Às Claras

Empresas

As Relações Governamentais e o Ativismo Político Corporativo

Quais os propósitos das empresas e dos poderes da União?

Em tempos remotos as empresas nem queriam saber de relações governamentais. Elas entendiam que responsabilidade social era exclusividade do governo e que não precisavam dele. Elas avaliavam que tais relações tinham apenas interesses políticos e que não se prestavam a essa natureza. Esse posicionamento chegava a ser uma atitude de repugnância.

Muitos anos depois, estimuladas pelas causas da internacionalização dos mercados, as empresas passaram a se relacionar com os governos, em busca de solucionar questões legais e regulatórias específicas para viabilizar seus negócios.

Nesse período o lobby passa a exercer um papel estratégico e se torna uma das principais atividades para exercer influência por meio de contatos diretos e relacionamentos em busca de encontrar soluções legais e regulatórias para interesses empresariais públicos.

Embora legítimo, esse processo foi se desgastando ao longo do tempo com práticas indesejáveis transformando interesses públicos em interesses exclusivamente privados e depois particulares, caracterizando o tráfico de influência. Nos últimos anos, sua legitimidade foi ainda mais impactada com a descoberta de atos corruptos para satisfazer interesses escusos.

Com o agravamento da situação, com as mudanças políticas e a exposição de casos envolvendo empresas, muitas delas adotaram posição de cautela, esperando o desenrolar dos acontecimentos para definir o que iriam fazer ou como iriam conduzir seus projetos nessa área.

Apesar de parecer uma atitude sensata, as empresas nunca devem simplesmente ficar paradas esperando a situação se definir. Por mais que o momento seja desfavorável, as relações governamentais continuam imprescindíveis para a resolução dos interesses institucionais e técnicos das empresas.

Essa atitude de precaução pode ser recomendada em alguns casos, mas, ao contrário, o momento exige um posicionamento claro e efetivo das empresas, pois correm o risco de perderem o que já conquistaram e de ficarem para trás em sua corrida no mercado.

Esse contexto trouxe de volta o debate sobre as práticas do lobby e sua legitimidade, retomando a discussão sobre sua regulamentação. Também gerou uma reflexão sobre a atividade de Relações Governamentais, sendo avaliada com um novo papel dentro desse contexto. Em torno dela, vem tomando corpo uma discussão sobre o seu papel, sua finalidade e suas atividades.

Como conseqüência dessa discussão, as empresas começaram a ver que fazer relações governamentais têm um escopo muito mais amplo e estratégico e que podem desenvolver esse trabalho com segurança e eficiência.

Ao contrário de associar fatores negativos em torno de seu nome, podem assegurar a elas um posicionamento no mercado e reforçar sua reputação junto a seus stakeholders e a sociedade.

Agora, as relações governamentais aparecem de maneira diferenciada no planejamento estratégico das empresas, porque, além de seus interesses de negócios, elas querem se apresentar institucionalmente, mostrar seus propósitos em relação aos benefícios que produzem para a sociedade.

E nesse caso, há uma imensa convergência de interesses. Tanto empresas quanto governos estão interessados nesse relacionamento porque ambos se fortalecem a partir dessa aproximação.

Por um lado, as empresas e instituições são as principais fontes de informação do governo. São elas que detêm recursos técnicos e tecnológicos para produzir tais informações e provocar os benefícios para a sociedade.

Por outro, o governo necessita estar atualizado e carece dessas informações. O legislativo precisa delas para criar legislação específica e o executivo precisa delas para criar programas em prol do bem estar comum. Ambos precisam estar perfeitamente alinhados com as organizações, instituições e representantes da sociedade.

A comunicação corporativa tem papel fundamental nesse processo, uma vez que o sistema político é, em essência, comunicacional. Assim, é preciso uma estratégia de comunicação que incorpore elementos de interação que requerem habilidade de relacionamento e diálogo.

Esse relacionamento estratégico produz resultados a todos.

  • Para o governo, porque recebe informações, ideias e conhecimento das necessidades do mercado e da sociedade.
  • Para as empresas, porque abrem a oportunidade de fazer parte da tomada de decisões, aproximando-as aos interesses da organização.
  • Para o sistema político, porque dá a legitimidade e fortalece a democracia.
  • Para a sociedade, porque cria políticas voltadas para o bem estar social.

Afinal de contas, não seriam esses os propósitos das empresas e dos poderes da união?

Como fazer isso então?

