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Webinar do jota

Pandemia evidencia novo perfil de advogado em empresas, com papel ativo em decisões

Para integrantes do Jurídico Sem Gravata, diretor jurídico deixou de ser um profissional apenas consultivo ou litigante

advogado em empresas
Imagem: Pixabay

Em meio à tragédia sanitária e à crise econômica provocadas pela pandemia da Covid-19, departamentos jurídicos de empresas — tradicionalmente visto como o pessoal que sempre diz: “não pode — se tornaram ainda mais relevantes para o andamento dos negócios. 

Na visão de membros do grupo Jurídico sem Gravata, o diretor jurídico deixou de ser um profissional consultivo ou litigante e assumiu de vez a função de atuar ao lado da direção da empresa para que decisões sejam tomadas de forma mais acertada.

Gianfranco Cinelli (diretor jurídico da Yara Brasil Fertilizantes), Luciana Nunes Freire (diretora executiva jurídica da Fiesp) e Eduardo Nogueira (VP jurídico da DHL Supply Chain) falaram sobre o assunto em webinar do JOTA nesta sexta-feira (7/8).

Cinelli afirma que, sem a orientação do jurídico, as empresas estariam caminhando para o abismo. O governo federal passou a editar muitas Medidas Provisórias como forma de combater os efeitos da pandemia e essas alterações tinham de ser entendidas e aplicadas rapidamente. “A pandemia é um divisor de águas. Aquele advogado que não está ajudando a empresa a seguir o seu rumo vai sair. O advogado que vai ficar é o que se coloca como parte do gabinete de crise, propositivo, buscando alternativas”, avalia.

Para ele, um dos alertas importantes é o de que os atalhos tomados hoje podem significar danos futuros. Ou seja, uma decisão não pensada corretamente pode ter como reflexo um problema de imagem, reputação, ou mesmo com a Justiça. Por isso, o departamento jurídico deve ser um aliado na tomada de decisão empresarial. 

Se, por um lado, algumas atividades foram paralisadas, outras tiveram de operar com maior demanda. Em ambos os casos, foi preciso rever as dinâmicas, manter a segurança de funcionários e dos negócios. Em alguns casos, o legado pode ser de modernização e de inovação.

“A gente já estabeleceu, na dor, o trabalho remoto. Então, quando tudo isso passar, nós podemos continuar com as inovações, porque isso trouxe muita eficiência para as áreas jurídicas que não trabalhavam com ciência de dados aplicada ao Direito. A gente progrediu e isso será perene”, diz Luciana Nunes Freire, diretora jurídica da Fiesp. 

Cinelli concorda, mas pontua que, para isso, será preciso atenção. “Teremos de nos policiar para manter os bons aprendizados deste momento e levar melhor dos dois mundos: ter o contato pessoal, social, que é tão importante para construir time, confiança, networking, e também o virtual para reduzir custos, economizar tempo”, diz. 

O perfil do advogado também deve mudar. Eduardo Nogueira, VP Jurídico da DHL, por exemplo, é responsável, também, pela inovação da empresa. “Por que o advogado não pode olhar para o futuro? Pensar em quais serão as dores de amanhã e trabalhar antecipadamente nisso”, reflete. 

Essa não é, no entanto, uma discussão que ele vê sendo feita das graduações. Para ele, as faculdades não têm preparado os profissionais jurídicos necessários hoje. “O mundo mudou e não acho que a graduação esteja se atualizando na velocidade necessária.  A gente forma muito profissional para o litígio. É preciso dominar as técnicas do contencioso, mas só isso não é suficiente e não faz com que o profissional seja bem-sucedido numa carreira pública, solo, corporativa. Se ele não se vê com alguém que precisa resolver problemas, não vai ter sucesso. A gente precisa conhecer de pessoas, relacionamentos, de tecnologia, como usá-la a nosso favor. Acho que as universidades têm tentado avançar nisso, mas a gente ainda segue pobre nesse aspectos.”

Nesse movimento cresce, também, a presença de profissionais da área do Direito na direção de empresas. Mas Luciana Freire alerta que o advogado que chega a CEO de uma empresa é o sem gravata. “Não tem como o advogado tradicional trabalhar em função de gestão se não conhecer o negócio, o que faz, produz, vende, o caixa, as despesas, os investimentos, as pessoas”, diz.

Webinars

A conversa faz parte da série de webinars diários que o JOTA está realizando, durante a pandemia da Covid-19, para discutir os efeitos na política, na economia e nas instituições.

Todos os dias, tomadores de decisão e especialistas são convidados a refletir sobre algum aspecto da crise.

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