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EUA podem reduzir estímulos sem arruinar mercado, diz Greenspan

Ex-presidente do FED aponta caminhos para economia global

SÃO PAULO – Injetados para socorrer o mundo da crise global de 2008, os instrumentos de estímulo monetário continuam ditando o ritmo dos mercados globais sete anos depois. Os bancos centrais imprimem dinheiro ao sistema financeiro em troca de títulos, conduzindo as bolsas de valores. A esta altura da festa, mediante sinais difusos dos tambores da economia real, chegou a hora de ouvir um maestro de verdade. Foi o que fizemos.

O Financista entrevistou, por e-mail, Alan Greenspan, 89 anos, homem que ocupou a cadeira mais importante do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) durante 18 anos. Entregou o posto a Ben Bernanke em 2006 com reputação de mestre da política monetária. Em 1998, Greenspan advertiu que os Estados Unidos em franca expansão perderiam o status de “oásis da prosperidade” em um mundo afundado em turbulências financeiras.

Com um tempero chinês, o alerta de 1998 soa familiar para o trabalho atual do colegiado do Fed, agora presidido por Janet Yellen e que definirá na quinta-feira (17) se iniciará a subida do juro básico dos EUA, hoje situado entre zero e 0,25% ao ano. Mas nem adianta perguntar a Greenspan o que Janet deveria fazer. “Uma coisa que aprecio de quando estive no Fed é que meus predecessores nunca falaram sobre meu trabalho. Nem eu falarei sobre sucessores.”

Sem apontar caminhos para o juro, a contribuição do ex-chairman do Fed é falar dos desafios do banco central. Na visão dele, a política monetária está em apuros diante do inchaço do balanço do Fed, que passou de menos de US$ 1 trilhão, na crise de 2008, para US$ 4,5 trilhões. É o peso dos estímulos econômicos.

Mas como normalizar o Fed sem produzir efeitos devastadores nos mercados? Ele mesmo admite a dificuldade: “não sabemos o que fazer, pois nunca estivemos aqui antes”.

Solução para balanço do Fed

Dissecando a atuação do BC, Greenspan chega a conclusões. O êxito dos estímulos em reduzir as taxas de juros de longo prazo é inquestionável. Isso refletiu positivamente nos indicadores de preço sobre lucro dos ativos por conta da arbitragem do juro real reduzido no longo prazo. E alimentou a alta das bolsas de valores para níveis recorde nos últimos anos.

No entanto, agora, acredita Greenspan, o dinheiro injetado pelo Fed já não gera tanto efeito. Segundo ele, o juro atual pago por depósito mantido no Fed, ao redor de 0,25%, representa um bom negócio para bancos, que não veem hoje muitos incentivos em fazer a grana girar na economia entre as empresas e as pessoas. Isso quer dizer que o estímulo anima o mercado, mas não necessariamente afeta a economia real.

“Isso significa, essencialmente, que, a esta altura, nós poderíamos, se deixarmos de lado a reação psicológica do mercado, fazer uma contração bastante substancial do QE [estímulo] sem nenhuma consequência ao mercado”, afirma Greenspan.

Sem detalhes de como funcionaria, a solução dele seria uma espécie de swap (troca) de ativos. Naquele balanço inchado trilionário do Fed há, na parte de ativos, os títulos do Tesouro dos EUA, enquanto, na parte do passivo, há depósitos dos bancos. O banco central poderia intermediar um swap entre o Tesouro e os bancos, utilizando alguma taxa de juro, no qual os bancos levariam papéis de curto prazo da dívida norte-americana, enquanto o Tesouro ficaria com os depósitos dos bancos.

“Temos condições de, em um fim de semana, contrair o balanço do Fed significativamente”, observa Greenspan. “Mesmo que o mercado perca a cabeça na segunda-feira, nada aconteceu, de fato, exceto a consolidação monetária das autoridades, sem efeito na economia real”, acrescenta.

Legado Greenspan

Embora muito respeitado, Greenspan não passa despercebido pelas críticas. Foi durante sua gestão que os empréstimos “subprime” prosperaram sob crivo frouxo de risco dos bancos, desencadeando calotes em hipotecas que infectaram a economia. Era a semente da crise de 2008 que provocou a maior recessão nos EUA desde a Grande Depressão.

O Financista perguntou se, caso pudesse voltar atrás, ele teria aumentado a taxa de juros muito antes de quando o fez, 11 anos atrás, e teria sido mais restritivo na desregulamentação do mercado financeiro.

“Não. O Professor Milton Friedman, eminente historiador de política monetária, aparentemente concorda. Ao fim de janeiro de 2006, escrevendo sobre o período de 1987 a 2005, Friedman disse: ‘não há outro período de duração comparável no qual o Federal Reserve desempenhou tão bem. É mais do que uma diferença de grau, é quase uma diferença de estilo’”, respondeu o presidente da Greenspan Associates.

Após 14 elevações seguidas de 0,25 ponto percentual, o colegiado sob o comando de Greenspan levou o juro básico norte-americano de 1% em junho de 2004 para 4,5% em janeiro de 2006 na despedida do maestro.

Grécia no euro

A respeito de riscos externos, o ex-chairman do Fed comentou sobre a Grécia, cuja população vai às ruas no próximo domingo (20) em novas eleições após ao colapso do governo esquerdista Syriza, liderado por Alexis Tsipras. Lideranças europeias querem que o país deixe a ideologia política de lado e comece a implementar reformas estruturais firmadas com credores em troca do socorro financeiro.

“O euro, como é constituído, é inerentemente instável”, observou Greenspan, citando o capítulo 10 de seu livro “O Mapa e o Território” (2013) no qual aponta diferenças culturais e de competitividade de alemães e italianos, espanhóis, portugueses e gregos.

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Por Conrado Mazzoni

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Publicada originalmente por O Financista


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