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Inovação no Direito: quem são os líderes? Pesquisa mapeia perfil e habilidades

FGV Direito SP lança pesquisa sobre os profissionais de inovação que atuam para modernizar o trabalho jurídico no país

Inovação; direito
Assim como em outras áreas, o setor jurídico começa a demandar por inovação / Foto: Unsplash

A dinâmica de trabalho nas organizações jurídicas no Brasil tem passado por um intenso processo de transformação nos últimos três anos com a descoberta de mecanismos e técnicas de inovação no Direito. Há, contudo, uma infinidade de possibilidades ainda não exploradas que têm desafiado os negócios e exigido um novo perfil de profissional: são os chamados líderes de inovação jurídica.

No país, são poucos os escritórios de advocacia que já têm esse perfil de empregado, que, de forma resumida, é o responsável por desenhar toda a estratégia de inovação na empresa utilizando ferramentas adotadas principalmente por startups. Neste caso, entende-se inovação como um conjunto de processos, produtos e serviços que podem ser implementados para dar celeridade e modernizar os processos de trabalho na área jurídica.

Seu desenvolvimento depende da adoção de novas tecnologias, mas transcende a dimensão tecnológica e exige uma série de outras habilidades. Mas a carreira dos líderes de inovação no setor é nebulosa, uma vez que não se tem muitas informações disponíveis acerca dos conhecimentos que essa função exige, bem como das atribuições e formações necessárias.

Foi neste contexto que o Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP elaborou a pesquisa “Liderança e Inovação no Direito: A emergência dos líderes de inovação jurídica em um setor em transformação“, que será lançada nesta segunda-feira (26/10). Os responsáveis pelo estudo são os pesquisadores Ana Carolina Rodrigues Dias Silveira e Bruno Ett Bícego, com coordenadoria da gestora de projetos e líder de pesquisa Ana Paula Camelo.

Por meio de um levantamento bibliográfico e da realização de 27 entrevistas com esses profissionais, o relatório mapeia qual é o perfil do líder de inovação jurídico brasileiro, trazendo um panorama sobre qual é seu papel, quais são as atribuições diárias e as competências necessárias.

Ao todo, foram entrevistados 14 homens e 13 mulheres, com faixa etária média de 35 anos, distribuídos nas regiões Sudeste (20 entrevistados), Nordeste (4), Centro-Oeste (2) e Sul (1).  Do total, 85% deles são formados em Direito. Os principais cursos complementares recomendados são de liderança, gestão de pessoas, comunicação, marketing, vendas, gestão de projetos, programação, empreendedorismo e inovação, futurismo e direito das startups.

De forma geral, os eixos estratégicos de inovação no âmbito jurídico, segundo a pesquisa, são: natureza econômico-financeira (para reduzir custos e buscar novos negócios), cliente (para auxiliar a aprimorar a prestação de serviços), profissionais (para reestruturar processos dentro da empresa) e mercado (para posicionar a organização de maneira inovadora).

“Aqui no escritório, a gente não trata inovação como tecnologia, pura e simplesmente, a gente trata como uma forma de fazer melhor aquilo que a gente tem hoje (de criar mais valor em cima daquilo que a gente tem hoje). A gente tem situações de mudar uma metodologia de trabalho, trazer pitadas de metodologias ágeis à rotina de uma equipe, sem trazer nenhuma ferramenta ou estruturação de tecnologia, mas trazendo essas metodologias ágeis para poder ajustar a rotina e adaptar os termos de trabalho”, afirmou uma das pessoas entrevistadas.

Um dos pontos que chama atenção é que 90% dos profissionais começaram a trabalhar nessa função nos últimos três anos pelo menos, o que, segundo avalia a coordenadora da pesquisa Ana Paula Camelo, demonstra uma nova demanda que alcança cada vez mais projeção.

Essa percepção também é compartilhada por um dos entrevistados: “Acho que tem pressões de mercado, que, de certa forma, nos exigem ser mais competitivos, fazendo um trabalho de mais qualidade, mais diferenciado, mais aderente à expectativa dos clientes – que, em grande parte, são clientes empresariais –, com um máximo de eficiência. O cliente exige mais, por um custo cada vez mais acessível”, relatou. Todos os nomes dos profissionais foram mantidos em anonimato.

Segundo os profissionais, a rotina diária na profissão exige conectar pessoas, prospectar oportunidades, estudar e compreender desafios, além de treinar equipes. Alguns atuam na interface de relacionamento com clientes, sobretudo, de novos mercados, como lawtechs, legaltechs e startups em geral.

“Uma questão é colocar novas tecnologias dentro do escritório. Então, a gente começou a avaliar robôs, automação de documento, sistema de gestão, sistema de gestão financeira – que foi implementado também –, discussão de métricas, processos de venda […]. É trabalhar a cultura do escritório. Então, treinamento para as pessoas do escritório para elas terem uma visão diferente das coisas”, afirmou outra entrevistada.

Segundo seu relato, quando esse tipo de trabalho começa a ser feito, um novo perfil de cliente começa a surgir. “E aí o novo cliente tem várias demandas, o que obriga você a inovar, porque: um, você não conhece sempre o modelo de negócio dele, outro, você precisa trazer algumas outras coisas”. Outro entrevistado relatou que os clientes que têm conquistado “são só de tecnologia e inovação, ou clientes do mercado tradicional querendo inovar”.

De acordo com a pesquisa, os principais objetivos que podem ser alcançados por um profissional de inovação jurídica são: resolver problemas previamente identificados; garantir ganho de eficiência, produtividade e redução de custos; reorganizar fluxos de trabalho e de processos; prospectar oportunidades e gerar novos negócios; melhorar o relacionamento com o cliente; oferecer melhor experiência aos profissionais; criar uma diferenciação de mercado; e acelerar a transformação digital da organização.

Resistências e apoio institucional

A pesquisa concluiu também que, na tradicional área jurídica, há uma resistência em inovar que ainda precisa ser superada. E o papel do líder de inovação é essencial para acelerar essas mudanças.

Para os entrevistados, a resistência vem de diferentes lados. Por parte dos “profissionais da base da pirâmide”, haveria o receio de serem substituídos pela tecnologia. Já dos profissionais mais seniores, o problema está no fato de muitos não verem perspectivas e incentivos a longo prazo, para se engajar com esses projetos.

Neste contexto, o apoio institucional e o engajamento da cúpula da empresa nas propostas de inovação são essenciais. “Além das resistências, existe a questão de que mexer em processos e rotinas e fazer inovação vão demandar recursos financeiros, tempo, capacitação das pessoas, adaptação de espaços e a aquisição de uma solução tecnológica”, disse a coordenadora da pesquisa, Ana Camelo.

Para ela, essa pesquisa pode impulsionar um período de grande debate sobre as transformações no universo jurídico, incitando inclusive as universidades a pensar na necessidade de introduzir disciplinas inovação nos cursos de graduação.


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