Carreira

Direito do Trabalho

Diário de Carreira: a semana de um advogado trabalhista

Na Justiça do Trabalho, a audiência é o momento mais importante e decisivo

Adoro as segundas-feiras! Gosto de acordar e olhar para minha agenda da semana, planejando a logística dos deslocamentos para as reuniões e atividades externas, e focando minha atividade mental nos assuntos e desafios que enfrentarei nos dias que se seguirão.

Claro que também gosto de férias, de viajar, do “dolce far niente”. Mas o advogado que atua na área privada (seja em escritório ou em empresa) tem que gostar da adrenalina do trabalho. Tem de estar pronto para matar um leão por dia, pois os desafios são enormes.

A segunda-feira começou com uma reunião do Conselho do escritório (Navarro Advogados), para tratar do planejamento estratégico e financeiro para os próximos anos. Ao longo da carreira, cada vez mais tempo é dedicado a assuntos relativos à administração do escritório, à gestão de sua área, recrutamento, treinamento e motivação dos estagiários e advogados mais novos etc.

Saí dessa reunião diretamente para outra, com advogada interna de uma empresa do setor financeiro. A empresa foi vendida e a estrutura de trabalho e remuneração de seus colaboradores está sendo revista. Assessoro a cliente na análise das implicações trabalhistas e fiscais de eventuais mudanças.

Fiz um almoço rápido num restaurante aqui próximo ao escritório. Em menos de uma hora estava de volta, para ler e responder as dezenas de e-mails que chegaram durante o final de semana e durante a manhã, sem contar os já respondidos por celular.

Em seguida, nova reunião, em que atendi um novo cliente, um alto executivo de uma grande empresa, recém-demitido, que está negociando um “pacote de saída” – indenização e benefícios comumente concedidos a executivos de alto escalão demitidos após longos anos de trabalho. Vamos assessorá-lo na negociação, considerando as práticas de mercado e os direitos passíveis de discussão, em caso de não haver acordo.

A última atividade profissional do dia foi recapitular os pontos mais importantes de um caso sobre o qual haveria uma audiência no dia seguinte.

Terça-feira
O dia começou com uma audiência matinal no fórum trabalhista da Barra Funda.

Sempre gostei de fazer audiências. Nas causas trabalhistas, é o momento mais importante e decisivo, pois dos depoimentos colhidos muitas vezes decorrerá a procedência ou improcedência dos pedidos discutidos. Infelizmente, os constantes e longos atrasos para o início das audiências têm levado alguns advogados a evitá-las.

Apesar de terem sido ouvidos seis depoimentos (as partes e mais quatro testemunhas), o juiz conduziu tudo muito bem – de forma célere, mas sem açodamento – e os advogados atuaram com lealdade, pelo que tudo transcorreu sem incidentes. Saí otimista.

De volta ao escritório, fiz um rápido resumo do ocorrido na audiência para uma colega da área, que se encarregou das providências para agendamento das próximas providências do caso.

Após responder e-mails e despachar assuntos de rotina com minha equipe, dediquei algumas horas para a revisão de um recurso e também de alguns relatórios a serem enviados a clientes.

Quarta-feira
De manhã fui a uma reunião num potencial cliente que pretende reorganizar alguns setores da empresa, e isso implicará em remanejar empregados, alterar forma de remuneração e outras situações delicadas.

Por volta das 15h fui ao Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) para presidir a reunião da Comissão de Direito do Trabalho, da qual sou presidente e, em seguida, da Reunião de Diretoria, em que discutimos e aprovamos parecer de minha autoria, a ser apresentado ao Supremo Tribunal Federal, num “leading case” sobre a terceirização que deve ser julgado em breve.

Há muitos anos participo ativamente de entidades da advocacia, grupos de estudos e comitês jurídicos de associações e sindicatos. Considero esse tipo de atuação institucional importante, especialmente para colaborar com a sociedade e com a classe, e também para ter uma boa rede de relacionamentos profissionais.

Diante da importância dos temas em pauta, as discussões se prolongaram e cheguei em casa quase nove horas da noite. Cansado, mas satisfeito!

Quinta-feira
Nessa manhã trabalhei na minuta de uma Carta Oferta (“Offer Letter”), que uma empresa apresentará a um profissional, oferecendo-lhe contratação como seu diretor-presidente. Nesse nível, são comuns cláusulas sobre remuneração variável, stock options, seguros D&O, prazo de vesting para obtenção de alguns benefícios ou programas, e outras disposições, que exigem abordagem interdisciplinar (trabalhista, tributária, societária, contratual).

No final do dia, fui ao lançamento do livro de um amigo. Sempre tento comparecer a esses lançamentos, primeiramente para prestigiar o autor nesse momento importante, e também para adquirir e ler a obra, de forma a manter-me atualizado com a doutrina mais recente.

Sexta-feira
O dia começou com reunião com um antigo cliente, com quem não mantinha contato há muitos anos. Mudei de escritório e telefone algumas vezes nesse período, mas, na sociedade da informação em que vivemos, bastou uma busca na internet para que ele me localizasse.

Após a reunião, respondi a alguns e-mails e em seguida fui para reunião-almoço com um ministro do Supremo Tribunal Federal, organizada pelo IASP.

De volta ao escritório, conferência telefônica em inglês com clientes e um advogado do exterior. Uma empresa brasileira está em processo de venda para investidores estrangeiros e, durante a auditoria legal (“due diligence”), apuraram-se alguns passivos trabalhistas e também potenciais riscos. Era preciso esclarecer algumas dúvidas do advogado estrangeiro.

Ao final do dia, reunião com a equipe, para planejar as tarefas previstas para a semana seguinte, em especial as audiências e prazos processuais.

E assim terminou a semana. Certamente existem advogados com rotinas totalmente diferentes da que descrevi neste texto. São muitas as formas de exercício profissional, e o advogado pode direcionar sua carreira para áreas ou formas de atuação que sejam mais compatíveis com suas vocações e inclinações.

Minha mensagem final aos jovens estudantes de Direito: se você tem a cabeça nas alturas e os pés no chão, se seus pensamentos são livres e suas atitudes responsáveis, na advocacia você terá grandes chances de construir seu próprio caminho e realizar-se profissionalmente.


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