Existem mecanismos adequados que contribuem para que a empresa permaneça atuante e eficiente nas ações de relações governamentais. A primeira postura recomendada é mudar o modo de como fazer as coisas, mais inteligente e criativa.

Já que as empresas descobriram que fazer relacionamento governamental é estratégico e fundamental, agora precisam entender também que elas próprias podem desenvolver esse trabalho com muito mais segurança e eficiência. Apenas precisam se preparar para atuar na área de modo eficaz.

Por exemplo, é muito mais eficaz, se, ao invés de ir falar diretamente com um parlamentar, a empresa planejar a discussão de um tema primeiramente com a sociedade, com seus segmentos de interesse, ONGs, lideranças e influenciadores, imprensa, num movimento em torno de uma causa, num processo de entendimento e discussão do assunto ou problema.

Ativismo político corporativo

Diante desse movimento, para obter sucesso, as empresas precisam rever sua participação e inverter a natureza bilateral do processo. Precisam associar suas causas aos reais interesses públicos e assumir uma posição ativa nos movimentos. Trata-se do ativismo político corporativo a ser assumido claramente pelas empresas, organizações e instituições privadas. Se as ações representarem benefícios reais à população e forem adequadamente associadas aos interesses públicos, não há o que temer.

O fim da bilateralidade entre empresa e governo

O processo do lobby se caracteriza por um sistema de bilateralidade entre governo e grupos de interesses. Por seu desgaste atual e pela evolução e amadurecimento da sociedade, tem início o fortalecimento de um novo modelo de ação que vai muito além das práticas habituais da bilateralidade.

Ele se caracteriza pela entrada da sociedade no processo com atuação determinante nos movimentos e causas de interesse público, de forma independente e autônoma, apresentando e discutindo assuntos por meio das formas comuns de comunicação da população, com campanhas no youtube, nos blogs, facebook, twitter, se manifestando em massa nas ruas e repercutindo seus atos pelas redes sociais para toda a sociedade.

A força está com a sociedade, na consciência social e política dos seus cidadãos e na atuação individual de cada um perante a família, a sociedade e, principalmente, perante o governo.

Esse processo é conhecido como Advocacy

Ele se caracteriza como uma ação da iniciativa privada com caráter público político, que represente uma causa ou benefícios para a sociedade. Hoje a sociedade está amadurecida e no momento atual a população está preparada e predisposta a debater e defender assuntos de interesse coletivo e que tragam benefícios para a sociedade.

Esse movimento provoca posicionamentos dos líderes de grupos representativos, de formadores de opinião, de lideranças empresariais e comunitárias, estimula o debate na internet por meio de portais, blogs e espaços dedicados a ações em defesa de interesses da sociedade, nas redes sociais e repercussão na imprensa. Juntos se encarregam de chamar atenção das autoridades e estimulá-las a se envolver nos assuntos debatidos.

Nenhum parlamentar ou autoridade governamental, seja ministerial ou da área regulatória, ficará indiferente ou desinteressado, se e quando o assunto emergir da discussão da sociedade e for objeto de interesse público.

Essas ações são mais simples e efetivas do que a subjetiva ação do relacionamento direto, com suas idiossincrasias e contornos políticos. Essa é uma das maneiras de fazer as mesmas coisas, mas de modo muito mais inteligente e produtivo, mantendo sua causa, suas ações de relacionamento e suas bandeiras em atividade.

Nesse momento de incertezas, devemos dar às Relações Governamentais a amplitude e o valor correto de sua finalidade e não ficar simplesmente no compasso de espera.

As Relações Governamentais

A função do profissional de relações governamentais será de identificar os propósitos sociais de seu negócio e apresentá-los à sociedade a fim de combinar os interesses comuns e criar uma ação conjunta de mobilização e posicionamento.

Os recursos técnicos já existem, só precisam ser identificados e compreendidos para serem utilizados de maneira inteligente, eficaz e produtiva.

O advocacy promove a mobilização de segmentos da sociedade, redes sociais e imprensa para gerar debate e posicionamento em torno de um determinado assunto ou causa e influenciar autoridades na criação de políticas públicas ou de mudanças de lei e regulamentos.

Essas são as faces e o papel da nova atividade, que tem caráter muito mais amplo do que a bilateralidade e das ações de negociação regulatória e legal.

A atividade de Relações Governamentais já está inserida nesse novo contexto e deve participar de forma intensa com esse caráter de seriedade, de moralidade ética e legitimidade.


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito