Às Claras 2.0

RELAÇÕES GOVERNAMENTAIS

Cursos de RelGov ensinam estratégias para aprimorar relações público-privadas

Insper lançou o primeiro curso, em 2013, e foi seguido por FGV, Ibmec, UniCeub, Cásper Líbero, Abrig e CNF

Mediação e arbitragem; cursos de relgov
Crédito Pixabay

Em 2013, cinco anos depois de se formar em Direito e infeliz com os rumos da carreira em um escritório de advocacia, a advogada Carolina Venuto foi convidada para trabalhar como assessora parlamentar no Ministério da Justiça. No poder público, se interessou pela área de relações governamentais e institucionais, mas não encontrou nenhum curso que tratasse especificamente da área em Brasília.

“Os cursos disponíveis eram mais voltados para Ciências Políticas, mas não tinha nada direcionado para quem quisesse aprender mais sobre relações institucionais”, diz a hoje vice-presidente e diretora de capacitação da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), que em 2017 começou a oferecer cursos de extensão na área.

O Insper, em 2013, foi a primeira instituição a criar um curso voltado para profissionais de relações governamentais e institucionais, em São Paulo. O ex-ministro da Justiça  e colunista do JOTA Milton Seligman é professor do curso desde 2014. “Trata-se de uma atividade com debates de pontos de vista, todos legítimos. Essa luta vai privilegiar quem estiver mais bem preparado”, avalia.

As aulas do curso de Relações Governamentais no Brasil do Insper duram 16 horas no total e são ministradas durante dois dias em São Paulo. “Ensinamos estratégias para se conseguir resultados em relações governamentais”, conta Seligman.

“O curso é interessante para quem quer migrar de área, do Direito para RelGov, por exemplo. Procurei o curso do Insper em 2018 para me reciclar e foi ótimo”, conta Fabiane Cunha Lazzareschi, gestora de RelGov da Atvos. “O curso prepara muito bem para a atuação externa, é focado muito na parte prática, mostrando como se dá a defesa de interesses”, lembra Lazzareschi, que tem formação em Ciências Políticas.

No ano passado, o Insper criou um novo curso, chamado “Estratégias de Negociação Empresa-Governo”, voltado mais para quem já atua em departamentos de relações governamentais e institucionais. A grade também engloba 16 horas de aulas em dois dias.

A partir de 2015, outras instituições educacionais também passaram a investir na área. Novos cursos foram criados  na Fundação Getúlio Vargas (FGV), na Cásper Líbero e na UniCeub.

Na Fundação Getúlio Vargas, as primeiras turmas foram em São Paulo e em Brasília, onde foi preciso recusar alunos diante da grande procura. O MBA Executivo em Economia e Gestão: Relações Governamentais tem duração de 21 meses, com seis módulos e 432 horas de aulas presenciais. O curso é oferecido pela FGV em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.

“Nosso curso tem como objetivo fazer uma abordagem mais ampla tanto da parte teórica como na parte prática”, conta Andrea Gozetto, coordenadora acadêmica do curso da FGV. As aulas são aos sábados, das 8h30 às 18h, e são ministradas a cada duas semanas. “Queremos que o aluno possa aplicar no ambiente de trabalho os ensinamentos oferecidos no curso”.

Os alunos da Fundação Getúlio Vargas têm aulas de disciplinas como “Análise de Riscos e Cenários”, “Direito Regulatório”, “Pensamento e Planejamento Estratégico em Relações Governamentais”, “Processo Legislativo” e “Sistema Tributário Brasileiro”.

O presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos, Ibiapaba Neto, é jornalista de formação e fez o curso da FGV em busca de conhecimentos na parte executiva. “O MBA ajuda a identificar pontos em que é possível melhorar algum processo ou mesmo acessar ferramentas que podem fazer o dia-a-dia mais fácil”, diz.

A UniCeub, em Brasília, forma a cada semestre entre 30 e 40 alunos no curso Direito e Relações Governamentais. A pós-graduação surgiu depois de a universidade ter montado um curso corporativo para capacitar profissionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e de uma associação de RelGov. “Depois dessas turmas corporativas, percebi que o mercado precisava ser capacitado. A  atividade de relações governamentais era exercida de forma intuitiva”, avalia Lilian Rocha, coordenadora da pós-graduação, que tem duração de 390 horas de aula, sendo que cada aluno monta sua grade.

O corpo docente da UniCeub tem nomes como o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, que dá aulas nas disciplinas “Compliance e Relações Governamentais” e “Compliance nos Serviços Públicos Regulados”. “Os alunos têm acesso a conceitos sobre programas de prevenção e integridade, corrupção, seus reflexos e a forma de combatê-la, técnicas de negociação, colaboração premiada, leniência e improbidade administrativa”, explica Janot.

Em 2016, o Ibmec lançou o MBA em Relações Institucionais, voltado para quem atua em empresas e organismos da sociedade que se relacionam com os poderes públicos e também para os próprios gestores públicos. “Trabalhamos muito a parte de inteligência política. Ensinamos caminhos para buscar informações e compilar dados para apresentar aos clientes as chances de um projeto ser aprovado”, explica Ricardo Caichiolo, coordenador da pós-graduação do Ibmec em Brasília, que tem duração de 450 horas de aulas.

“O aluno aprende como desenvolver uma capacidade de interlocução com os agentes, identificando as pessoas que são fundamentais. E temos reforçado a questão do compliance. Queremos tirar o viés pejorativo que o lobby tem”, complementa Caichiolo.

No Insper os alunos também aprendem a usar ferramentas que reúnem informações e trazem vantagem na hora de se montar uma estratégia. “É importante saber qual argumento usar. Antes, as informações não eram acessíveis e cada um tinha que coletá-las por conta própria”, destaca o professor Milton Seligman. “Hoje, temos veículos como o JOTA, que junta jornalismo com ciência de dados, proporcionando informações preciosas”, avalia.

A Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), com sede em Brasília, tem um curso de extensão desde 2017. Com duração de um ano, o curso é indicado para quem já atua na área. São 100 horas de aulas, ministradas às segundas e quintas. “Ao montarmos a grade, olhamos os cursos que já existiam no mercado. O aluno aprende a fazer análises de políticas públicas e de processos legislativos. Também explicamos a diferença entre lobby, advocacy e relações governamentais”, diz Carolina Venuto, vice-presidente e diretora da capacitação da Abrig.

Cursos de curta duração

Os interessados em se aprofundar em relações governamentais e institucionais também têm à disposição cursos de curta duração.

Em São Paulo, a Faculdade Cásper Líbero lançou há cinco anos o curso “Relações Governamentais – Estratégias de Comunicação com o Governo”. São 15 horas de aulas, ministradas ao longo de cinco dias pelo professor Flávio Schmidt, que tem 25 anos de experiência na área de relações públicas. Todos os anos são abertas ao menos duas turmas, uma em janeiro e outra em junho. Uma edição extra do curso foi aberta para março por causa da demanda.

“O curso tem um foco muito grande na prática. Ensinamos como lidar com um parlamentar, como lidar com o governo e os melhores caminhos para se comunicar com os tomadores de decisão”, explica Schmidt. “O curso é voltado para iniciantes que desejam conhecer melhor a atividade de relações governamentais”, complementa o professor da Cásper Líbero.

Em Brasília, a Confederação das Instituições Financeiras (CNF) tem desde o ano passado o curso Relações Institucionais e Governamentais. Foram quatro turmas no ano passado, com 30 alunos cada e neste ano serão mais quatro.

“São dois dias de aulas, com quatro professores diferentes. Os alunos aprendem compliance, relações institucionais com o Poder Executivo e relações institucionais com o Poder Legislativo”, conta Iraciara Almeida, gerente de relações institucionais da CNF.

A Abrig também oferece cursos rápidos, com duração de oito horas, que são realizados sempre aos sábados.

Perfil dos alunos

Os alunos que procuram os cursos são formados, predominantemente, em Direito, Relações Internacionais, Ciências Políticas e Comunicação Social. Embora em minoria, também há aqueles com formação em Engenharia, Administração e Economia.

Na Fundação Getúlio Vargas e no Ibmec há um processo seletivo que inclui entrevistas com os respectivos coordenadores dos cursos.

“Fazemos a seleção para garantir ao aluno que ele tenha um mínimo de homogeneidade em sala de aula”, explica Andrea Gozetto, coordenadora acadêmica do MBA da FGV em São Paulo. “Antes, havia uma predominância de profissionais do Direito, mas hoje em dias as turmas são bem diversas quanto à formação acadêmica”, destaca Gozetto.

Um levantamento feito pela própria FGV com 67 alunos mostra que 55% deles são do gênero masculino e 45% do gênero feminino. A faixa etária predominante é entre 31 e 40 anos, que representa 43% dos alunos. Em relação à área de atuação, 46% trabalham em empresas privadas, 32% atuam em órgãos públicos, 13% são da esfera da sociedade civil (ONGs e associações setoriais e de classe) e os demais atuam em outras frentes.

