Carreira

Novos caminhos

Por que deixei um escritório em que era sócio para criar uma startup

Ao empreender você tem que arriscar mais. De qualquer forma, não trocaria a camiseta pelo terno e gravata de novo

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Crédito: Pixabay

Sócio de escritório de advocacia de prestígio, com sala individual em prédio envidraçado na principal avenida de São Paulo decide largar uma alta remuneração e ternos alinhados para correr atrás de um sonho da adolescência. Esta descrição parece aquelas chamadas apelativas para filmes de Hollywood, mas não deixa de se aproximar do que aconteceu comigo. Mas, assim como no cinema, as reais motivações e percalços  para a execução dos grandes sonhos são ignorados.

No meu caso, minha motivação para escolher cursar Direito no longínquo ano de 1997 foi bem diferente da maioria dos meus colegas: eu queria ser político. No atual momento brasileiro, fica clara a minha ingenuidade, normal (eu acho) para um adolescente, pois acreditava que essa seria a melhor forma de mudar o país para algo melhor. Conhecer as leis me prepararia para ser um bom legislador ou administrador público, pensei na época. Esse era o caminho para atingir meu sonho grande: tornar o Brasil um lugar mais justo.

Ao ingressar na faculdade, busquei entrar no centro acadêmico, lugar que me parecia óbvio para testar se minha aspiração faria sentido. Obviamente a decepção foi instantânea ao deparar-me com um ambiente poluído pela política partidária, em que as pessoas estavam preocupadas mais com seus próprios interesses do que qualquer benefício público.

Ato contínuo, busquei, logo no início do curso, fazer estágio para ver o que mais o Direito tinha para me oferecer na prática. Acabei fazendo diversos estágios em contencioso cível, seja em escritórios de advocacia ou instituições públicas. Ganhei o gosto pela solução de conflitos na prática. A argumentação, o desenvolvimento de teses e a busca por resultados justos me fascinaram (você deve estar pensando, esse cara se acha o Batman, mas acho que sempre fui um idealista).

Após a formatura, já contando com um pouco da minha veia empreendedora, junto com colegas da faculdade, abrimos nosso próprio escritório para atuar com contencioso cível. Ao passar dos anos, apesar de poder ter a liberdade para desenvolver as próprias teses e fazer defesas inovadoras, a demora nas decisões judiciais começaram a causar frustração. Principalmente quando tinha que explicar para clientes situações de total imprevisibilidade nas decisões judiciais: sentenças que ignoravam jurisprudência ou o próprio entendimento anterior do magistrado.

Considerando esse novo sentimento de impotência, já que o resultado do meu trabalho não dependia tanto das minhas ações, busquei, mais uma vez, estudar algo que explicasse ou desse sentido para as ciências jurídicas. Então fiz pós-graduação sobre Análise Econômica do Direito, em que aprendi que os conceitos de eficiência e resultados ótimos, comuns para os economistas, devem ser adicionados àqueles de justiça que aprendemos na faculdade de Direito. Gostei tanto de discutir a intersecção entre eficiência e Direito que em 2008 fui para a Europa estudar no único mestrado disponível no mundo que tratasse de Law & Economics.

Ao voltar para o Brasil, advoguei em algumas das melhores bancas do país e pude atuar não só em processos judiciais estratégicos, mas também em grandes casos de arbitragem. Porém, mais uma vez tive que enfrentar o descontentamento dos clientes nas salas de reunião. Eles diziam: não é possível que para resolver meus conflitos só podemos escolher entre o Poder Judiciário (com todas as dificuldades que conhecemos) ou arbitragens (super caras e não tão rápidas quanto esperado).

Ouvia cada vez mais reclamações de clientes e colegas acerca das alternativas (ou falta delas) para solução de conflitos. Essa realidade fez reacender minha insatisfação com o trabalho que exercia, pois, por melhor que fossem minhas peças ou sustentações orais, eu não conseguiria tornar o Judiciário mais rápido ou as arbitragens mais acessíveis.

Foi então que aquela cena clássica de filmes em que o protagonista tem um momento eureca de descobrimento de sua grande ideia aconteceu: porque não juntar as qualidades do Judiciário e da arbitragem em vez de reclamar dos dois? Assim, criei, com minha sócia, a primeira câmara de arbitragem online do Brasil. Claro, mais uma vez, não foram só flores. Minhas noções de programação (que estudei quando tinha 10 anos de idade, mas isso já é outra história) não me permitiam fazer um sistema do zero, então, enquanto ainda estava advogando, contratei empresas de software, design, etc. para desenvolver sistema, site e tudo necessário para colocar a ideia no ar.

Evidente que em algum momento não seria mais possível advogar e empreender ao mesmo tempo. A energia necessária para se tocar um negócio é enorme, ainda mais no ambiente nacional sabidamente hostil ao empreendedorismo: noites seguidas sem dormir, decisões que podem causar a falência ou o sucesso da empresa e infinitas possibilidade de para onde levar seu negócio.

Então, em 2014, deixei de advogar e fui me dedicar exclusivamente ao empreendedorismo. Apesar de não fazer tanto tempo assim, o conceito de startup só era conhecido pelos advogados de fundos de investimento e ainda não se falava em legaltech ou lawtech no Brasil. Tivemos que desbravar, junto com outros poucos empreendedores, um mercado que ainda não sabia que viver com tecnologia no dia a dia do trabalho seria inevitável.

De lá para cá, não só descobrimos o significado da palavra startup (quando abrimos minha empresa, éramos somente advogados com uma ideia na cabeça e muita vontade), mas juntamos uma equipe fenomenal de advogados, desenvolvedores, cientistas de dados e designers e estamos mostrando a importância das lawtechs para todos operadores do Direito.

Ainda, para nosso orgulho, já tivemos alguns reconhecimentos por todo esforço. Por exemplo, nossa empresa foi eleita a startup jurídica mais atraente para o mercado neste ano de 2018. Com certeza, isso só nos mostra que estamos na direção certa e só nos incentiva a continuar trabalhando, pois ainda há muito a trilhar.

Com certeza o caminho continua a não ser fácil e os erros e decepções não desapareceram. Na realidade, eles aumentaram, pois ao empreender você tem que arriscar mais, muito mais. Mas se erro mais hoje, também temos muitos outros acertos. De qualquer modo, não trocaria a calça jeans e camiseta pelo terno e gravata novamente. Empreender está no meu DNA e, nesse sentido, continuo acreditando e trabalhando para perseguir o sonho de tornar o Brasil mais justo.


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