Carreira

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Deixei um escritório para trabalhar com diversidade

Não tenha medo de errar, mudar e experimentar coisas novas

Anna Carolina Venturini trabalha com diversidade na Pluraliza
Anna Carolina Venturini, fundadora da Pluraliza / Crédito: Divulgação

“O correr da vida embrulha tudo,

a vida é assim: esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem.”

(Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas)

Desde o ano passado as pessoas me perguntam o que eu faço da vida e por qual motivo eu abandonei a carreira em um grande escritório de advocacia. Não é uma pergunta difícil, mas na maioria das vezes as pessoas reagem com dúvidas. Afinal de contas, como eu me graduei em Direito e não atuo em nenhuma das carreiras tradicionais da área? O que é trabalhar com consultoria em diversidade?

Acredito que a dificuldade de compreensão das pessoas tem relação com o fato de a minha trajetória profissional envolver uma escolha não tradicional dentre as carreiras jurídicas. Muito cedo temos que decidir qual carreira seguir e o “errar” ou “mudar” ainda são vistos negativamente pela sociedade, como se isso fosse sinônimo de fracasso.

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No meu caso, mudança foi a palavra-chave. Quando eu estava no ensino médio, tinha apenas uma certeza, queria uma profissão que me permitisse ajudar as pessoas e fazer alguma diferença na sociedade. Nada utópico de querer mudar o mundo, mas eu buscava algo com propósito e confesso que demorei para encontrar.

Das muitas opções disponíveis, acabei optando pelo curso de Direito, que oferecia uma gama de opções de carreiras a seguir no futuro. No início, a diplomacia e a magistratura pareciam as melhores opções. Ao final do primeiro ano, passei a me interessar pela carreira acadêmica, comecei a dar monitorias e a pensar em um projeto de iniciação científica. Só que tudo mudou no segundo ano da faculdade.

Por razões pessoais decidi que era a hora de começar a trabalhar e ajudar em casa de alguma forma. Dentre as várias opções de estágio, os olhos brilharam pela advocacia, algo que eu nem sequer tinha cogitado até aquele momento e comecei a estagiar em um grande escritório.

A rotina de estagiar em escritório grande e estudar era difícil. Não tinha hora para sair, trabalhava aos finais de semana e dormia pouco para conciliar trabalho e estudo. Com o passar do tempo, me acostumei à rotina e fiquei lá por quase 3 anos. Foi uma experiência muito engrandecedora, na qual aprendi a assumir mais responsabilidades, lidar com prazos, cobranças, clientes, enfim, amadureci. Mas tinha experiência em uma única área e queria experimentar outras coisas, então no quinto ano pedi demissão, passei a estagiar no Tribunal Regional Federal da 3a Região (TRF3) e retomei meus projetos acadêmicos.

Foi fazendo pesquisa para o meu mestrado que eu me encontrei e decidi que queria seguir na área de pesquisa e docência com foco em desigualdades e políticas públicas. Mas, novamente, precisava trabalhar e comecei a procurar oportunidades. Acabei retornando ao escritório como consequência da minha trajetória profissional: minha experiência profissional era predominantemente em Direito Imobiliário, eu conhecia as pessoas e gostava do escritório e, embora quisesse continuar me dedicando à pesquisa, precisava me manter e as bolsas de estudo eram (são) escassas na área do Direito.

Os anos se passaram e eu continuava sentindo falta de algo. Não estava feliz advogando. A mudança de cidade, o doutorado em Ciência Política e alguns acontecimentos pessoais me mostraram que a advocacia não era o caminho certo e que eu precisava – e podia – mudar. Mas, o que fazer?

Assim que eu retornei ao escritório comecei a ajudar a recém-criada comissão da diversidade e a pensar em medidas para tornar o ambiente de trabalho mais plural e inclusivo. E foi a partir do trabalho que eu desenvolvi na comissão que surgiu a ideia de criar a Pluraliza e trabalhar com algo mais ligado às minhas pesquisas.

A consultoria surgiu como uma opção que me permitia conciliar o doutorado, os projetos acadêmicos, a vida pessoal e fazer algo com propósito. Para além das pesquisas sobre ações afirmativas raciais e de gênero, desigualdades e políticas públicas, eu queria trazer o debate sobre igualdade de oportunidades para o mercado de trabalho.

Durante os anos advogando, eu vi claramente que as posições de prestígio em empresas e organizações eram detidas majoritariamente por homens brancos e que poucas mulheres e pessoas negras alcançavam esses cargos. E isso me incomodava.

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Em um país em que a maioria da população é preta, parda e mulher, por que essas pessoas continuam excluídas? Compreender as causas das desigualdades no mercado de trabalho e pensar em alternativas para mudar esse cenário é a proposta da Pluraliza.

Sair do escritório, empreender e criar a consultoria exigiram muito planejamento e coragem. O medo de mudar existia. Ouvi muitas vezes – e ainda ouço – que era trocar o certo pelo duvidoso, que o mais importante era ter uma carreira sólida, que essa história de propósito era besteira e que eu iria me arrepender. O caminho ainda é longo e está longe de ser fácil, mas não me arrependo das escolhas que fiz. Hoje trabalho com algo que realmente me fascina.

Para os estudantes de Direito que estão pensando em qual carreira seguir, o meu conselho é: não tenha medo de errar, mudar e experimentar coisas novas. Cabe a nós escolher qual caminho nos faz mais feliz e “realizados” pessoal ou profissionalmente.


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