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Para Mendonça de Barros, governo terá de agir para alavancar economia

“A economia, por si só, não sai dessa armadilha”, disse o economista e ex-presidente do BNDES em webinar do JOTA

Mendonça de Barros
Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES/ Crédito: Reprodução YouTube

Na quarta-feira (6/5), o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reduziu a taxa básica de juros em 0,75 ponto porcentual e agora a Selic, taxa básica de juros da economia, está em 3% ao ano. Um trecho da nota emitida após a reunião diz que “o Copom avalia que perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia”. Economista, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES, Luiz Carlos Mendonça de Barros discorda e avalia que a preocupação com a política fiscal terá de ser adiada. “O governo vai ter que criar condições de choque de demanda para levantar a economia e colocá-la em uma situação favorável”, disse em webinar do JOTA nesta sexta-feira (8/5).

Sobre o Copom, Mendonça de Barros considerou a medida um “erro”. “Me parece mais uma desculpa pessoal dos membros do comitê, quase todos de escolas rígidas na questão fiscal, para dizer ‘estou vendo esse problema aqui’”.

“A economia, por si só, não sai dessa armadilha. Com esse hiato tão grande, é preciso colocar um macaco para alavancar um pouco a economia”, defendeu. “Tivemos um primeiro pacote para a manutenção de renda. E vamos ter que fazer um outro pacote no fim do ano, com o pensamento keynesiano clássico.”

Segundo ele, é preciso isso para colocar a economia no ciclo de negócios natural. “Depois, aí sim, vamos precisar ter um esforço fiscal e de arrecadação”, complementou.

Segundo Mendonça – que foi ministro das Comunicações e presidente do BNDES no governo FHC –, depois que a economia atingir uma certa velocidade, passa a caminhar sozinha por causa da conjuntura monetária atual, de inflação e juros baixos. “É a primeira vez que eu vejo no Brasil uma desvalorização de 35% do câmbio sem causar inflação”, lembrou.

O ajuste nas contas públicas deve vir em um capítulo posterior, avalia. “O governo só vai poder se preocupar com o déficit público depois que a economia estiver um pouco pra cima. No limite, vamos acertar a finanças públicas somente em 2022”.

O economista abriu o webinar dizendo que tem 50 anos de profissão, atuando no mercado financeiro, em instituições privadas e no governo. “Já vivi pelo menos 10 crises parecidas com essa, não semelhantes. São crises típicas do mundo global”, destacou. “Dessa vez temos uma crise que não é continuada, ela tem um limite de tempo”, ressaltou. “Não sabemos se vai durar dois ou três meses, mas quando acabar, a economia estará liberada para seguir seu ciclo normal”.

Para Mendonça, os governos têm que agir em função da depressão que se criou. “É preciso esquecer o passado, é esse o problema que temos que tratar agora”, disse.

Em sua avaliação, os ajustes que serão necessários não passam por privatizações. “A privatização vai precisar ser guardada para outra fase. Ou seja, quando a economia voltar a crescer, a privatização vai servir para pagar uma parte da dívida que foi acumulada”, avaliou Mendonça de Barros.

Questionado sobre a China, disse achar muito difícil que o país volte a ter um crescimento econômico na média de 6% ao ano como vinha tendo. Na sequência, ressaltou que um possível rearranjo na economia global pode beneficiar o Brasil. “Um dos efeitos laterais da crise é que o mundo se assustou com a dependência em relação à China”, disse. “O mundo globalizado vai ter que se repensar e o Brasil é um dos países que pode se beneficiar com isso, porque nossa indústria sofreu muito com a China.”

Webinars

A conversa com Mendonça de Barros fez parte da série de webinars diários que o JOTA está realizando, durante a pandemia da Covid-19, para discutir os efeitos na política, na economia e nas instituições. Todos os dias, tomadores de decisão e especialistas são convidados a refletir sobre algum aspecto da crise.

Entre os convidados, já participaram do webinar estão o apresentador e empresário Luciano Huck, o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, o presidente do STF, Dias Toffoli, o ministro Gilmar Mendes, o ministro Luís Roberto Barroso, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), a presidente da CCJ do Senado, Simone Tebet (MDB-MS), o presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Fausto Pinato (PP-SP), o economista e presidente do Insper, Marcos Lisboa; além de representantes de instituições como a Frente Nacional de Prefeitos, a Confederação Nacional das Indústrias e a Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho.

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