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LawTechs, Siri e Google: qual o futuro do professor de Direito?

Alunos que superam os dois anos de faculdade enxergam pouca valia na permanência no curso, focando nos estágios

professor de Direito
Crédito: Pixabay

Os inúmeros congressos sobre LawTechs indicam que existe mais do que mera curiosidade sobre o impacto da tecnologia nas profissões jurídicas. Não tenho, entretanto, a intenção de escrever sobre essa preocupação com o futuro dos advogados; pelo menos, não agora. Meu ponto aqui diz respeito ao impacto que a tecnologia, dentro e fora da sala de aula, tem e terá sobre as aulas de Direito, um assunto tão ou mais importante do que as famosas LawTechs, mas que, por algum motivo, tem merecido menos atenção por parte dos profissionais da área jurídica, mesmo os professores.

Será que os professores de Direito irão acabar? Serão devidamente substituídos por Alexas ou mesmo por Siris? Basicamente, o professor era (e, em vários casos, continua sendo) um transmissor de conteúdo, construindo uma relação quase que parental com os alunos, em que a autoridade era um elemento default dessa relação, raramente desafiado, prescindindo de maiores obrigações de comunicação com alunos. Nesse cenário, havia uma atualização mais lenta do conteúdo e, consequentemente, um custo relativamente baixo para revisão e atualização de aulas já preparadas. O mesmo acontecia com as avaliações, repetidas ao longo dos anos. E todas as matérias geravam a expectativa de que o conteúdo integral daquela disciplina seria abordado; uma ideia de completude disciplinar, servindo principalmente à preparação para concursos.

Não há mais espaço para esse professor. Com a tecnologia, há uma necessidade de revisão não só dos currículos, mas, sobretudo, da forma como professores interagem com alunos. Estes precisam ver valor no tempo que despendem se preparando e estando em salas de aula, sendo necessária, para isso, a progressão das suas habilidades. Aliás, o primeiro efeito disso já se manifesta: a relação de autoridade não é mais a mesma; em um mundo caracterizado pela escassez de tempo, deter conteúdo, hoje facilmente disponível na internet, não representa diferencial. A relação quase parental, então, dá lugar a uma relação profissional, em que o respeito precisa ser conquistado. E é natural ver como os professores se sentem frustrados diante desse novo paradigma de valores.

Fora da dinâmica de preparação para concursos, os alunos que superam os dois anos de faculdade enxergam pouca valia na permanência no curso, transferindo o foco para estágios e experiências profissionais. Isso porque, nas faculdades de Direito, não há uma preocupação com a progressão de habilidades; basicamente, os alunos aprendem a ter fluência em uma matéria nova, exercício que repetem exaustivamente. Passam a entender o vocabulário de civil, processo, comercial, etc e depois tudo é praticamente uma enorme repetição, com poucas variações concretas. Por isso, aliás, vem crescendo a importância de atividades não relacionadas apenas à fluência, mas também com prática, como competições e júris simulados. Os alunos precisam saber negociar, falar, escrever, lidar com bases de dados, entre outras habilidades, incluindo as socioemocionais, tão importantes em um mundo de conexões e interações.

Além disso, o custo para preparação de aulas e avaliações aumentou consideravelmente.  Está mais complicado manter um curso atualizado e ainda mais difícil reaproveitar avaliações, hoje facilmente compartilhadas pelas redes sociais. Isso faz com que as Editoras e Empresas de Soluções Educacionais se reinventem, procurando entender a escassez de tempo e o volume de conteúdo que precisa ser processado pelos estudantes. De inimiga, a tecnologia pode virar parceira de professores e alunos, sistematizando informação, assegurando a fluidez do processo pedagógico, além de prover atualização e individualização do fluxo de aprendizagem.

Nos próximos anos os professores terão que superar três enormes desafios. Primeiro, precisarão se encaixar em um currículo (ainda não existente) que migrará para o desenvolvimento de habilidades, em que o professor perde a posição central e precisa, ele próprio, ser capacitado em novas formas de ensinar. Depois, terão que saber utilizar soluções educacionais com novas tecnologias para manter seus cursos atualizados e para prover os alunos com atividades e avaliações que irão promover habilidades além da simples memorização. E, por último, terão que entender que comunicação com os alunos é um fator chave para conseguir um resultado positivo em seus cursos.

E o interessante é que a tecnologia vai nos tornar mais – e não menos – humanos.


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