Às Claras

LOBBY

Lobby: assunto sobre o qual muitos falam, mas poucos entendem

Às Claras

Foto Ana Volpe/ Agência Senado

Começo esse texto com um brevíssimo relato pessoal. Estudo lobby desde 1995, quando comecei uma pesquisa de iniciação científica na USP sobre a atuação política dos empresários durante o processo de privatização das estatais. Já se vão 21 anos! Vieram o mestrado, o doutorado e 11 anos de docência na própria USP, sempre tratando deste tema, ou então de assuntos fortemente correlatos. Nesse período tive oportunidade de ouvir e ler inúmeros acadêmicos, profissionais da área, jornalistas e membros do poder público tratando sobre lobby. Muitas vezes tenho a impressão de que esses quatro grupos muito conversam, mas pouco se entendem.

Quando nós, cientistas políticos, estamos diante de um assunto que nos interessa academicamente, sempre agimos do mesmo jeito: investigamos a fundo, organizamos as informações levantadas, cotejamos o que temos com aquilo que outros já escreveram e, a partir daí, procuramos tirar conclusões. Ao estudar o lobby, os cientistas políticos buscam responder questões tais como: o que é lobby? Quem faz lobby? Onde, quando e como se faz lobby? Quão influentes são os lobbies e quais são os determinantes de sua influência? Que benefícios e problemas o lobby pode trazer? Como potencializar esses benefícios e enfrentar esses problemas? Já fui convidado muitas vezes por profissionais da área, jornalistas e membros do poder público para falar sobre o resultado de minhas pesquisas. No entanto, ao terminar minha fala, usualmente fico com a impressão de que meu aporte como acadêmico sempre frustra, em alguma medida, meus interlocutores. Tenho a sensação de que os profissionais da área gostariam que eu pudesse ajudá-los de forma mais concreta em seu trabalho cotidiano; que os jornalistas gostariam que eu desse respostas mais concisas e definitivas para suas perguntas abrangentes e complexas; e que os membros do poder público gostariam que eu lhes desse uma fórmula mágica e infalível para lidar com o fenômeno e, sobretudo, para regulamentá-lo.

Os profissionais da área passam a maior parte do tempo trabalhando na defesa dos interesses que representam. Quando falam do que fazem para acadêmicos, jornalistas, membros do poder público ou para seus próprios pares, geralmente relatam casos (ou “cases”, no jargão da área) nos quais estiveram pessoalmente envolvidos. Para nós, acadêmicos, os relatos dos profissionais da área são interessantes, mas sempre muito ligados a casos específicos demais. Quando ouvimos lobistas tratando de seus “cases”, pensamos: o que há em comum nesses relatos? Quais são as diferenças mais sensíveis entre eles? A que conclusões gerais podemos chegar? Já os jornalistas, para poderem escrever suas matérias, gostariam que os profissionais da área abrissem mais o jogo sobre o que realmente fazem, e sobre como os membros do poder público interagem com eles. É óbvio que muitas vezes esse é um ponto sensível para os lobistas, seja porque estes querem manter o sigilo da estratégia escolhida, seja porque a cobertura jornalística pode ser sensacionalista, prejudicando seu trabalho. Os membros do poder público, enquanto tomadores das decisões que interessam aos profissionais da área, isto é, enquanto alvos dos lobistas, gostariam que estes estivessem perto o suficiente para poderem se beneficiar com suas informações, mas longe o suficiente para não passar ao público a impressão de que estão a serviço direto de seus interesses. Enquanto agentes que precisam regulamentar a prática do lobby, ou garantir que tal prática se dê conforme a lei, os membros do poder público gostariam que os lobistas tivessem maior clareza e consenso em relação aos contornos que a atividade deve assumir.

Ao tratar do lobby, os jornalistas relatam casos específicos (sobretudo casos emblemáticos, capazes de despertar a atenção dos leitores), ou então entrevistam acadêmicos, profissionais da área e membros do poder público, para apresentar aos leitores o estado-da-arte da atividade, no Brasil e no mundo. Para os cientistas políticos, os relatos jornalísticos servem como fonte de exemplos e informações a partir das quais podemos generalizar. No entanto, muitas vezes percebemos parcialidade e superficialidade no trabalho dos jornalistas. Gostaríamos que suas matérias fossem mais equilibradas e rigorosas. Os profissionais da área geralmente reclamam que os jornalistas igualam o lobby a práticas ilícitas. Mais de uma vez vi lobistas recitando seu mantra: “lobby é uma coisa, corrupção é outra coisa”. Os membros do poder público usam os relatos jornalísticos para sentir se a questão do lobby está “na ordem do dia”. Muitas vezes, entretanto, sua atenção reflui quando os jornalistas param de tratar do assunto. Além disso, gostariam que os relatos jornalísticos sobre sua interação com os lobistas fossem mais precisas e menos sensacionalistas.

Como dito acima, os membros do poder público lidam com o lobby como alvos ou como reguladores. Para os acadêmicos, a regulamentação da atividade seria muito importante, pois o estudo do fenômeno ficaria muito enriquecido se houvesse registro transparente sobre a prática da atividade, com o máximo de informações possíveis. Os profissionais da área gostariam que os membros do poder público fossem acessíveis e sensíveis a seus pleitos. Gostariam, também, que a regulamentação do lobby desse mais legitimidade ao seu trabalho. Para eles, ideal seria que a regulamentação não fosse excessivamente onerosa no que tange ao tempo e recursos necessários para ser atenda. Já os jornalistas veem a interação de lobistas com membros do poder público como matéria-prima para suas matérias. Gostariam que essa interação fosse mais acessível e bem documentada.

O lobby sempre esteve presente na política e continuará entre nós. Acadêmicos, profissionais da área, jornalistas e membros do poder público o veem com lentes muito diferentes. Se essas quatro tribos estão condenadas a permanecer eternamente juntas, tratando do mesmo assunto com perspectivas diversas, então talvez fosse importante pensar em como o trabalho de cada uma pode ajudar a outra a fazer melhor o seu. E, ao fazê-lo, contribuir para o benefício da sociedade como um todo, pois é ela que financia os trabalhos acadêmicos, que forma a clientela das empresas dos lobistas, que se informa com as reportagens dos jornalistas e que, em última instância, é a patroa dos membros do poder público.


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