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Denizar Vianna: ‘população não pode achar que a vacina resolve o problema’

Além da vacina, é necessário ter compromisso com outras medidas não farmacológicas, diz ex-secretário da Saúde

Denizar Vianna
Denizar Vianna: “A gente começa a ter uma sinalização de que os casos [de Covid] vão ter um declínio”. Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

No dia 12 de março, no início do aumento na curva de contágio do coronavírus no Brasil, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez a previsão de que a crise causada pela pandemia deveria durar pelo menos quatro ou cinco meses. “O prognóstico que foi feito, de cinco meses, de alguma maneira está sendo validado agora”, diz Denizar Vianna, que até maio foi secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde. “A gente começa a ter uma sinalização de que os casos [de Covid-19] vão ter um declínio”, avalia. “A minha percepção é de que em julho haverá uma decrescente [na curva de contágio], mas todo processo de flexibilização precisa ser muito responsável”.

Segundo Vianna, que participou nesta quinta-feira (18/6) de webinar do JOTA, há uma expectativa muito grande de que em breve a doença tenha uma vacina. “Mas é importante destacar que a população não pode achar que a vacina resolve o problema”, alerta. “Há inúmeros exemplos, como o sarampo, de que se não houver um compromisso da sociedade em relação a outras medidas, medidas não farmacológicas, a vacina não vai resolver o problema de todo mundo”.

Denizar Vianna também prega cautela com relação aos medicamentos em estudo. “No estágio atual, temos alguns medicamentos que sinalizam que são promissores, mas ainda não têm uma evidência ideal para uma formulação de política de saúde”, explica. Em relação à cloroquina, diz que não há evidência científica ainda para promover uma política de saúde para sua prescrição em casos leves de modo sistêmico. “Agora, o médico, que avalia o paciente individualmente, tem o livre arbítrio de uma prescrição off label, inclusive o CFM criou esse caminho”, pontua.

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Ao falar das ações contra a Covid-19 quando Mandetta estava à frente do Ministério da Saúde, destaca o contato direto que havia com os governos locais. “Ações ligadas à Covid-19 eram tratadas diariamente em reuniões com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde”, lembra. “Você não pode planejar ações simplesmente no Ministério da Saúde sem trazer para a discussão estados e municípios, que é onde as coisas acontecem”, defende. “Se nós não tivéssemos uma política de tratar desiguais de forma desigual, não atingiríamos o objetivo maior de salvar vidas”.

Sobre o pós crise, faz um alerta. “No pós Covid-19, tem uma bomba para explodir, porque está represando uma série de tratamentos que a gente tinha que estar fazendo hoje, cirurgias estão deixando de ser feitas, no público e no privado”, diz. “Vamos terminar a crise com problemas de caixa e um contingente muito grande da população precisando de cuidados de saúde”.

Legados na saúde

Denizar Vianna entende que, com a pandemia, “há uma percepção da sociedade hoje da relevância do investimento em saúde, há uma consciência da necessidade de se colocar recursos na saúde”.

De acordo com o ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, o grande desafio é como melhorar o orçamento do SUS. Do lado do gestor, avalia, deve-se buscar como usar da melhor forma possível esses recursos. “O SUS, pelo seu potencial de compra, é o maior estímulo para o complexo de saúde do país”, afirma. “O Estado tem que se modernizar. Se nós não criarmos mecanismos que hoje o mundo todo já faz, de criar formas de tecnologia, compartilhar risco, nós não vamos evoluir”.

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Outra percepção que a pandemia trouxe é com relação à eficácia de atendimentos médicos à distância. “Essa pandemia nos mostrou o quanto é importante investir em telemedicina, em teleconsulta. Vamos sair da crise sabendo que não podemos abrir mão desse tipo de tecnologia”. Segundo Vianna, a telemedicina ajuda no atendimento de média complexidade, quando o paciente precisa de um especialista, cuja disponibilidade não se encontra em todos os municípios do país.

Webinars

A conversa com Denizar Vianna faz parte da série de webinars diários que o JOTA está realizando para discutir os efeitos da pandemia na política, na economia e nas instituições. Todos os dias, tomadores de decisão e especialistas são convidados a refletir sobre algum aspecto da crise.

Entre os convidados, já participaram do webinar estão o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o apresentador e empresário Luciano Huck, o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, o presidente do STF, Dias Toffoli, o ministro Gilmar Mendes, o ministro Luís Roberto Barroso, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), a presidente da CCJ do Senado, Simone Tebet (MDB-MS), o presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Fausto Pinato (PP-SP), o economista e presidente do Insper, Marcos Lisboa; além de representantes de instituições como a Frente Nacional de Prefeitos, a Confederação Nacional das Indústrias e a Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho.

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