Liberdade de Expressão

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‘Nos Estados Unidos, redes sociais são a forma mais evidente de desinformação’

Pensamento é de Rob Faris, diretor de pesquisa do Centro Berkman Klein, que participará do CONET 2019

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Pesquisador Rob Faris / Crédito: YouTube

Há muitos anos, quando ativistas sociais usavam ferramentas digitais de forma mais eficiente do que o governo, muitos concluíram que isso faria com que a nossa sociedade fosse levada a um caminho de maior abertura democrática pelo mundo. Para o pesquisador e diretor de pesquisa do Centro Berkman Klein de Harvard, Rob Faris, esse otimismo foi perdido.

As redes sociais, hoje, são forma mais clara e evidente de disseminação de desinformação nos Estados Unidos. A conclusão é baseada no estudo  “Partisanship, Propaganda, and Disinformation: Online Media and the 2016 U.S. Presidential Election”, de Faris, que analisou a regulação e o uso das redes sociais durante a eleição presidencial americana.

“Empresas de tecnologia podem ajudar a guiar usuários para longe dessa desinformação, mas não podem esperar resolver esse problema, que tem raízes políticas profundas, sozinhas”, afirma o pesquisador.

Faris diz que deve existir uma união entre a sociedade civil e as grandes empresas de tecnologia e de informação para combater o discurso de ódio nas redes sociais.

Além disso, ele acrescenta que “a regulação da internet e das redes sociais não é somente uma questão política e de valores, mas também um assunto de aplicação apropriada da lei”.

As empresas poderiam, segundo Faris, desenvolver filtros para que usuários e clientes tenham um melhor controle sobre o que estão vendo. “Temos muito para aprender sobre o que realmente funciona contra discursos ofensivos”, afirma.

O pesquisador será um dos palestrantes da Conferência Nacional de Internet 2019 (#CONET2019), evento organizado pelo JOTA e pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS).

O evento, que já tem a presença confirmada do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), e também do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, será no Auditório Nereu Ramos, em Brasília, das 8h às 19h.

Os interessados em acompanhar os debates precisam se cadastrar para assistir o evento online. As inscrições, gratuitas, podem ser feitas no site do evento.

Leia a íntegra da entrevista com Rob Faris:

Como as tecnologias digitais coletivas impactam na governança e na democracia atualmente? Como este processo tem se desenvolvido nos anos recentes? 

As interações da tecnologia digital, democracia e governança estão integradas na base dos processos políticos e sociais e dependem muito do contexto. A tecnologia é somente uma ferramenta e seu impacto está relacionado ao fato de como os diferentes atores — governos, sociedade civil e as companhias — a usam.

Há muitos anos, quando ativistas sociais usavam ferramentas digitais de forma mais eficiente do que o governo, muitos concluíram que isso faria com que a nossa sociedade fosse levada a um caminho de maior abertura democrática pelo mundo. Esse otimismo foi perdido. Outros esperavam que a tecnologia digital ajudasse a produzir um eleitorado mais positivamente engajado e melhor informado. Aprendemos que esse processo pode funcionar, mas frequentemente não é esse o resultado. Estamos ainda no início do experimento.

Quais são os melhores exemplos de regulação da internet e de redes sociais que o senhor conhece pelo mundo? 

A regulação da internet e das redes sociais não é somente uma questão política e de valores, mas também um assunto de aplicação apropriada da lei. O processo regulatório tradicional de definição das diferenças entre um discurso protegido e um discurso proibido não mudou muito. Alguns lugares são mais liberais e outros menos.

O discurso de ódio que é protegido nos Estados Unidos, por exemplo, é ilegal em muitos países europeus. O que fazer com o discurso que é terrível, mas permitido pela lei, é controverso.

A parte central do debate é se as empresas de tecnologia deveriam estar decidindo as normas sociais. Muitos acreditam e cobram que as plataformas de redes sociais deveriam ter políticas mais agressivas contra discursos ofensivos. Outros acreditam que essas empresas devem se envolver menos.

Como podemos combater o discurso ofensivo online sem interferir no direito de liberdade de expressão?

O primeiro passo é simplesmente aplicar melhor a lei. A próxima etapa não é tão clara. Depende de uma negociação e do esforço das corporações, companhias e sociedade civil. Respostas contra esses discursos ofensivos e educação pública são ações que podem ajudar.

Outra forma de abordar esse tema seria o desenvolvimento de filtros para que usuários e clientes tenham um melhor controle sobre o que estão vendo. Temos muito para aprender sobre o que realmente funciona contra discursos de ódio.

Sua pesquisa sobre a mídia online nas eleições americanas de 2016 revelou que as principais formas de desinformação foram encontradas nas redes sociais. Como combater esse tipo de desinformação? 

Não há uma resposta específica para essa pergunta. Nossa pesquisa mostra que, nos Estados Unidos, a forma mais evidente de desinformação é a rede social. Entretanto, a fonte mais influente de erros e equívocos de coberturas são as próprias grandes organizações de informação. A disseminação da desinformação se dá por ecossistemas de mídia nos quais líderes políticos, a própria mídia e formadores de opinião têm grande influência.

Empresas de tecnologia podem ajudar a guiar usuários para longe dessa desinformação, mas não podem esperar resolver esse problema, que tem raízes políticas profundas, sozinhas. Precisamos também fortalecer o papel e a influência de organizações de informação que têm o padrão da objetividade e precisão para transmitir a informação.


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