O crime e o homem

Carreira

28 livros fundamentais, segundo Thiago Anastácio

A leitura faz com que, um pouquinho que seja, deixemos de ser quem somos e de viver o que vivemos

Fiquei bastante feliz em receber esse convite do JOTA para listar meus livros preferidos. Tenho fixação tanto por livros quanto por listas. A que segue não é definitiva e nem poderia sê-lo; aos 36 anos sei das muitas milhões de páginas que desconheço e que não conhecerei.

Vivo entre cinco tipos de livros. Os aborrecidos (os de direito e seus dogmas), os divertidos (poesias e crônicas), os literariamente invejáveis (romances e contos), os que invejo pela erudição científica (teses) e os de história (que abarcam política, estratégias de guerra, grandes nomes mundiais, julgamentos históricos etc).

Ferri lecionou que “com a leitura se armazenam improvisos”. Me parece que com a leitura seja-se capaz de todo dia, um pouquinho que seja, deixarmos de ser quem somos e de viver o que vivemos. Como em todas as viagens, ao retornarmos estamos sempre mais ricos.

Os “aborrecidos”

1-) Comentários ao Código Penal, de Nelson Hungria

A maior obra do direito penal brasileiro, escrita por seu maior expoente ao passo dos seus estudos para a elaboração do Código de 40.

Não falasse de direito, se diria que é obra de literatura e de primeira grandeza, tamanha a qualidade do uso da língua e o nível de conhecimento e talento para explicar e justificar aquela criação. Sua mais recôndita riqueza está em suas notas de rodapé.

2-) Lições Preliminares de Direito, de Miguel Reale

O gênio transformando em simples o que é extremamente complicado e prevendo as pobrezas humanas a partir da “evolução” das salas de aula. Além da aula de direito, é claro.

3-) O Impeachment, de Paulo Brossard de Souza Pinto

O manual que regeu as deposições legais de dois presidentes da nova democracia; ao menos, quando a batuta esteve com o Judiciário. Escrito em 1965, traz os fundamentos históricos do direito americano e seu encaixe ao direito brasileiro.

4-) A Expansão do Direito Penal, de Jesús-Maria Silva Sánchez

Provavelmente a grande “observação” sobre o direito penal e sua evolução nos últimos 30 anos, analisando sob a ótica das mudanças sócio culturais como a globalização e das novas exigências do mundo de mercado e sem fronteiras. Vívido, simples e absurdamente aguçado.

Os “divertidos”

5-) Primeira Poesia e Fervor em Buenos Aires, de Jorge Luis Borges

Brilhante de “a quem ler” até seu último verso. “A noite fechará os espelhos”, em Campos Entardecidos, ainda me emociona por motivos que desconheço.

6-) Trinta e Poucos, de Antonio Prata

Divertido pra caramba e escrito deliciosamente, capta o ser humano no que há de mais irônico, ridículo e ingênuo. O que há de melhor dentro da nova literatura brasileira.

7-) A Pátria de Chuteiras, de Nelson Rodrigues

Talvez nosso maior gênio falando de nossa grande paixão, o futebol. “Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio”. Dizer mais o que?

8) Toda Poesia, de Paulo Leminski

Carrega toda a obra do gênio conciso de Curitiba. Distraídos venceremos é o título mais legal que já vi num livro. E atenção para alguns textos de Alice Ruiz, esposa do poeta; Um exemplo explica a necessária atenção à Alice: me apaixonei por Leminski em razão de um verso, que além de não ser um verso, é de Alice e não de Paulo.

9-) Poesia Completa, de Manoel de Barros

O poeta de fora dos centros brasileiros. Cantor dos passarinhos, das crianças, das pedras e folhas. Em sua poesia os passarinhos são os poetas e os pequenos córregos, mares infinitos. “Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil/Fiquei emocionado/Sou fraco para elogios”.

10-) Não Contem Com o Fim do Livro, de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière

Gravador ligado e whisky em cima da mesa, dois dos maiores intelectuais do mundo conversando sobre a história do livro, a formação de suas coleções particulares e o futuro desse objeto único. Para qualquer um se sentir burro.

11-) A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector

Suas crônicas no Jornal do Brasil. Em cada crônica, um pedaço do ser humano pelos olhos de um lindo monstro sagrado.

Os “literariamente invejáveis”

12-) O Aleph/Ficções, de Jorge Luis Borges

O máximo que a literatura fantástica nos deu. Entre essas duas obras estão Os jardins das veredas que se bifurcam, A biblioteca de Babel, Emma Zunz, O Aleph… Espelhos, livros e punhais emaranhados em questões místicas e quânticas.