As turmas do Ibmec são formadas, em média, com 70% de alunos que já trabalham com relações governamentais. “Também temos alunos que trabalham no governo. No último ano, percebi um aumento de procura de profissionais de escritórios de advocacia”, relata Ricardo Caichiolo, coordenador da pós-graduação do Ibmec.

No ano passado, uma matéria do JOTA apontou justamente esse crescimento de setores de RelGov em escritórios de advocacia. “Quando um cliente vai procurar um escritório de RelGov, se houver um advogado e um cientista político, ele vai preferir um advogado para atendê-lo. Até por isso, temos trabalhado esse conhecimento jurídico necessário no curso”, revela Caichiolo.

RelGov na graduação

Em cursos de graduação, há faculdades oferecendo disciplinas específicas para os alunos que querem aprender mais sobre RelGov.

Uma delas é a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo. O curso de Relações Internacionais da instituições tem desde 2014 uma especialização em Relações Institucionais Governamentais.

“Todos os alunos do curso são obrigados a escolher uma especialização no quinto semestre. Quem opta pelo minor em Relações Institucionais e Governamentais tem matérias com abordagem de processos legislativos, políticas públicas e relacionamento com os stakeholders”, explica Denilde Holzhacker, coordenadora do minor de RelGov da graduação em Relações Internacionais da ESPM.

Erika Alvarez se formou em Relações Internacionais na ESPM em 2016 e hoje é analista de assuntos governamentais da Johnson & Johnson. “Conheci o que era RelGov na graduação e me encantei com a área. No processo seletivo do meu atual emprego fez muita diferença o fato de eu ter tido contato com a área na graduação”, lembra.

Além da ESPM, a Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), também em São Paulo, oferece aos alunos disciplinas específicas com abordagem de RelGov. A grade regular do curso de Relações Internacionais já engloba matérias de relações governamentais, mas aqueles que querem se aprofundar têm à disposição um programa suplementar, criado em 2018. As turmas são formadas por alunos de Direito, Administração, Economia e Relações Internacionais.

É um programa suplementar opcional e que não gera custo adicional algum aos alunos. Ao todo, são 12 disciplinas, com 300 horas de aulas. Há disciplinas como “Análise de Risco”, “Análise de Cenário Prospectivo” e “Relações Institucionais”. O aluno monta a própria grade e gerencia o volume de matérias ao longo da graduação.

“Essa grade interdisciplinar é pioneira. O programa surgiu como uma forma de trabalhar habilidades e competências para gerar valor de mercado”, diz a coordenadora do curso de Relações Institucionais da Faap, Fernanda Magnotta.

Por não ter encontrado um curso de relações institucionais há sete anos, Carolina Venuto acabou tendo que aprender o ofício na prática. “Hoje o caminho pode ser encurtado por causa da existência destes cursos, nos quais os alunos têm contato direto com profissionais que já trabalham na área”, avalia Venuto. “Se eles existissem há 7 anos, seria aluna de um deles com certeza”.

Saiba mais sobre os cursos disponíveis no mercado

Insper

Primeira turma: 2013
Carga horária: 16 horas de aulas divididas em dois dias
Investimento: R$ 4.388,92
Local: São Paulo
Alunos formados até hoje: não informado

Fundação Getúlio Vargas

Primeira turma: 2015
Duração: 432 horas de aula ao longo de 21 meses
Investimento: R$ 40.702,18
Local: São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro
Alunos formados até hoje: 200

Ibmec

Primeira turma: 2016
Duração: 450 horas de aula
Investimento: R$ 26.950
Local: Brasília
Alunos formados até hoje: não informado

UniCeub

Primeira turma: 2015
Duração: 390 horas de aulas e cada aluno monta sua grade
Investimento: R$ 11.340
Local: Brasília
Alunos formados até hoje: 400

Cásper Líbero

Primeira turma: 2015
Duração: 15 horas de aulas em cinco dias
Investimento: R$ 750
Local: São Paulo
Alunos formados até hoje: 300

Abrig

Primeira turma: 2017
Duração: 100 horas de aulas durante um ano
Investimento: R$ 5.576 (para associados)/R$6.970 (para não associados)
Local: Brasília
Alunos formados até hoje: 60

Confederação Nacional de Instituições Financeiras

Primeira turma: 2019
Duração: 16 horas de aulas em dois dias
investimento: R$ 995
Local: Brasília
Alunos formados até hoje: 120


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