Carreira

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Os caminhos até a advocacia colaborativa

Sabemos das dificuldades da advocacia litigante. Com método colaborativo, advogados acordam entre si a não litigância

Crédito: Pixabay

Desde os tempos de faculdade, há mais de 20 anos, contrariando aqueles que sonhavam em me ver em carreiras jurídicas, minhas escolhas sempre estiveram ligadas ao exercício da advocacia.

Tracei um caminho para atuar na área do comércio internacional. Para isso passei por escritórios que atendiam empresas transnacionais, estudei concorrência internacional no mestrado e abri meu escritório para atender empresas em suas relações comerciais internacionais.

O mestrado me levou à docência, que passei a exercer com muito entusiasmo, nas áreas ligadas ao Direito Comercial, Societário, Relações Internacionais e outras ligadas ao meu estudo e objetivo.

Neste percurso por grandes escritórios de advocacia atuei em ações importantes, envolvendo grandes clientes, que me fizeram desenvolver a advocacia contenciosa, envolvendo confrontos em audiências e nos autos dos processos.

Por um bom tempo essa atividade me dava muito prazer, instigava meu lado argumentativo, um cotidiano com doses significativas de adrenalina. Os grandes riscos envolvidos nos casos levavam à frustração da perda ou à euforia da vitória.

Num determinado momento de minha carreira, os estudos e experiências adquiridas me levaram a conhecer um outro modo de fazer o Direito, por meio dos métodos alternativos à sentença, a mediação e a arbitragem.  Fui me apropriando desses métodos de resolução de conflitos e a advocacia foi tomando uma outra perspectiva em minha carreira.

A satisfação pessoal e profissional passou a ser mais constante e menos intensa, o que me fez perceber que já não me interessava a advocacia como eu a tinha conhecido nos primeiros dez anos de minha carreira.

E a partir desta primeira escolha por métodos alternativos à judicialização, fui desbravando novos caminhos, conhecendo as múltiplas possibilidades de resolução de conflitos até que, enfim, cheguei à advocacia colaborativa.

Fiz parte do primeiro grupo capacitado no Brasil em Práticas Colaborativas, em abril de 2014, no Rio de Janeiro. Atualmente, o grupo de profissionais capacitados vem crescendo no Brasil e estamos às vésperas da 10a Capacitação Nacional, que ocorrerá em junho, no Rio de Janeiro.

Chamamos de práticas colaborativas o método não adversarial de gestão de conflitos, cujo desenvolvimento do trabalho se dá por meio de uma equipe multidisciplinar que acompanha as necessidades dos clientes, como advogados, psicólogos ou terapeutas, consultores financeiros, especialistas em crianças ou adolescentes. Todos esses profissionais trabalham com os clientes e buscam conjuntamente construir acordos duradouros.

As práticas colaborativas surgiram nos EUA, na década de 1980, criadas por Stuart Webb, um advogado que buscava uma nova forma de advogar, já que também estava cansado do litígio. O modelo desenvolvido para atender casais em situação de divórcio por meio de um método consensual, suportado por profissionais que cuidam dos interesses de seus clientes e em conjunto favorecem o consenso e a satisfação dos envolvidos, foi apresentado em 1993. A partir daí muitos já são os advogados colaborativos nos EUA e no mundo.

A advocacia colaborativa trouxe de volta à minha carreira a possibilidade de advogar, agora com uma lógica que faz muito mais sentido em minha vida. Para o advogado é muito diferente pensar na advocacia colaborativa, especialmente os formados há mais de dez anos, quando o foco das universidades era o de formar para o litígio e nós, de certa forma, no início da carreira nos sentimos atraídos por essa lógica adversarial, buscando a vitória e a adrenalina.

Com a implantação dos métodos consensuais pelo próprio Poder Judiciário, as universidades tem mudado, ainda que lentamente, apresentando outras formas de resolução de disputas aos graduandos. A advocacia colaborativa é recém-chegada ao Brasil e desperta interesse daqueles que, assim como seu criador, estão cansados de litigar, como desperta também o desdém daqueles que não a conhecem e fantasiam que advocacia e colaboração não podem conviver.

Por meio da advocacia colaborativa posso novamente exercer a advocacia com satisfação e ver os resultados na vida dos clientes que atendo. Trabalhar em equipe, a partir do diálogo e da transparência, buscando um solução comum, que seja benéfica para o cliente que represento, mas também para à outra parte, gera acordos sustentáveis, que fazem sentido para quem os construiu e, por sua vez, se esforçarão para cumprir.

A base da advocacia colaborativa é a não judicialização. No início do procedimento, os advogados colaborativos assumem o caso e assinam um acordo de não litigância, ou seja, se comprometem a não levar o caso à apreciação do Judiciário. Os profissionais de outras áreas do conhecimento se unem à equipe, num esforço conjunto de atender as necessidades das famílias ou empresas.

Entendo que numa cultura combativa como a brasileira seja muito diferente apresentar um método em que os advogados acordam entre si a não litigância. Porém, o mundo se apresenta em sua diversidade de contextos e culturas e é tempo de acompanharmos essa complexidade, oferecendo um trabalho diferenciado e que atente para as necessidades do todo e não apenas de um dos lados, cuja sensação de vitória pode até vir, mas os custos ao longo do percurso talvez não sejam equiparáveis.

Todos sabemos das dificuldades da advocacia litigante. Talvez seja o tempo de descobrirmos novas possibilidades e oferecer aos clientes uma mudança de cultura e um atendimento mais amplo que, com certeza, os deixarão mais satisfeitos com o resultado. E aos advogados também, o que para mim foi uma excelente descoberta.

No Brasil os profissionais colaborativos, advogados, psicólogos, terapeutas, especialistas em finanças ou em desenvolvimento infantil, são capacitados pelo Instituto Brasileiro de Práticas Colaborativas (IBPC). A partir da capacitação os profissionais passam a compor o rol constante  no site do IBPC e a se relacionar com os outros profissionais capacitados.

Existem grupos de estudo em algumas cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Vitória, Ribeirão Preto e os interessados em participar dos grupos de estudo devem entrar em contato por meio do site do IBPC para receberem informações sobre os coordenadores desses grupos.

A advocacia colaborativa tem ganhado força no mundo e acredito que no Brasil também tenhamos um crescimento do mercado ao longo dos próximos anos. Quanto mais profissionais capacitados, mais pessoas conhecerão esta possibilidade de resolução de conflitos.

Os clientes se surpreendem com a oferta da advocacia colaborativa e os que se permitem experimentar saem bastante satisfeitos com os resultados obtidos. Acredito que acompanharemos a tendência mundial de buscar meios de não litigantes e que veremos a advocacia colaborativa se expandir, como escolha dos profissionais  e também dos próprios clientes.


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