13-) O Nome da Rosa, de Umberto Eco

O maior medievalista do mundo homenageando seus ídolos e seu tema de predileção em obra absurdamente rica, não só por sua cultura, mas pelas claras referências (homenagens) a Sherlock Holmes, à Biblioteca de Babel e Jorge Luis Borges, Aristóteles, Averróis, etc.

14-) A Dama do Cachorrinho, de Anton Tchekhov

Pai do teatro russo e contista único, o conto que dá nome à obra é a obra prima das histórias concisas. O amor delicado, intocável e proibido na Rússia czarista.

15-) Infância, de Graciliano Ramos

Não sou capaz de descrever essa obra. É o trato com a língua portuguesa que mais me agrada.

16-) O Complexo de Portnoy, de Philip Roth

Um grande advogado de Nova Iorque tentando, na cadeira do psicanalista, entender e se livrar dos traumas causados pelos excessos de amor da sua “mãe judia”.

17-) O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Impossível descrever não só a delicadeza da crítica feita por um ateu ao estabelecido como verdade religiosa, como as humanizações de fatos tidos como divinos, como a concepção de Jesus, essa, sem dúvida, uma das imagens mais belas já desenhadas pelas palavras.

Os de erudição científica

18-) Crimes Sexuais: Bases Críticas para a Reforma do Direito Penal Sexual, de Renato de Mello Jorge Silveira


Obra impressionante, não só pela profundidade dos estudos e conclusões, como pela capacidade literária. Acima, sem dúvida alguma, das limitações das obras de direito penal. Por isso aqui.

19-) Curso de Literatura Inglesa, de Jorge Luis Borges

Algumas aulas que o antigo mestre proferiu na Universidade de Buenos Aires sobre a literatura de sua primeira língua, a inglesa. Já cego e há anos sem escrever ou ler, é assustadora a capacidade de citação e exemplos não só do inglês como o conhecemos, mas principalmente sobre antigos estágios do saxão e germânico, com versos e rimas citadas e analisadas. Assustador.

20-) Idade Média: Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos, de Umberto Eco e outros

Coletânea de textos sobre o período medieval em todos os seus aspectos organizados por Eco com o auxílio e rememoração dos maiores medievalistas do mundo.

21-) Ensaístas Americanos, coleção Clássicos Jackson

Textos que explicam a construção com base em preceitos intelectuais sólidas da grande nação americana. Textos de Benjamin Franklin, Russel, Poe entre outros.

22-) História do Brasil, de Boris Fausto

O mais completo de nossos compêndios sobre nós.

23-) Bem Julgar: ensaio sobre o ritual judiciário, de Antoine Garapon

Estudo e análise crítica de todo o desenvolvimento cultural do julgamento humano.

Os de história

24-) Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Sir Winston Churchill

Os diários de quem venceu o mal e como o fez.

25-) A Porta dos Leões, de Steven Pressfield

Reconstrução da visão dos principais combatentes israelenses na Guerra dos Seis Dias com depoimentos colhidos ou reconstruídos a partir do vasto material existente. Interessante para perceber a altivez de líderes que se tornariam mundialmente famosos, como Ariel Sharon (O leão de Deus) e principalmente Moshe Dayan, com seu pragmatismo político e assustadoramente, seu carinho pelos árabes. Valiosíssimo para entender a coragem e sobremaneira o alto grau de inteligência estratégica das forças israelenses.

26-) Diários da Presidência, de Fernando Henrique Cardoso

A mais detalhada exposição, vívida, da função presidencial e do jogo político por quem de fato esteve lá.

27-) Os Grandes Processos da História, de Henri Robert

Coletânea de dez volumes com os principais julgamentos da história da humanidade.

28-) Paixão de Crime, de Carlos Lacerda

Relato jornalístico de Lacerda sobre julgamento do ex-presidente da ordem dos advogados de Genebra, acusado de homicídio. Revela o quanto estamos distantes em seriedade nos julgamentos e na responsabilidade que todos deveriam carregar nesse sina de julgarmos alguém. Estamos longe daquele ano de 1960.

Minha lista ultrapassou os 10 livros costumeiros, não é? Acho que pequei pela quantidade não só pela excitação do tema, como pelo pedido por uma lista. As listas… Tenho das dez atrizes mais bonitas, das dez melhores bandas, dos melhores cantores, dos… Quase de tudo. Tudo mesmo.

Mas fiquei feliz mesmo foi de ver a lista do Ministro Ives Gandra, tão sincera, bonita e jovem. Sem as bobagens da falsa erudição que agora, relendo minha lista, eu mesmo temo cometer.

O Senhor dos Anéis, li grande parte, mas então vieram os filmes e a preguiça… E Harry Potter é um projeto de leitura e de filme sobre o qual, depois do Ministro dizer, sinto-me encorajado de confessar.

O mundo não precisa nem ser chato e nem falso. Viver para os julgamento dos outros faz a vida se vingar da gente. E se vingar feio.


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