Desafios para implantação da área de RelGov nas empresas

Muitas empresas enfrentam dificuldades para consolidar uma cultura interna de boas práticas

A atividade de representação de interesses – por vezes classificada como lobby e, modernamente, como RIG (Relações Institucionais e Governamentais) – tem sido objeto de muitos artigos e estudos recentes tratando da importância da sua regulamentação e do papel estratégico que este segmento tem ganhado dentro das empresas e organizações públicas.

Outros colaboradores desta seção do JOTA já trataram sobre a estrutura e competências ideais que uma área de Relações Governamentais deve possuir; e também a sobre as diferentes atribuições que os setores de Compliance, Jurídico e Relgov podem ter dentro de uma empresa.

Em que pese o aumento da profissionalização e do reconhecimento, o executivo de RIG muitas vezes se depara com uma série de desafios dentro do ambiente corporativo para desempenhar suas funções com propriedade. O cenário é ainda mais adverso caso a cultura de relacionamento institucional ainda não exista dentro da empresa.

Neste artigo, busco trazer exemplos de situações com as quais um profissional de RIG pode se deparar por ocasião da implantação de uma área de relações institucionais em empresa que não possui esta estrutura e onde a atuação é feita por executivos de diversas áreas, sem definição clara das limitações e papeis de cada um.

Alguns destes desafios podem ser percebidos também em empresas que já possuem uma área de relações institucionais com atuação formal e que cuidam de diversos assuntos, como comunicação interna e externa, sustentabilidade e assuntos regulatórios.

Desafios Frequentes

Disputas Internas: O desafio inicial para um profissional que está assumindo a função de coordenar a representação externa e a defesa dos interesses da empresa perante os agentes políticos e demais entidades da sociedade civil será a resistência interna das áreas que exerciam estas atividades anteriormente, mesmo que não fossem claramente da sua competência.

É muito comum, por exemplo, que integrantes do departamento jurídico da empresa façam reuniões com autoridades públicas ou ocupem algum cargo em uma associação setorial. Caso esta função passe a ser exercida pela área institucional, ou exija o envolvimento de algum profissional da área neste tipo de atividade, pode ser criado um sentimento de exclusão ou desmerecimento por parte do responsável anterior.

Outro caso comum é de gestores que estão na ponta dos negócios, principalmente em filiais muito afastadas da sede corporativa, e possuem relacionamento próximo com autoridades locais. Muitas vezes estes profissionais não estão muito abertos a ideia de ter que consultar a área institucional para tratar de temas dos quais eles sempre trataram diretamente.

Resistência à Cultura da Transparência: Ainda existe certa resistência à cultura de transparência e da manutenção de histórico dos contatos com autoridades públicas. Muitas vezes os funcionários acreditam que é necessária alguma relação de proximidade com uma autoridade pública para o agendamento de uma reunião, por exemplo.

Contatos institucionais e networking facilitam muito o trabalho do profissional de RIG, mas o ideal é que as solicitações sempre sejam formalizadas por e-mail ou ofício e que seja feito um relatório do encontro. Em alguns casos, a própria lei determina que isso seja feito.

Infelizmente, nossa sociedade tende a acreditar que sempre existe alguma forma de encurtar os caminhos para obtenção de determinado resultado. Sempre pode haver “aquele contato amigo” que pode conseguir alguma facilidade. Uma das missões do profissional sério de RIG é cuidar para que os funcionários de sua empresa não busquem estas facilidades.

Acionamento em Caso de Incêndio”: Como consequência das situações acima mencionadas, muitas vezes o profissional de RIG é deixado no escuro em determinados temas e não é envolvido na gestão de assuntos que deveriam estar sob seu radar.

No entanto, quando a situação se complica e os riscos para a empresa aumentam, demandando intervenção de alguma autoridade pública, a área de relações institucionais é acionada para “apagar o incêndio” e tentar solucionar o problema. Em empresas que atuam em setores altamente regulamentados, essa intervenção dos órgãos públicos é ainda mais frequente.

Na grande maioria das vezes, caso a área de relações institucionais tivesse sido informada da situação desde o início, poderia orientar sobre a melhor forma de endereçar o problema junto aos órgãos governamentais, reduzindo a exposição a riscos.

Propostas de Enfrentamento

Transparência na Atuação: Mesmo em casos de resistência interna, conforme mencionado anteriormente, a equipe de relações institucionais da empresa deve pautar sua atuação sempre pela transparência. Nesse ponto, destaco que a legislação serve como uma importante aliada.

Ademais, diversas instituições têm trabalhado para a difusão de regras e diretrizes de conformidade. A ABRIG, possui um comitê específico para difusão das melhores práticas de atuação ao seu número crescente de associados. Do mesmo modo, o IRelgov, o ETCO, e a CGU são instituições que atuam de forma ativa para melhorar as relações entre o Estado e as empresas.

A recomendação é para sempre registrar as solicitações e criar sistemas para preservar a memória dos contatos da empresa com o público externo. A partir do exemplo da área institucional, os demais setores devem passar a entender a importância da atuação transparente e organizada.

Coordenação de Temas: Importante envolver sempre as diversas áreas da empresa no tratamento de temas transversais. A área institucional raramente atua sozinha na gestão de temas estratégicos e deve sempre manter uma comunicação ativa com os diversos setores como Jurídico, Regulatório, Tributário, entre outros.

Exemplos Negativos: Outro fator que auxilia na demonstração da importância da área de RIG são os exemplos negativos de empresas que não pautaram sua atuação pela legislação e pelas boas práticas. Os casos recentes de desvios de conduta no trato com órgãos de governo demonstram que os prejuízos resultantes para as empresas são elevados, principalmente o custo da reputação.

Paciência e Resiliência: Por fim, para os profissionais de RIG que se deparam com desafios desta natureza em suas empresas, o principal conselho que posso dar é simples: paciência. A criação de uma área institucional, por si só, não garante que a empresa irá mudar sua forma de atuação no curto prazo.

O responsável pela disseminação da cultura da transparência e profissionalismo nas relações institucionais deve ser resiliente e demonstrar um grande equilíbrio emocional para lidar com as situações que não ocorrem da forma esperada.

Apesar dos desafios diários, as organizações estão reconhecendo cada vez mais o papel estratégico que os profissionais de RIG têm nas suas estruturas.

É muito importante que as áreas institucionais sejam empoderadas pela alta cúpula da empresa para que possam enfrentar os desafios impostos pela atividade. A falta de apoio interno e de recursos adequados pode prejudicar a reputação e dificultar o atingimento dos objetivos empresariais da companhia.

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