, tornou-se clichê relacionar o país ao um futuro que nunca se torna presente. As razões para isso são múltiplas, mas uma das principais é, sem dúvida, a degradação do sistema político.

Certamente a chave desses problemas não está na estabilidade apregoada pelos partidários do reacionarismo tosco. A cruzada dessa turma, em nome da uma alternativa para o país, tem consistido em trabalhar para embaraçar o combate à corrupção no novo modelo instaurado pela Lava Jato.

Abstratamente, os argumentos dos sabotadores parecem ter alguma coerência. A um desavisado, pode até parecer que o país trilhava, antes da Lava Jato, um caminho seguro em direção à superação do crônico subdesenvolvimento. A cifras do Brasil, no entanto, desmascaram esse discurso falacioso.

No cenário atual, os campeões do privilégio tentam convencer a sociedade que o real problema do país são os supostos excessos do MP e do Judiciário no combate à corrupção. A parte corrompida dessa fidalguia acredita que abuso de poder traduz-se em qualquer ato que possa turbar o sossego na pilhagem da coisa pública.

[formulario_fulllist]

É verdade que a maioria dos guardiões do atraso não ousa defender o jogo puro e simples da corrupção, até porque condescender com a graxa no sistema poderia ferir a suscetibilidade dos inocentes úteis.

O discurso, sutil e insidioso, nos remete à retórica dos escravocratas do século XIX que também não defendiam a escravidão em si – o que à época já seria moralmente inaceitável –, mas a integridade das instituições monárquicas, o estado de direito e o equilíbrio econômico do império. O Brasil retardou a abolição, sendo dos últimos países do ocidente a extinguir o abominável modelo produtivo em nome de uma pseudoestabilidade. O resultado até hoje reverbera na desigualdade e no subdesenvolvimento do país.

Todo esse contexto é fundamental para entendermos o que se passa no Brasil por esses dias de transe coletivo. Apesar das forças contrárias, o espírito do nosso tempo decidiu que a corrupção não é mais aceitável como método para chegar ao poder estatal e exercê-lo.

Não fosse assim, jamais teríamos chegado tão longe com a Lava Jato. Seria ingenuidade acreditar que alcançamos resultados tão superlativos apenas por competência técnica. Em uma democracia, os grandes erros e acertos coletivos decorrem mais de um consenso social do que da vontade de instituições isoladas. Foi assim com a escravidão; será assim também com a corrupção. A retórica, o marketing e a hipocrisia poderão retardar as mudanças e salvar alguns corruptos, mas a renovação virá, porque é isso que deseja o povo.

A verdade é que estruturas carcomidas servem ainda a uma parte de nossa elite, tanto quanto um corpo moribundo atende ao hospedeiro infeccioso que o corromperá até o colapso final.

É indiferente, assim, a um político corrupto que o Brasil vá a pique em razão dos seus desmandos, pouco importa se a rapacidade inviabilizará o país. Para ele, até agora, sempre houve uma boa saída.

Nossos modernos fariseus, pretensos defensores do Estado de Direito, debatem-se para oferecer à sociedade uma solução econômica imediata em troca do combate à corrupção sistêmica. Concretamente, teríamos uma estabilidade heterodoxa, fundada em 14 milhões de desempregados, em índice de assassinato similar a de países em guerra civil e em impunidade para ricos e poderosos.

Não. Devemos agradecer e recusar. Essa não seria uma troca justa e vantajosa para a sociedade, como muitos querem nos fazer crer. É difícil que alguém tenha a solução adequada para os problemas do país, mas a receita do fracasso é certa:  preservar intocável o centenário roteiro de impunidade. Nesse quadro, seria quimera esperar por resultado diferente do descalabro a que fomos conduzidos, não pelo sistema de justiça, mas pelo modelo arcaico da política nacional.